Netuno

Netuno, Um Mistério Diante de Nós – Texto Esotérico

A vida é como uma esfinge, e coloca diante de nós um desafio frontal:

Decifra-me, ou te devoro.”

Perplexo diante do desconhecido, o ser humano busca expandir sua compreensão. É inevitável transcender o velho e pequeno mundo a que está habituado. É também desejável. Mas o mistério do universo – associado em astrologia ao planeta Netuno – deve ser decifrado com bom senso, com moderação, e sem cair em armadilhas.  

A busca da felicidade é uma equação que pode ser resolvida. Viver corretamente momento a momento e reconhecer a presença do sagrado no cotidiano é algo que produz paz.  Para não ser engolido pela rotina, basta ter uma meta clara e elevada na vida; concentrar-se nela; acreditar em si mesmo – e manter plena atenção.

Tudo o que nos rodeia dá lições úteis na busca da libertação. Ao invés de dominar os outros, cabe perceber cada circunstância da vida como parte de uma charada que devemos decifrar. Três passos são úteis nesse caminho:

1) Olhar a realidade desde o ponto de vista da vitória, porque o otimismo é o combustível da vida;  

2) Identificar, compreender e abandonar, com decisão definitiva, os mecanismos que  sabemos que causam sofrimento;

3) Investir a energia disponível em ações que produzem bem-estar interior e estável.  

O Gigante Azul

A felicidade é meta comum do indivíduo e da sociedade, e ela nem sempre é feita com bom senso, de modo que não é difícil ver ao nosso redor sinais de decadência cultural e humana. Milhões de pessoas têm dificuldade de combinar corretamente dois fatores essenciais para a vida humana: estabilidade e transcendência. Se estabilidade é uma lição de Saturno, a  transcendência é algo que aprendemos com Netuno, um dos planetas mais distantes do nosso sistema solar.  

Viajando desde eras incontáveis à distância de mais de quatro bilhões de quilômetros do Sol, Netuno é gigantesco se comparado com a Terra. Está coberto de nuvens geladas de gás metano que giram em torno do planeta com velocidades de até dois mil quilômetros por hora. Possui quatro anéis e treze luas conhecidas. A maior delas, Tritão, se movimenta na direção oposta à das outras luas.

O clima em Netuno não é ameno. O planeta que estimula o amor universal recebe 900 vezes menos energia do Sol do que a Terra. Este corpo celeste gelado possui um sistema rotativo de tempestades cujo tamanho é semelhante ao do planeta Terra, e que gira lentamente no sentido anti-horário, deixando atrás de si um forte rastro de nuvens.

Aparências à parte, Netuno não é um dos nossos planetas locais. Helena Blavatsky escreveu que a conexão dele com nosso sistema solar é ilusória.[1] Dane Rudyar, astrólogo que estudou Blavatsky, considera-o um embaixador em nosso sistema solar, representando e trazendo para nós a energia cósmica da vasta Via Láctea. Daí o seu caráter insondável e, para alguns, enganoso.

Blavatsky escreveu sobre fontes de inspiração humana que estão muito além do nosso sistema solar, como as Plêiades, por exemplo. [2] É exatamente porque não pertence ao sistema local que Netuno traz a nós informação sobre a transcendência e o infinito.  

Enquanto a Lua regula ciclos tão diferentes como as marés, as colheitas agrícolas e os estados emocionais, Netuno inspira e dirige nos seres humanos a vontade da união transcendente com o Todo cósmico. Ele alimenta a busca por compreender o que é ilimitado. Ao lado de Júpiter, o gigante azulado é regente de Peixes, o signo mais místico e o último do zodíaco, que simboliza a culminação do ciclo evolutivo e a unidade maior de cada alma individual com o oceano cósmico.

Embora todos os seres busquem de uma forma ou de outra a transcendência, aqueles que vivem sob uma forte influência de Netuno a vivem mais diretamente. E nem sempre isso é feito com sabedoria, ou com discernimento: a busca netuniana de transcendência pode ser uma armadilha, como no caso das drogas, do alcoolismo e de outras formas de exagero e dependência.

O Desafio do Discernimento

Todo ser humano saudável tem um parentesco espiritual com planetas e estrelas. A energia da transcendência está situada em um local estratégico da sua alma. O uso que cada indivíduo faz desta energia na vida diária, porém, depende do seu talento para viver corretamente. A transcendência pode libertar o ser humano das suas limitações e levá-lo à felicidade: ela também pode causar confusão e fazer com que ele não enxergue coisa alguma com clareza.

A vida individual deve produzir um equilíbrio entre estabilidade e transcendência. As duas coisas são necessárias.

Se alguém está muito preso à rotina, uma doença – grave ou não – pode ser o instrumento natural para fazê-lo retomar contato com o que é infinito. A morte e outras formas de perda são passaportes para a transcendência quando o bom senso foi abandonado.

Se uma sociedade cai vítima do materialismo e esquece os valores éticos, surge uma doença social que a força a repensar tudo e restabelecer seu compromisso com o progresso da alma humana. A violência, as drogas, o abuso do sexo, o alcoolismo e a corrupção destroem as nações que esquecem das suas verdadeiras metas.

A Armadilha das Drogas

A estratégia pública convencional de combate ao uso de drogas tem tido pouco êxito porque os líderes políticos ainda evitam ver esse problema em seu contexto.  Há dirigentes políticos que são usuários de drogas. Os traficantes mais poderosos são influentes e movimentam grandes somas de capital. A repressão tem seu lugar, mas, como não combate as causas, está condenada a fazer o papel da aspirina: combate a febre, mas não elimina a doença. Impede o pior, mas não é capaz de vencer a luta.

A tentação do uso de substâncias psicotrópicas é criada na mente de milhões de pessoas pelo fato de que a droga parece cancelar, na consciência do usuário, os efeitos práticos imediatos da lei do carma e as limitações que ele, como cidadão, enfrenta e deve enfrentar. Há uma sensação de transcendência que, no entanto, não passa de uma armadilha. A droga encerra o indivíduo em uma prisão e o desconecta dos ritmos naturais da vida. Através dela, o cidadão comete uma violência contra o seu próprio organismo.  O psicotrópico rouba o bom senso, destrói a lucidez e desarticula o funcionamento correto dos cinco sentidos. A aparente transcendência causada pela droga prende o indivíduo a um submundo sutil em que ele perde a noção de limites, iludindo-se com a ideia de que esta é uma forma de liberdade. Mas a perda de noção dos limites não passa de uma anestesia alucinatória. O buscador da sabedoria respeita os limites da realidade concreta para transcendê-los em paz e com equilíbrio. O teosofista expande sua consciência enquanto mantém uma percepção precisa e cabal dos níveis inferiores da realidade, que enxerga com desapego.

O cidadão dotado de bom senso possui um projeto claro de futuro. Ao invés de fugir de uma realidade que não lhe agrada, ele constrói gradualmente a realidade que deseja, trabalhando em harmonia e cooperando com a lei do carma. Ele sabe que é preciso plantar, antes de colher.

Como nem todos possuem uma meta clara de vida, milhões de pessoas ficam vulneráveis a drogas e outras formas de perda de tempo e de lucidez, entre elas a dependência de notícias sobre esporte, informações fúteis sobre “a vida dos famosos”, o acompanhamento de campeonatos de futebol e a dependência do uso excessivo de televisão.

Cidadãos Lúcidos São Perigosos?

O comércio de drogas é em parte útil à sociedade materialista, porque anula o potencial criativo dos jovens, derrotando-os antes que comecem a mudar o mundo.

Indivíduos com metas claras em suas vidas são perigosos do ponto de vista daqueles que manipulam os jogos de poder, porque rejeitam a obediência cega ao deus Dinheiro e ao deus das Aparências e das Comodidades.  Todo idealista é incômodo do ponto de vista da mediocridade organizada. O consumo de drogas constitui um mecanismo de domesticação das novas gerações, roubando-lhes a criatividade e a capacidade de questionar que os caracteriza. Os jovens idealistas são anulados através da falsa transcendência que lhes arranca a capacidade de transformar o mundo. Mas eles podem libertar-se da droga e voltar à vida através do amor pela sabedoria e do respeito por si mesmos. A teosofia tem esta função.

Para o pensador e psicoterapeuta Viktor Frankl, “o consumo de drogas é apenas um aspecto do fenômeno da massa mais geral, a saber, um sentimento de falta de sentido na vida que resulta da frustração das nossas necessidades existenciais – algo que se tornou um fenômeno global das nossas sociedades industriais.” [3]

A sociedade ocidental vive hoje um impasse: de um lado, há uma necessidade de saltar para o que é novo e desconhecido. De outro lado, nós ainda não compreendemos plenamente as necessidades dos novos tempos.

Há um grande potencial positivo no fato de estarmos aprendendo a usar mais intensamente o nosso hemisfério cerebral direito,  e a ver as coisas de maneira integrada. Não se pode querer resolver os desafios isoladamente. Cada problema afeta direta ou indiretamente a todos.

Viktor Frankl demonstrou em seus livros que os conflitos entre seres humanos – violentos ou não – surgem quando não há um objetivo maior comum a eles. Os choques desaparecem não quando alguém os reprime, mas quando alguém formula uma meta importante que é comum a todos eles.

Começou a era de Aquário, e o sonho netuniano da fraternidade universal da era de Peixes passa a ser libertado de uma cadeia de incompreensões, transformando-se gradualmente em realidade. Mas uma defasagem deve ser desfeita. Os mecanismos de poder que organizam em grande escala os fluxos econômicos e políticos da energia coletiva da humanidade continuam funcionando em muitos casos da maneira antiga.

Uma das características da era de Peixes é o impasse contraditório entre o sonho e a realidade, o céu e a  terra, o ser humano e o meio ambiente, os pobres e os ricos, o discurso e a prática. Um exemplo da grandeza e da miséria da era de Peixes é a gloriosa descoberta das Américas,  seguida pelo massacre insano de milhões de índios e escravos, perpetrado cruelmente em nome de “Deus” e de “Cristo”.  

O cidadão atual, ainda marcado pela era de Peixes, quer transcender e não está maduro. Seu sonho é nebuloso. Muitas das suas tentativas de elevar-se o afundam ainda mais na confusão e na materialidade. É hora de acordar.

Revoluções  Derrotando Sonhos

Desde o século 18 houve uma série de tentativas revolucionárias que pretenderam instalar a fraternidade universal entre os seres humanos.  Nenhuma delas fracassou totalmente. Tivemos a Revolução Francesa, com a proclamação universal dos direitos humanos, e a bela revolução da independência norte-americana. No século 19, houve as independências da América Latina. Veio o marxismo, e com ele as revoluções socialistas da Rússia, da China e de Cuba. A Segunda Guerra Mundial serviu para reafirmar os valores democráticos.

Desde o século 18, a maior parte das tentativas revolucionárias era guiada por sonhos netunianos de solidariedade e igualdade, mas acabou causando grandes confusões. Tropeçando também se avança. Aos poucos surgiu uma comunidade internacional. Com a  revolução global dos meios de comunicação, não há dúvidas de que estamos a um passo de eliminar as barreiras entre os povos, como quer o projeto pisciano dos visionários de todas as nações.  Este é o Dharma, o Dever, da era de Aquário. A pacificação da alma humana liberta a energia da fraternidade. A força transcendente do gigantesco Netuno está cada dia mais forte no coração humano. Se nem sempre ela se manifesta construtivamente, é importante lembrar que reprimir não basta: é preciso, sobretudo, canalizar para o bem a energia do sonho.

A necessidade básica de transcendência se expressa naturalmente pelo amor e pela criatividade. Você transcende suas limitações como ser humano reconhecendo-se como parte de um todo maior: sua família, sua comunidade, seu trabalho, seus ideais, o universo inteiro.

Viver a transcendência é ser tudo e ser nada ao mesmo tempo. É não ter uma imagem congelada de si mesmo ou dos outros. É dominar a arte do silêncio, e da plenitude.

Pode-se viver a transcendência meditando, olhando o nascer do Sol, respirando profundamente, praticando tai-chi chuan, aikidô, zen-budismo, estudando religiões comparadas, amando desinteressadamente, cumprindo o dever profissional ou servindo a uma causa nobre sem esperar nada em troca. Quem transcende busca apenas “aquele poder que nos faz parecer nada aos olhos dos outros”. Transcender é ser feliz agora, sem impor condições prévias.

Alguém poderá argumentar:

“Se você tivesse metade dos problemas que tenho, como criar filhos, pagar prestações e trabalhar 12 horas por dia, veria que não tenho tempo nem a tranquilidade necessária para buscar a transcendência.”

“Errado”, diria eu.

A Esposa de Viktor Frankl

Muitas vezes são exatamente as condições difíceis que nos forçam a romper os limites da realidade conhecida, e transcender. O psicólogo Viktor Frankl perdeu pai, mãe, irmão e esposa em campos de concentração nazistas, onde ele também viveu durante anos.

E foi exatamente em um campo de concentração, enquanto estava cada dia mais próximo de ser mandado para a morte em câmara de gás devido à sua debilidade física por fome, que Frankl descobriu o ponto de partida que o levaria, anos depois, a criar uma corrente própria de pensamento psicológico. A ideia central estava no fato de que, quando o ser humano define para si uma meta maior que a sua própria vida, ele ganha acesso e passa a dispor de uma quantidade ilimitada de energia transcendente. E esta força elástica o torna superior a qualquer obstáculo externo.

Quando nada mais lhe restava como fonte de esperança ou de vitória, Frankl decidiu viver por sua esposa. A imagem dela em sua memória, objeto central de amor, lhe permitiu transcender e ser maior que a força que o arrastava para a morte no campo de concentração.

Um dia, enquanto caminhava cambaleando, Frankl começou a conversar mentalmente com a mulher que amava.

“Eu pergunto, ela responde”, registrou. E o fenômeno prosseguiu. Algum tempo mais tarde,  ainda em meio aos maus-tratos impostos pelos militares nazistas, Frankl constatou:

“Continuo falando com ela, e ela continua falando comigo. De repente, me dou conta: nem sei se minha esposa ainda vive! Neste momento fico sabendo que o amor pouco tem a ver com a existência física de uma pessoa.” [4]

Três Pontos Para a Vitória

Fundador da logoterapia, Viktor Frankl vê uma tríade trágica na vida:

* A dor,

* A culpa, e

* A morte.

E recomenda, como alternativa, um “otimismo trágico” com uma estratégia de três pontos:

1) Transformar a dor em vitória e crescimento;

2) Retirar do sentimento de culpa a oportunidade para mudar a si mesmo para melhor;

3) Fazer da transitoriedade da vida um incentivo para realizar ações responsáveis e significativas.

Segundo Frankl, uma boa receita para superar as dificuldades e transcender o mundo material é viver em função de algo que amamos incondicionalmente.  Nisso ele coincide com o ensinamento mais elevado de Netuno: o amor universal e incondicional, acompanhado de auto-sacrifício.

Ao contrário de outros enfoques psicológicos, a logoterapia “tira do foco da atenção todas aquelas formações de círculo vicioso e seus mecanismos de reabilitação tão importantes na criação de neuroses. Assim é quebrado o autocentrismo típico do neurótico”.

Para Frankl, devemos concentrar nossa vida em torno do que queremos fazer no futuro,  e do que decidimos escolher como meta e missão pessoais.

O futuro é uma lição de Júpiter; o dever, uma sabedoria de Saturno. Quem compreende o sentido profundo da existência deixa de perder tempo e energia com situações menores. Um sábio afirmou: “Quando se percebe o plano divino, o resto perde importância”.

A única maneira de não ser devorado pela perigosa esfinge do mistério da vida é decifrá-la. Isso se consegue transcendendo a prisão envolvente dos fatos de curto prazo. Quando o horizonte pessoal se amplia e as ações imediatas são colocadas a serviço de uma meta duradoura, é possível perceber a presença radiante do Sagrado e do Correto, em nós e em torno de nós.

NOTAS:

[1] “The Secret Doctrine”, H. P. Blavatsky, Theosophy Co., Los Angeles, volume I, p. 102 Veja também “Collected Writings of H. P. Blavatsky”, TPH, USA, vol. XII, p. 292.

[2] “The Secret Doctrine”, H. P. Blavatsky, Theosophy Co., vol. II, pp. 551.

[3] “Em Busca de Sentido, Um Psicólogo no Campo de Concentração”, Viktor Frankl, co-edição Ed. Sinodal e Ed. Sulina, São Leopoldo, RS, 1985, 174 pp. Ver p. 152.

[4] “Em Busca de Sentido”, p. 52 e seguintes.

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Leia o texto “A Filosofia de Carlos Castaneda”, de Carlos Cardoso Aveline. Está disponível através da Lista de Textos por Ordem Alfabética em www.FilosofiaEsoterica.com .

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