mémorias do coração

Estranhas memórias do coração
Transplantados que mudam de hábitos são um desafio às explicações da ciência
Por Gabriel Manzano Filho
E-mail: gmanzano@edglobo.com.br

Era uma vez um cinqüentão calmo, de vida feita, que adorava música erudita até que um dia, após ter feito um transplante cardíaco, passou a agir como jovem e a ouvir heavy metal em alto volume. O doador de seu coração era um rapaz de 20 anos, morto em um acidente de moto. Depois, soube-se do caso de uma senhora muito recatada que também sofreu um transplante no qual herdou o coração de outra mulher – esta, de temperamento bem diferente, grande apreciadora de sexo. Para surpresa do marido, seu comportamento conjugal mudou radicalmente dali por diante. Mais espantosa, ainda, foi a história da menina de dez anos que recebeu o coração de outra de oito, poucas horas depois de esta ter sido assassinada. Tempos depois, ao fim de uma sucessão de pesadelos, ela “reviveu” a cena fatal de sua doadora – o rosto do assassino, uma arma, um lugar. A polícia foi informada e capturou o criminoso, que confessou tudo.
Foram histórias assim que animaram o médico americano Paul Pearsall, ele próprio salvo de um câncer nos ossos por um transplante de medula, a investigar se haveria algum tipo de energia, ou memória, que passasse de uma pessoa para outra através do coração. Por dez anos ele ouviu casos e juntou depoimentos. Ao final, selecionou cerca de 150 episódios de gente que dizia ter experimentado alterações relacionadas, de algum modo, à pessoa do doador. Destes, 73 eram realmente intrigantes – todos de cardía
cos de grande percepção, que ele denominou “cardiossensíveis”, com histórias parecidas com as três acima citadas.
Mas Pearsall foi além. Neuroimunologista com mais de 20 anos de carreira, íntimo de famosos hospitais e institutos americanos, ele criou uma teoria para explicar tais fenômenos. Desafiando os cânones da ciência estabelecida, lançou um livro sugerindo que as células têm memória, que o coração pode pensar e tomar decisões independentemente do cérebro e que uma energia sutil, por ele denominada “energia V”, flui por todo o corpo e nos liga a tudo no universo. “O coração tem codificado um sutil conhecimento ligando-nos a tudo (…) É um órgão sensitivo, pensante, comunicador.” Classificou essa energia, sem muita modéstia, como a “quinta força” do universo, ao lado das quatro grandes forças da física – gravidade, eletromagnetismo, a força fraca e a força forte.
Até no cinema
Não chega a ser uma idéia nova. Os iogues falam desde a Antigüidade numa energia sutil que denominam prana. A filosofia japonesa a denomina ki e na chinesa ela é conhecida como chi. A acupuntura, com seus meridianos de energia, já foi até testada pela medicina ocidental, que confirmou seu poder anestésico e de cura em várias situações. Tais conceitos nos são familiares e talvez Pearsall não se importe se alguém disser que a sua “energia V” é uma nova versão dessa mesma idéia.
Mas Pearsall não está só nessa cruzada. Além de Memória das Células, o livro onde ele desenvolve essas hipóteses (ler Anote), uma professora de balé, Claire Sylvia, por ele entrevistada, decidiu contar sua própria aventura em outro livro, A Voz do Coração. Sua história começa ao pedir uma cerveja assim que despertou da cirurgia – ela, que jamais havia bebido cerveja na vida, mas tendo no peito o coração de um jovem e alegre consumidor da marca Miller. No embalo desses livros, uma consagrada autora de best sellers americana, Edna Buchanan,escreveu Pulse, história que um produtor de Hollywood comprou para transformar em filme.
A atriz Sally Field foi a escolhida, para viver o drama de uma mulher que tenta desvendar segredos da vida do seu doador e acaba descobrindo um crime. Para os militantes das chamadas terapias alternativas, é pura festa. Mais teorias, novos livros, até filmes, chegam como bom reforço para sua causa. Os cientistas ditos “tradicionais” dirão que não perdem tempo com hipóteses não comprovadas. Mas há uma razoável parcela da humanidade que não se enquadra nesses dois grupos. Gente que desconfia das soluções alternativas, que aplaude as conquistas da ciência, aprova o rigor e a seriedade de seus métodos, mas entende que ela não só tem muito o que ensinar como, também, muito o que aprender. Que a metodologia científica é muitas vezes demasiado mecanicista em seus critérios de avaliação. E que a falta de provas não basta, sozinha, para provar que algo não existe.
Dois monólogos
Shakespeare já nos lembrava que pode haver mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a vã filosofia. Do francês Blaise Pascal ouvimos que o coração tem razões que a própria razão desconhece. Existirá, então, uma terceira via que, sem negar o rigor do método científico, admita que muitas daquelas histórias são reais e pedem uma explicação? O tipo de debate que se vê em livros, palestras ou até em sites da Internet indica que esse espaço, se existe, é exíguo – as opiniões são monólogos, pontas que nunca se juntam. Em nome da ciência, por exemplo, o cardiologista John Schroeder, do Centro Médico da Universidade de Stanford, nos EUA, sentencia: “A idéia de que o transplante de órgãos transfere um código das experiências de vida é inimaginável”. Para Pearsall, que admite não dispor de provas para suas idéias, o problema é que “na ciência ocidental é tudo 8 ou 8” e seria preciso olhar outras culturas, “onde uma coisa pode ser 8 e também 80”.
Pontas que não se ligam
“Ao adquirir um novo coração, adquiri também um novo ritmo, novos impulsos, um novo conhecimento e novas questões.”
Claire Sylvia, professora de dança, que trocou de coração em 1990.
“Apesar de não poder explicar as coisas surpreendentes que aconteceram a Claire Sylvia, não hesito em acreditar nelas. É por isso que aprecio falar com astrônomos e físicos quânticos, que lidam continuamente com eventos misteriosos e inexplicáveis.”
Bernie Siegel, médico americano
“A memória resulta de um processo eletroquímico que ocorre entre as 100 bilhões de células nervosas do cérebro. Conhecendo-se o mecanismo de arquivamento do sistema nervoso, se verá que não há espaço para se fazer transferência de memória através de transferência de coração, fígado, rim ou o que seja.”
Dr. Gilberto Xavier, Instituto de Fisiologia, USP
“Os doutores não sabem tudo. Há 50 anos, as pessoas riam da idéia de um código genético na saliva. Quem imaginaria que isso iria se tornar essencial numa investigação criminal?”
Edna Buchanan, escritora americana
“Memória celular é a noção especulativa de que as células do corpo humano trazem em si a chave de nossa personalidade, nossos gostos e histórias, independente das células do cérebro ou do código genético. Uma insensatez.”
Robert Todd Carroll, no Dicionário dos Céticos.
“A história de Sylvia é um exemplo fascinante de como a memória celular pode sobreviver à morte física.”
Deepak Chopra, escritor
“Um currículo sério e respeitável, nos meios médicos, não impede ninguém de dizer uma coisa estapafúrdia. Newton, com toda a sua sabedoria, era membro de uma organização mística. Temos a obrigação de não entrar em uma solução fácil.”
Prof. César Ades, Instituto de Psicologia, USP
“O ritmo de nossa vida é ditado pelo coração. Sentimos isso dentro de nós, na relação com as pessoas e com as coisas. É com base nisso que elegemos o que nos agrada ou não. É uma energia real, ainda que a ciência hoje não tenha como medi-la.”
Celso de Paula, psicólogo
“A célula tem, de fato, o que poderíamos chamar de memória impressa, com os dados do código genético que definem a cor dos olhos, ou o temperamento. Não é, de modo algum, uma memória dinâmica, adquirida em nossas experiências de vida.”
Dra. Belkiss Romano, Incor, SP
A memória decifrada
Com a experiência brasileira dos mais de 130 transplantes do Instituto do Coração, em São Paulo, e sem uma única história desse gênero para contar, a psicóloga Belkiss Romano endossa a posição de Schroeder e acrescenta: “O sentimento não está no coração”. Belkiss diz ter visto, muitas vezes, uma radical mudança nas atitudes dos transplantados, a começar por um número relativamente alto de separações de casais. Mas não a surpreende que um cinqüentão de coração novo comece a gostar de rock: ele ganhou uma nova vida “e descobriu, quem sabe, que antes era um chato e agora quer ser legal”. E há ainda posições como a do biólogo inglês Rupert Sheldrake, que não crê em memória das células mas imagina outra forma de transferência, explicada em sua teoria dos campos mórficos. Esses campos seriam estruturas que se estendem no espaço-tempo moldando a forma e o comportamento de todos os sistemas no mundo material .
Um sério problema da teoria de Pearsall é que células e memória são assuntos já muito estudados e criar novas teorias é comprar uma briga feia. “Essa história de memória celular não faz nenhum sentido”, resume o professor Gilberto Xavier, do Instituto de Fisiologia da Universidade de São Paulo. Como ele explica, há cerca de 100 bilhões de células nervosas atuando no cérebro, cada uma delas recebendo ao mesmo tempo projeções (impulsos eletroquímicos contendo informação) de cerca de 20 mil outras, e projetando-se (isto é, passando esses impulsos eletroquímicos) para outras 20 mil. Essa transferência de informação depende de um aparato que inclui substâncias neurotransmissoras (agentes químicos) , proteínas (usadas na síntese dessas substâncias), o arma
zenamento dessas substâncias em vesículas.
A explicação esclarece grande parte do problema, mas outros episódios estranhos continuam à espera de explicação – não só memórias mas, também, a inesperada recuperação de doentes terminais em hospitais. Talvez a solução venha, um dia, da neuroimunologia – a área que estuda como as células se organizam para defender-se de corpos estranhos. Já se constatou que o sistema imunológico de pessoas otimistas funciona melhor do que o das deprimidas. A ação de grupos teatrais em hospitais comprova que a felicidade faz uma criança recuperar-se melhor, sugerindo uma relação entre o funcionamento cerebral e o imunológico. Há uma chance, também, de que no futuro o problema desapareça, com o surgimento do neo-órgão – uma cópia do próprio órgão do paciente, desenvolvida em seu organismo a partir de suas células sadias. Haverá então um renascimento, em vez de transplante, eliminando-se os problemas do doador, da fila, da cirurgia e do risco de rejeição. E o paciente que sair curado do hospital será, indiscutivelmente, ele mesmo. Quando chega um impulso elétrico, a vesícula lança seu conteúdo no espaço entre duas células; este é captado por um receptor e vai produzir alterações na célula seguinte (um processo denominado sinapse). E onde ocorrem esses processos? Em vários pontos, mas todos dentro do cérebro. As memórias visuais, por exemplo, no córtex occipital, na parte de trás do crânio. As auditivas, no córtex temporal (os dois lados das têmporas). “E não há corpos celulares desse tipo, altamente especializado, fora do cérebro”, lembra Xavier. Ou seja, não há espaço para se fazer transferência de memória através de simples transferência de um órgão.
Como seria ter um novo cérebro?
Seria um transplante de corpo

Devagarinho, o mundo dos transplantes vai ampliando as possibilidades humanas. Além dos óbvios transplantes de coração, fígado e rins, já se fazem também os de pele, de tendões, ligamentos, bexiga, ossos. Em menor escala, de alguns nervos, vasos sangüíneos, joelho, laringe, traquéia, até mãos. Aí pela frente vêm os de maxilares, úteros e pênis. Mas nenhuma dessas conquistas será tão espetacular quanto o transplante de cérebro, anunciado por um médico americano – o dr. Robert White, da Universidade Case Western Reserve. “Meus colegas e eu já demos os primeiros passos para isso”, diz ele num artigo para a revista Scientific American. E como tirar um cérebro da caixa craniana é impossível, White está falando, na verdade, de transplante de cabeça.
Sua demonstração de como seria tal cirurgia é de uma frieza espantosa. Ele imagina uma sala grande, para acomodar equipamentos e duas equipes. Em duas camas próximas ficariam o corpo de alguém com morte clínica cerebral decretada pouco antes e o paciente candidato ao transplante. A temperatura e o fluxo sangüíneo dos dois seriam rigorosamente monitorados. Em dado momento, os dois times, em conjunto, fariam incisões simultâneas nos dois pescoços, separando tecidos e músculos, expondo as veias carótidas, jugulares e a medula de cada um. Em meio a detalhadas providências, todas cruciais, a cirurgia, resumidamente, consistiria em ir mantendo o fluxo sangüíneo nos dois organismos e ir religando aos poucos, entre um corpo e a outra cabeça, todas as artérias, nervos, músculos etc.
Muita gente vai dizer: “Eu já vi esse filme”. De fato, o projeto lembra a clássica história de Frankenstein, célebre figura criada pela escritora inglesa Mary Shelley, filmada seguidas vezes. White adverte que, no atual estágio da medicina, o novo corpo manteria a pessoa viva, mas não está claro até que ponto ela poderia usar esse corpo. Há outro problema, de natureza nada científica: se um cérebro mudou de corpo, também as memórias, o controle nervoso e orgânico, a personalidade e os sonhos – se houver – serão transferidos. E, como isso é o que conta, o que houve, na verdade, foi transplante de corpo. Este é que foi doado, e o cérebro é, de fato, “o titular” da nova vida.
No universo religioso, isso traria questões cruciais: o espírito está representado no cérebro? Se o coração de quem doou o corpo vai continuar batendo por ordens de outro cérebro, quem sobreviveu? O próprio White se pergunta, no artigo, “como a sociedade aceitaria” esses conceitos. Diante deles, a questão ética da clonagem fica parecendo brincadeira. Como se percebe, a polêmica sobre memórias (e até mais que memórias) de uma pessoa em outra é uma discussão que está apenas começando.

Anote

Bibliografia

· Memórias das Células, Paul Pearsall, ed. Mercuryo, 1999

· A Voz do Coração, Claire Sylvia, Ediouro, 1999

 

 

Cereais antibarriga

http://www.trigoesaude.com.br/trigo-a-z/index.php?letra=B&idletra=24

http://www.trigoesaude.com.br/emagrecimento/cereais-antibarriga.shtml

http://www.trigoesaude.com.br/trigo-a-z/index.php

Receitas

http://www.trigoesaude.com.br/receitas-light/index.shtml

http://saude.terra.com.br/interna/0,,OI486293-EI1497,00-Me+curei+com+farelo+de+trigo+diz+jornalista.html

Germen

http://www.naturato.com.br/fibras5.htm

Como produzir clorofila do trigo

http://www.terapiascuritiba.com/naturopatia/como-produzir-clorofila-do-trigo/

 

 

 

Neste Artigo:
– O Que é um Placebo
– O Efeito Placebo
– A Teoria de Cura Mente-Corpo
– Dois Casos Verídicos
– Quando um Placebo é Benéfico
– Quando um Placebo Causa Danos
– A Expectativa de Cura

First, do no harm (Antes de mais nada, não cause danos).
Princípio da medicina, atribuído a Hipócrates

“A questão do placebo é um dos assuntos que mais fascinam e, ao mesmo tempo, mais causam controvérsias entre a classe científica. Com todo o conhecimento que a ciência hoje possui, o placebo ainda permanece um mistério e todo artigo sobre ele ainda é bastante incompleto. Seu bom ou mau uso pode significar uma vida, principalmente enquanto seus efeitos são pouco conhecidos a fundo e seu funcionamento, isto é, como realmente agem os placebos, ainda é alvo de muitas teorias, inclusive a abordagem psicológica. Para a classe científica, conhecer o placebo, suas possibilidades e seus efeitos é fundamental. E para um leigo, até que ponto é interessante saber que um remédio ao qual ele atribui sua cura não passava, por exemplo, de simples composição de amido com açúcar? Estas e outras questões são apresentadas aqui para reflexão, além da palavra de médicos que falam sobre o efeito placebo”.
O Que é um Placebo
A palavra placebo vem do latim e foi cunhada da Bíblia cristã, após vários erros de tradução, diz o doutor Ben Z. Krentzman. A palavra apareceu em primeiro lugar no salmo 116 e foi adquirindo uma conotação científica nos dicionários ao longo do tempo.
Hoje, o placebo é em primeiro lugar definido como uma substância inerte ou inativa, a que se atribui certas propriedades (como as de cura de uma doença) e que, ingerida, pode produzir um efeito que suas propriedades não possuem. Muitas pessoas que ingerem, por exemplo, uma pílula contendo nada mais que amido com açúcar, ou um dos dois componentes, revelam melhoras de uma doença, imaginando ter tomado o remédio feito especialmente para essa doença.
Mas o placebo não existe apenas em forma de uma substância. Uma ‘cirurgia espiritual’, até que não se prove que ela genuinamente tenha acontecido, pode ser um placebo. A pessoa ‘operada’ sente o corte, sente a sutura e fica ‘curada’ do mal que a afligia sem passar por uma cirurgia convencional.
Uma terapia também faz às vezes de um placebo, onde às técnicas dessa terapia se atribui um tipo de cura e isso realmente acontece. As chamadas terapias alternativas, como os florais, os cristais, a radiestesia e muitas vezes a própria psicoterapia ainda são consideradas por uma grande parte da ala científica como um placebo, afirma Dr. Walter Brown, psiquiatra.
Mas o uso do placebo não está restrito à área científica ou à área das terapias alternativas. Nossas avós conheciam muito bem os seus efeitos, quando aplicavam suas ‘poções mágicas’, e até mesmo suas histórias na hora de dormir, e curavam as dores de seus filhos, um ensinamento popular que é passado de geração a geração, sem questionamentos.
Também nessa categoria se encontram as orações, que promovem os chamados milagres e a conhecida ‘cura pela fé’, pelo menos enquanto para esses milagres e curas não se encontre uma comprovação, agem como um placebo.
E por fim, os próprios remédios, mesmo sendo fabricados com uma fórmula teoricamente capaz de combater determinada doença, podem, por erro de fórmula não curar determinada doença, mas tomados para esse fim, podem ainda assim agir como um placebo.
Alguns efeitos do placebo estão discutidos na seção a seguir.
O Efeito Placebo

O efeito placebo é o resultado que se pode observar e mensurar, em uma pessoa ou em um grupo de pessoas, diante de um tratamento onde o placebo foi administrado, de acordo com Dr. Robert T. Carroll, que acrescenta: “Por que uma ‘fake’ (falsa, artificial) substância, cirurgia ou terapia faz efeito, isso ainda não é completamente explicado”.
Alguns pesquisadores utilizam o procedimento chamado ‘duplo-cego’, em que normalmente existem dois grupos de pessoas, o grupo experimental e o grupo de controle. A um grupo, administra-se a droga ou o tratamento convencional. A outro grupo, aplica-se a droga ou o tratamento do tipo placebo. Dr. Carroll explica que, em um estudo duplo-cego, o pesquisador não sabe qual grupo recebeu a droga indicada para o tratamento e qual grupo recebeu o placebo. Ele só vai saber, diz o médico, quando tiver em mãos os resultados completos, para evitar que o avaliador incorra em distorções de observação e de mensuração durante o estudo.
A Teoria de Cura Mente-Corpo
A teoria de cura mente-corpo, criada por Milton Erickson, pai da hipnoterapia moderna, e divulgada pelo mundo pelos médicos que foram seus discípulos, reconhece a existência de uma estreita conexão entre a mente, o cérebro e o corpo. Dr. Ernest Lawrence Rossi, médico e psicoterapeuta ericksoniano, diz que a resposta placebo é uma pedra fundamental rejeitada na cura mente-corpo. Ele diz que as histórias de cura espontânea ou considerada ‘milagrosa’ são menosprezadas pela ciência, devido à nossa mente racional, como resultados não confiáveis. Em seu livro A Psicobiologia de Cura Mente-Corpo, Dr. Rossi diz que a premissa da ciência, neste caso, se aproxima de algo como “não é confiável, portanto não é real”. Ele explica que, para uma parte da ciência, que tem uma abordagem tradicional, o efeito placebo é simplesmente um “fator aborrecido”.
A teoria de cura mente-corpo pressupõe que exista uma rede de informações que passa do ambiente à mente do indivíduo, deste para o cérebro e em seguida ao corpo, através do que ele chama de “moléculas mensageiras”. Em princípio, diz ele, a informação começa com os genes.
As pesquisas de Dr. Rossi incluem o funcionamento do sistema nervoso central de forma detalhada e também o funcionamento do sistema límbico-hipotalâmico. Na teoria ericksoniana, existe uma lista considerável de doenças que se pode curar conhecendo-se o mecanismo de comunicação psicofísico. Com lugar de destaque para o placebo nesta abordagem e também para os fatores que determinam o stress, Dr. Rossi cita alguns casos verídicos e curiosos, que correm os bastidores da comunidade científica e provocam polêmica até hoje. Dois deles estão a seguir.
Dois Casos Verídicos
Estes e outros casos, registrados por Dr. Rossi, mostram que a resposta placebo pode se manifestar em doença ou cura.
O primeiro caso é relatado por Dr. Rossi como um caso de “vida e morte vodu”, ou como “o complexo de desistência no sistema nervoso autônomo”, onde um médico da Fundação Rockfeller, a serviço em uma missão no Pacifico Ocidental, convivia com nativos convertidos e não convertidos. O caso envolveu o padre da missão, seu assistente de serviços gerais, um nativo chamado Rob e um feiticeiro de nome Nebo. Certo dia, o padre veio até o médico depois de constatar que o nativo Rob estava muito doente. O médico examinou o nativo e não encontrou sinais de febre, nem queixas de dores, nem sinais evidentes de doença, mas, ao mesmo tempo, ficou impressionado ao constatar que o nativo estava extremamente fraco e doente. Por meio do missionário, o médico soube que o feiticeiro Nebo havia apontado um osso para Rob e o nativo se convenceu que iria morrer. O médico e o missionário foram até Nebo e o intimaram a ver Rob, caso contrário seu suprimento de comida, fornecido pela missão, seria cortado. O feiticeiro foi com eles até o nativo e, lá chegando, aproximou-se de Rob dizendo que tudo havia sido uma brincadeira, um engano. O médico (cujo relatório na íntegra foi publicado no livro de Dr. Rossi e nos artigos do fisiologista Walter Cannon) ficou estupefato ante a metamorfose. De uma fase de pré-coma o nativo passou imediatamente a uma fase saudável, com total força física, e na mesma tarde estava perambulando pela missão.
Dr. Rossi relata, mostrando artigos de outros pesquisadores como Cannon e Engel, que a morte vodu, muito comum naquela região, é devida a uma exposição intensa e prolongada ao stress emocional e à crença dos nativos de que estavam sob o poder do médico feiticeiro. A causa ‘real’, na verdade, era um sistema nervoso simpático superativado. Em outro caso semelhante, um nativo veio a falecer diante de um agudo completo “desiste-retoma” e de um poderoso agente sugestionador, que acabou se revertendo em tempo no caso do nativo Rob.
O segundo caso, descrito ainda por Dr. Rossi em seu livro, é do Sr. Wright, o qual estava acometido de mal generalizado e avançado envolvendo os nodos linfáticos, linfossarcoma. O Sr. Wright desenvolveu uma resistência a todos os tratamentos paliativos conhecidos e sua anemia o impedia de esforços com raios-X ou tratamento quimioterápico. Massas tumorais do tamanho de uma laranja já existiam no pescoço, axilas, virilha, peito e abdômen. O baço e o fígado estavam enormes e o duto torácico obstruído. A impressão, diz Dr. Philip West que acompanhou pessoalmente o caso, é de que ele estava em estado terminal e não-tratável.
Contrariando isso tudo, o Sr. Wright se encontrava menos desesperançado que seus médicos e pediu para ser incluído em um grupo de pesquisa que iria testar uma nova droga, o Krebiozen (que depois se demonstrou ser uma preparação inócua e sem utilidade). Os médicos não o consideraram qualificado para o experimento, já que não contavam que seu câncer pudesse regredir, depois de tudo já ter sido tentado. Sua expectativa de vida era de duas semanas, não mais que isto. Mas o Sr. Wright havia lido nos jornais que a clínica estava pesquisando o Krebiozen e implorou para ser colocado entre os que iriam receber a droga.
Ele mostrou enorme entusiasmo ao chegar a droga e implorou tanto que, contra todas as regras, seu médico acabou concordando em incluí-lo.
Dr. West, então, permitiu que ele recebesse injeções da droga, sendo que a primeira foi numa sexta feira, quando o médico, segundo conta Dr. Rossi em seu livro, foi para casa imaginando que na segunda feira, com quase toda certeza, infelizmente encontraria o paciente já sem vida. Mas, para surpresa de Dr. West, o Sr. Wright estava à sua espera. Sem febre, nada abatido, andando normalmente. Nenhuma mudança para pior foi observada. As massas de tumor haviam desaparecido, mostrando uma regressão mais rápida que o médico pudesse até mesmo entender.
O Sr. Wright teve alta e foi para casa, quando saiu novamente nos jornais que o Krebiozen era inócuo. O homem teve uma recaída e retornou ao hospital. Desta vez, porém, foi o médico quem propôs que ele retomasse as injeções de Krebiozen, alegando que a droga surtia efeito e que o que saíra no jornal era referente a um lote da droga com validade ultrapassada. Dr. West fez isso porque sabia que seu paciente saíra do estado terminal para voltar para casa são, graças à esperança que ele depositava na nova droga, e sabia também que nada mais poderia ajudá-lo. Novamente, a doença do Sr. Wright regrediu, diante das injeções. A recuperação, segundo o médico, foi ainda mais intrigante, pois as massas tumorais se dissolveram, o fluido no peito se extinguiu e ele voltou a andar. O caso do Sr. Wright teve um final menos auspicioso que o do nativo Rob, pois ele acabou falecendo, semanas depois de ter novamente sido veiculado no jornal – que ele tomou conhecimento – de que o Krebiozen realmente não tinha função alguma.
No entanto, o caso se tornou clássico para o eterno dilema da resposta placebo até mesmo em doenças graves como o câncer. O que todos os médicos do Sr. Wright concordaram foi que seu poder de otimismo, de alguma forma, havia influído nas várias fases de “desiste-retoma”, em que o paciente atribuiu ao placebo uma qualidade salvadora, daí seu tempo de vida ter sido pelo menos prolongado e com evidentes manifestações de cura.
Quando um Placebo é Benéfico
Um placebo pode ser especialmente benéfico quando algumas situações abaixo acontecem:
1. O médico, por observação clínica, tem de início um pré-diagnóstico da possível doença do paciente mas não deseja administrar uma droga química, devido aos efeitos colaterais indesejáveis, e então aplica um ‘remédio’ que na verdade não tem a função de curar aquela doença. O paciente toma e, acreditando estar tomando um remédio poderoso, fica livre da doença ou pelo menos dos sintomas.
2. O paciente deseja sinceramente se ver livre de alguma doença ou problema físico e não só deposita esperança no remédio que está tomando, mas também permite que o remédio faça efeito.
3. O indivíduo, mesmo sabendo que está tomando um placebo, ainda assim deseja se livrar do desconforto físico e o próprio indivíduo, atribuem qualidades de cura ao ‘remédio’ e permite também que esse faça o efeito.
4. A simples ida ao médico, que compreende a presença do médico diante do paciente, o ritual da anamnese (coleta de dados) e da observação clínica, o toque da mão do médico na pessoa, a atenção, a roupa branca do médico, esse aparato, por si só, é passível de provocar o efeito placebo, quando o paciente manifesta melhoras, porque confia em seu médico, segundo Dr. Brown.
5. Um placebo pode ser benéfico nos casos em que, ingerido em lugar de uma droga química, não provoca os efeitos colaterais que a droga provocaria. Existem pacientes que são sensíveis ou alérgicos a certos medicamentos, e o placebo, como uma substância inerte, não provoca efeitos colaterais.
6. Principalmente, um placebo é benéfico quando promove a cura, a melhora ou o alívio da doença.
7. Segundo Dr. Brown e Dr. Rossi, existem casos comprovados de melhora nas questões do stress e em pessoas com úlceras gástricas, verrugas, artrites e outras deficiências relacionadas ao sistema imunológico.
Quando um Placebo Causa Danos
Existem riscos para o uso indiscriminado dos placebos, alerta Dr. Brown quando diz que seu uso acaba evocando também a questão da ética. Ele questiona que, por um lado, o médico não deve enganar o indivíduo, e, por outro lado, não pode furtar-se em aliviar suas dores. Aqui, alguns exemplos dos efeitos não benéficos do placebo:
1. Quando o paciente toma um placebo e sente melhora dos sintomas, mas na realidade a doença continua avançando e pode ser fatal.
2. Quando, diante de uma droga química comprovadamente eficaz para determinada, o médico opta por um placebo.
3. Alguns pacientes, relata o Dr. Brown, apresentam efeitos colaterais mesmo com um placebo. Ele não cita, porém, que efeitos seriam estes.
4. Na automedicação, quando um placebo é recomendado por um amigo ou comprado por conta própria na farmácia.
5. Quando a pessoa despende seu tempo, sua vida e suas economias com um tratamento tipo placebo que não é a melhor indicação para o seu caso.
6. Na visão de Dr. Brown, o placebo não funciona para doenças mais sérias como o câncer, para a qual seria mais indicado o tratamento tradicional.
A Expectativa de Cura
Dr. Ernest Rossi afirma que a expectativa positiva de cura por parte de um paciente é 50% do caminho para sua recuperação. Nesses casos, o organismo, entre outras coisas, libera endorfina, que promove o relaxamento do estado de ansiedade provocado pelo pânico de uma doença.
A expectativa de cura é hoje muito mais reconhecida pelos médicos como um dos fatores benéficos decisivos, muito mais que 30 anos atrás quando se deu o caso do Sr. Wright.
Se ela realmente tem um papel fundamental no desempenho dos sistemas simpático, parassimpático e nos outros sistemas do organismo, a expectativa de cura pode ser considerada como uma espécie de ‘certificado de garantia’ para o funcionamento do corpo, no entendimento do médico. De acordo com a teoria ericksoniana, o locus de cura está dentro do organismo do próprio indivíduo, bastando ver que algumas doenças, mesmo sem remédio, também se curam espontaneamente. Essa abordagem, ainda pouco conhecida na América Latina, utiliza vários recursos antes de desistir e entregar o paciente à própria sorte. E, em meio a esses recursos, a resposta placebo é uma delas.

Copyright © 2004 Bibliomed, Inc.                  23 de Agosto de 2004

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