RESPOSTAS A 16 QUESTÕES CÉTICAS SOBRE RELIGIÃO

RESPOSTAS A 16 QUESTÕES CÉTICAS SOBRE RELIGIÃO

Valdemar W. Setzer
www.ime.usp.br/~vwsetzer
Original de 6/10/13 – Versão 1.3 de 7/10/13

Em 2/10/13 o amigo Guilherme Fernandes enviou-me um e-mail com o seguinte trecho:

“Achei em um fórum na Internet uma lista de questões bem críticas a respeito das religiões. As perguntas obviamente são feitas por uma pessoa que também entendeu os acontecimentos da Bíblia como literais mas são muito interessantes para se ver que confusão realmente se forma se forem assim interpretadas.”

Passo em seguida a enumerar as questões e a respondê-las. Elas estão transcritas aqui exatamente foram recebidas, a menos de um ponto de interrogação que foi adicionado no fim de algumas que não o tinham. Muito do que vou escrever aqui já consta da resenha que fiz do livro de Richard Dawkins The God Delusion, editado no Brasil com o título indevido de Deus, um Delírio. Nela, eu concordo com várias críticas de Dawkins às religiões, mas discordo de outras.

No meio do texto que se segue não serão introduzidos vínculos (links) para páginas da Internet com meus artigos citados. Com isso, pretendo evitar que o leitor distraia-se interrompendo a leitura deste texto. Os endereços de páginas estarão na última seção, Referências. Recomendo que, depois de ler todo o texto, um dos vínculos seja escolhido para a leitura do texto correspondente – mas o seu texto também deve ser lido primeiramente até o fim! Dessa maneira, como já foi provado cientificamente (ver meu artigo “O que a Internet está fazendo com nossas mentes”), o leitor prestará muito mais atenção e terá muito maior compreensão e memorização do texto lido.

1. Se Deus é todo poderoso (onipotente) por que ele precisa de um dia de descanso?

Eu nunca uso a entidade Deus, pois perdeu-se totalmente a noção do que ela pode ser. Ela virou mera abstração. Mas vamos supor que existam seres divinos, isto é, que não se encarnam em um corpo físico, e que em sua evolução estão mais adiantados do que os seres humanos (não vou entrar aqui em detalhes do que esse “mais adiantados” pode significar). Vários deles são citados na Bíblia (como anjos, arcanjos, potestades, principados etc.) e em várias correntes espirituais, como no hinduísmo (os devas, por exemplo).

Em primeiro lugar, nenhum desses seres divinos pode ser onipotente, pois se assim o fosse não poderíamos ter livre arbítrio. Obviamente, estou partindo da hipótese de que temos livre arbítrio, o que deve necessariamente ser negado por um materialista ou fisicalista, isto é, a pessoa que não admite a existência de “substâncias” e seres não físicos no universo. Em outras palavras, adota a posição de que só existem matéria e energias físicas no universo e no ser humano. Ora, a matéria é sujeita inexoravelmente às “leis” e condições físicas, portanto da matéria não pode advir a liberdade. De outro ponto de vista, uma “partícula” atômica (usei aspas pois ninguém sabe o que é uma tal partícula) obviamente não tem liberdade. Portanto, um grupo dessas partículas formando um átomo também não tem liberdade. E assim vamos ajuntando átomos formando moléculas, estas formando células, estas formando tecidos, estes formando órgãos, todos sem livre arbítrio, até chegar ao ser humano físico completo que, portanto, não pode ter livre arbítrio. Mas essa não é a vivência que qualquer um pode ter, por exemplo de claramente poder determinar seu próximo pensamento, e de concentrar-se nele por alguns instantes. Assim como o tempo, o livre arbítrio não pode ser definido, deve ser vivenciado – o tempo da Física não é o nosso tempo; nela não existe o momento presente, e o tempo pode ser revertido. Supondo a hipótese de termos livre arbítrio, evidentemente ele não pode vir de nossa constituição puramente material, isto é, existe algo de não físico, espiritual, em cada ser humano.

Em segundo lugar, vejamos essa questão do dia de descanso de uma entidade espiritual que seria Deus. É preciso chamar a atenção para o fato de que, na verdade, no original hebraico a palavra está no plural, Elohim. Esses seres são citados no início da Gênese, e só mais tarde, nesse livro, aparece uma outra entidade, I’hová, Jeová – já se vê que traduzir tudo isso por Deus é problemático; o Pe. D’Almeida usa, respectivamente, Deus e Senhor, mantendo pelo menos a distinção entre essas entidades.

Pois bem, os 7 dias da criação são claramente símbolos, imagens, para grandiosos eventos espirituais. Só uma interpretação literal muitíssimo ingênua considera esses dias como os nossos, de 24 horas. Uma prova disso está no fato de que somente no 4º dia é criado o Sol. Segundo a tradução de d’Almeida, “E disse Deus [no original “os Elohim”]: Haja luminares nos céus, para haver separação entre o dia e a noite; e sejam eles para sinais e para tempos determinados e para dias e anos.” Rudolf Steiner, em minha opinião o maior clarividente dos últimos séculos, em um ciclo de palestras de 16 a 26/8/1910 em München, GA (de “Gesammtausgabe“, catálogo da obra completa) 122, dá explicações muito convincentes sobre o significado desses símbolos do início da Gênese – infelizmente, esse ciclo não está traduzido, e exige um conhecimento prévio de elementos básicos da cosmovisão introduzida por Steiner, a Antroposofia.

Do mesmo modo que os “dias” da “criação” são imagens, o “dia de descanso” também é uma imagem. Não tendo corpos físicos, as entidades espirituais que criaram o universo obviamente não se “cansavam”.

Por que a Bíblia é cheia de imagens? Acontece que na época em que foi transmitida, as pessoas não tinham a possibilidade de pensar conceitualmete. Essa possibilidade só aparece na Grécia antiga, ao redor do séc. VII a.C. Mas o pensamento conceitual depende da evolução dos povos e das pessoas; por exemplo, o Cristo fala ao povo quase sempre em parábolas, em imagens – pois se falasse em conceitos, ninguém entenderia. Isso é claro no caso da Parábola do Semeador, p.ex. em Mateus 13. Depois de contá-la para o povo, os seus discípulos protestam: “13:10. E, acercando-se dele os discípulos, disseram-lhe: Por que lhes falas por parábolas? 13.11. Ele, respondendo, disse-lhes: Porque a vós é dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas a eles não é dado.” E passa a explicar conceitualmente o significado das imagens da parábola. Isto é, ele já tinha feito um tal desenvolvimento nos seus discípulos, que eles podiam pensar conceitualmente – como qualquer jovem de hoje consegue.

Note-se que muito depois dessa época certos povos ainda pensavam em imagens, como aconteceu nos contos de fadas genuínos, como os dos irmãos Grimm. Aliás, é muito interessante compreender o significado oculto dos contos de fadas, pois muitas vezes revelam o desenvolvimento do ser humano.

Assim, é fundamental não tomar as imagens da Bíblia como relatos de realidades físicas.

2. Fala “Não matarás!” mas assassina primogênitos do Egito, como pode?

Não é só essa morte. O Velho Testamento está repleto de mortes e até mesmo de política de terra arrasada (que, portanto, não foi inventada pelo Hitler), como é o caso da destruição total de Jericó (Josué 6). Nesses casos deve-se também considerar que os relatos são imagens para realidades, em geral espirituais. Parece-me que seria extremamente cretino se fosse uma realidade física o seguinte, sobre a destruição de Jericó: “E tudo quanto na cidade havia, destruíram totalmente ao fio da espada, desde o homem até a mulher, desde o menino até o velho, e até ao boi e ao gado miúdo, e ao jumento” (6:21). “Porém a cidade e tudo quando quanto havia nela queimaram-no a fogo; tão somente a prata, e o ouro, e os vasos de metal e de ferro, deram para o tesouro da casa do Senhor” (6:24). Não aproveitar nem mesmo o gado, é realmente uma idiotice. O que talvez esteja se querendo contar é que antigos cultos espirituais deveriam desaparecer, para dar lugar à nova espiritualidade trazida pelo povo hebreu, em que a divindade deveria ser procurada interiormente, e não no exterior, incluindo em imagens fabricadas como eram os ídolos. Isto é, as mortes relatadas nesse episódio não são mortes físicas.

Já que a pergunta referiu-se à saída dos hebreus do Egito, é interessante notar que não há nenhuma referência histórica no Egito sobre essa saída, sobre as pragas, sobre essa morte de primogênitos, e também sobre a morte do exército do faraó no Mar Vermelho. Esses fatos tão marcantes, se tivessem sido realidades, não teriam ficado sem citações nos escritos egípcios – mais uma evidência para considerar essa história como uma alegoria, uma imagem.

Deve-se também considerar que naquela época a morte era sentida de maneira totalmente diferente do que hoje. Havia uma certeza, uma vivência de que o ser humano continha algo de espiritual, e não desaparecia totalmente ao morrer. Para a mentalidade corrente hoje, materialista, a morte tornou-se a pior tragédia que pode ocorrer a uma pessoa, pois com ela tudo desaparece. Não é só a Bíblia que contém muitas mortes: esprema-se um volume da Ilíada ou da Odisséia de Homero, para ver quanto sangue sai de lá. Na Baghavad Gita, Crichna manda Arjuna matar todos seus parentes. São todas imagens para o triunfo de certas cosmovisões e práticas espirituais, ou para um desenvolvimento interior do ser humano, “matando” seus impulsos animais.

A questão cita um dos 10 mandamentos (que, tenho a impressão, são nove, leia-se cuidadosamente o 10º e ver-se-á que é a continuação do 9º, p. ex. em Êxodo 20). É muito importante notar-se que no primeiro, “Não terás outros deuses diante de mim” (20:3), não é dito que não há outros deuses, e sim que Jeová era a divindade que estava associada ao povo hebreu, e que devia guiá-lo para preparar a vinda do Messias. Em muitos trechos do Velho Testamento há menção de outras divindades – mas aquele povo devia obediência somente a uma, Jeová. Isto é, no início havia um monoteísmo daquele povo. O famoso historiador Paul Johnson, em seu livro A história dos judeus (Rio de Janeiro: Imago Editora, 2001) situa, no judaísmo, o conceito de uma divindade única universal apenas a partir do profeta Isaías.

3. Se o incesto é banido, e Adão e Eva tiveram apenas dois filhos homens, da onde vem toda a humanidade?

Novamente, deve-se tomar a história de Adão e Eva como imagens. Note-se que a citação bíblica da criação do ser humano precede a história do Paraíso, onde ocorrem Adão e Eva: “E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; macho e fêmea os criou” (Gen. 1:27). Aqui há duas coisas interessantes. Como Deus, sendo uma divindade, não tem corpo físico, obviamente essa “imagem de Deus” refere-se à criação do espírito humano, isto é, daquilo que cada ser humano tem de divino dentro de si. Em segundo lugar, Adão aparece mais tarde: “E formou o Senhor Deus [no original, Jeová-Elohim] o homem do pó da terra, e soprou em seus narizes o fôlego da vida, e o homem foi feito alma vivente” (Gen 2:7). Portanto, a expressão “macho e fêmea os criou”, em 1:27, não se refere a Adão (em hebarico, Adam; adamá é terra!) e indica simplesmente que no início não havia separação dos sexos, o ser humano era hermafrodita. Obviamente, sua constituição física era muito diferente da nossa. Já com Adão, temos quase a nossa constituição física (certamente o cérebro, esse órgão tão plástico, era diferente).

Adão e Eva devem ser considerados como representantes da humanidade quando esta ainda estava em contato com a divindade, isto é, não tinha se materializado a ponto de perder esse contato. Note-se que, apesar de a Bíblia citar que Adão e Eva tiveram apenas 3 filhos homens (o relato do nascimento de Set está em Gen. 4:25), Caim casa-se com uma mulher (4:17). Tudo isso só faz sentido se os relatos não forem de realidades físicas, ou melhor, se transcenderem as simples realidades físicas. Muito da Bíblia pode ter tido alguma realidade, mas o intuito é de descrever algum processo espiritual de desenvolvimento da humanidade e de indivíduos. Por exemplo, está escrito “E saiu Caim de diante da face do Senhor e habitou na terra de Node” (4:16), indicando o fato espiritual de a humanidade ter se afastado da divindade.

4. Por que mesmo criando o universo inteiro do nada ele precisa de uma costela para criar a mulher?

Novamente, trata-se de uma imagem, e não da descrição de uma realidade que ocorreu fisicamente.

Aproveito para observar o seguinte. Santo Agostinho parece ter introduzido a noção de “pecado original”, que teria sido cometido por Adão e Eva no Paraíso. Isso está totalmente errado, pois naquela época a humanidade ainda não era autoconsciente, e portanto não podia pecar – como os animais, que não pecam. Isso fica claro na grandiosa imagem “Então foram abertos os olhos de ambos; e conheceram que estavam nus, e coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais (Gen. 3:7). Isto é, antes de comerem do “fruto proibido”, como está escrito, “Mas da árvore da ciência do bem e do mal, dela não comerás, por que no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (2:17), Adão e Eva não tinham autoconsciência. Note que uma criança pequena também não a tem – em geral, ela fala “Eu” apenas ao redor dos 3 anos de idade; antes refere-se a si própria pelo seu nome: “Tetê qué”, como diz minha netinha Maithê, de um ano e 8 meses. Uma criança pequena, não tendo autoconsciência, não se envergonha de estar nua. No alemão, usa-se “Erbsünde“, “pecado herdado”. Isso está um pouco melhor, pois depois que Adão e Eva, isto é, a humanidade, foi “expulsa do Paraíso” (Ge. 3:23), quer dizer, deixou o mundo espiritual e caiu na matéria, essa condição material é herdada de pais para filhos.

5. Por que culpa Satã pelo mal se o mundo está no controle de Deus? 

Aqui tocamos em um mistério muito profundo. Como essa entidade Deus, que é considerada como sendo boa, cria o mal? Acontece que sem o mal não haveria o bem. Se não houvesse o mal, que nos primórdios da humanidade nos fez desejar os prazeres terrenos, jamais teríamos abandonado o mundo espiritual. Como dizia meu sogro Rudolf Lanz, “Estaríamos todos ainda no Paraíso, de bata cor de rosa tocando lira, que chatisse!” Se não houvesse o mal e o bem, não poderíamos fazer escolhas, não teríamos autoconsciência e nem liberdade. Portanto, as entidades que produzem o mal foram criadas pela divindade, que permitiu a sua atuação sobre o ser humano, como é magnificamente relatado pela imagem da serpente no Paraíso (Gen. 3).

Santo Agostinho não reconhecia a existência do mal, como entidade que tenta desviar o ser humano de seu progresso espiritual. Para ele, o mal era simplesmente a ausência de Deus. Sobre o mal como ação de entidades espirituais, e seus vários aspectos, veja-se meu artigo “O bem e o mal do ponto de vista da Antroposofia”. Hoje em dia, é essencial para o desenvolvimento da humanidade reconhecer os vários aspectos do mal, a fim de se o evitar e a fim de se o sublimar, transformando-o em bem. O artigo citado dá indicações de como reconhecer certos aspectos do mal.

Satanás é apenas um dos aspectos do mal; é o Mefistófeles do Fausto de Goethe. Ele aparece a Fausto na cena do escritório desse último, que lhe pergunta quem ele é, recebendo a resposta “Ich bin diejenige Kraft/die stets das Böse will,/und stets das Gute schafft”, “Eu sou aquela força/que sempre quer o mal,/mas sempre cria o bem” (minha tradução literal). Isto é, o mal existe mas, dependendo da atitude do ser humano frente a ele, pode ser transformado em um bem. Um dos lemas dos maniqueus, uma corrente cristã dos séculos III a VI, altamente esotérica – e por isso foi aniquilada pela Igreja, especialmente por Santo Agostinho, que tinha pertencido a ela mas não conseguiu galgar todos os graus iniciáticos da mesma –, era “ame bem o mal”, o que revela um profundo conhecimento do mistério do mal.

Satanás está ligado a tudo o que nos prende à Terra e nos faz esquecer, ignorar, que somos não só terrenos, mas temos algo de espiritual em nós – que, por exemplo, nos dá a liberdade. Toda a tecnologia é fruto dele. No entanto ela pode, justamente se bem usada, servir para o ser humano libertar-se das forças da natureza, seja interiores como exteriores a ele, o que exponho em meu artigo “A missão da tecnolocia”.

É devido à tecnologia da Internet que estas linhas podem ser lidas por muitas pessoas; eu teria que falar para cada uma se não fossem as máquinas. No entanto, a tecnologia não está servindo para libertar o ser humano, muito pelo contrário, aprisiona-o, pois está sendo mal usada. Note-se, por exemplo, como mais de metade da humanidade é bestificada todos os dias pelos aparelhos de TV. Ou como pessoas não conseguem desligar-se da Internet. Parece-me que, com os smartphones e tablets Satanás deu seu maior golpe, pois com eles a Internet pode ser usada a qualquer momento e em qualquer lugar, viciando as pessoas, tirando-lhes a calma, diminuindo sua capacidade de concentração, prejudicando seus relacionamento social etc.

6. Demanda das pessoas que perdoem e sejam boas mas manda os pecadores para o inferno eterno?

Essa questão de “Inferno” é uma invenção da Igreja Católica; não se encontra no Velho e no Novo Testamento. Uma maneira correta de encarar a vida humana é que ela é uma chance de desenvolvimento individual. Certas pessoas usam bem essa chance, outra fracassam, caindo no mal e assim regredindo em seu desenvolvimento.

A vida humana só tem um sentido se for admitido, como hipótese de trabalho, que existe uma reencarnação. Alguma noção de reencarnação existiu desde os primórdios da humanidade; essa noção teve que desaparecer, pois se ela tivesse continuado a existir jamais a humanidade teria caído suficientemente na matéria, a fim de desenvolver a autoconsciência e a liberdade. Por isso a Igreja Católica fez um grande bem eliminando a ideia de reencarnação. Para ela, existe em cada ser humano uma alma imortal, mas que não retorna para o mundo físico depois da morte. Eu nunca consegui compreender por que uma pessoa que admite a existência de algo espiritual, imperecível, no ser humano, não consegue admitir que essa essência espiritual possa retornar, reencarnando-se.

É preciso dar crédito a Alan Kardec pelo fato de ter introduzido novamente no ocidente, em meados do séc. XIX, uma noção da reencarnação. Infelizmente a sua teoria espírita não trouxe uma clara conceituação da constituição humana suprassensível, de modo que não ficou claro o que se reencarna no ser humano. Deveu-se a Rudolf Steiner, que empregou um outro método de investigação do mundo espiritual completamente diferente, sem mediunismo, com uma conceituação moderna e muito mais abrangente, do que é e como se dá o processo de reencarnação, feita no primeiro quarto do séc. XX. De qualquer modo, tanto na concepção de Kardec quanto na de Steiner não existe, depois da morte, uma permanência “eterna” de algo do ser humano num “céu” ou num “inferno”.

Agora estamos na fase de desenvolvimento da humanidade em que devemos voltar a reconhecer a existência de um mundo espiritual. O nascimento de um ser humano significa a sua morte para o mundo espiritual; sua morte física significa um nascimento para esse mundo. Mas só aqui, durante a vida na Terra, em vigília, é que podemos fazer o mal; ninguém faz o mal dormindo, quando nosso espírito abandona quase que totalmente nosso corpo e por isso perdemos quase que totalmente a consciência. Esta depende da interação do espírito com o corpo físico.

É fácil dar um exemplo de mal que se pode fazer a outrem: o desenvolvimento da liberdade é uma das missões do ser humano. Portanto, uma ação que vá contra a liberdade de uma pessoa sadia é um mal, podendo ser denominado de pecado.

A pessoa que faz um mal levará consigo esse ato, que terá consequências, tanto para sua vida atual, quanto para sua próxima encarnação. Essas consequências não são uma expiação, como é considerado por algumas correntes espiritualistas que admitem a reencarnação. Elas serão oportunidades de reparar o mal que foi feito. Por exemplo, suponhamos que em uma vida uma pessoa faça um grande mal a outra. Na próxima encarnação, talvez elas se encontrem em um relacionamento intenso, em que a primeira poderá fazer uma grande ajuda à segunda. É assim que se pode compreender o destino, o carma. Rudolf Steiner foi o grande iniciado que trouxe uma nova compreensão sobre o carma. Em particular, não há absolutamente nenhum sentido em se considerar que um espírito humano possa encarnar-se em um animal, como uma noção degenerada de reencarnação faz crer. Já pelo que foi exposto pode-se chegar a essa conclusão: um animal não tem autoconsciência e nem livre arbítrio; não tem nem mesmo a individualidade que cada ser humano tem. Portanto, é impossível um espírito humano encarnar-se em um animal, pois não teria a chance de se desenvolver.

Tenho a impressão de que a Igreja Católica, bem como outras correntes cristãs e religiões terão que, algum dia, reconhecer a existência da reencarnação, pois sem ela a vida humana não faz sentido. Curiosamente, no Novo Testamento aparece em alguns trechos a noção de reencarnação, como por exemplo quando João Batista é perguntado se é Elias, isto é, se é a reencarnação desse profeta (João 1:21) e quando o Cristo confirma isso (Mateus 11:13-14 e 17:10-13).

7. Conhece tudo do destino e futuro mas diz para as pessoas rezarem de toda maneira?

Na questão 1 eu disse que nenhum ser divino pode ser onipotente, pois nesse caso não poderíamos ser livres. Pois nenhum deles pode ser onisciente, já que não têm nossos órgãos de sentidos e, portanto, não podem observar o mundo físico como nós o observamos. Eles também não podem sentir nossa dor, nosso sofrimento. Para que a divindade tivesse essa vivência, foi uma das razões por que um deles, de altíssima hierarquia, teve que incorporar-se, no batismo do Jordão, na corporalidade de Jesus de Nazaré. Note-se que os evangelhos de Marcos e João começam nesse batismo, pois antes não havia a atuação do Cristo. Note-se também que os capítulos 1 e 2 de Mateus e de Lucas, que tratam dos eventos antes do batismo, são totalmente diferentes, como resumi em meu artigo “Discrepâncias entre os Evangelhos de Lucas e Mateus”.

Essa total discrepância não é fortuita; ela foi explicada por Rudolf Steiner em seus ciclos de palestras sobre os evangelhos, especialmente no ciclo sobre o evangelho de Lucas, GA 114 (São Paulo: Ed. Antroposófica, 2ª ed. 1996). Neles, ele mostra como o Cristo, o Eu Cósmico, é um ser absolutamente fundamental no desenvolvimento da humanidade, e não tem praticamente nada a ver com o Cristo de quase todas as igrejas que se consideram cristãs. Vejam-se, por exemplo, as barbaridades anticristãs que foram cometidas em nome dele e os preconceitos e dogmas que são pregados por várias igrejas.

Já que estamos tratando aqui de religião, é interessante notar que o Cristo não quis inaugurar nenhuma nova religião; quis introduzir uma renovação no judaísmo, tornando-o universalista e esotérico. Segundo Steiner, o importante da contribuição do Cristo não é sua doutrina, seus ensinamentos, mas sim os fatos de sua vida e de sua morte, e os exemplos que deu.

Se o ser humano tem liberdade, nenhum ser divino pode saber o que uma pessoa fará no futuro. Como eu expus na questão anterior, o destino, o carma, é uma tendência que todos nós carregamos. O destino nos coloca em uma determinada situação em nossa vida. O que faremos nessa situação depende de nosso livre arbítrio, desde que ajamos com consciência, escolhendo nosso caminho.

É preciso compreender o que deveria ser uma reza, uma oração. É um apelo para uma ajuda do mundo espiritual. No entanto, esse apelo não pode ser feito por motivos egoístas, isto é, em benefício próprio, da própria família, comunidade ou nação. Uma reza desse tipo leva a um desenvolvimento do egoísmo, que é sempre destrutivo. Por exemplo, um agricultor reza para que chova em seu sítio. Ora, se chover em seu sítio, não choverá em outro lugar, prejudicando uma outra pessoa. Note-se que a questão formulada pode implicar em uma reza em benefício próprio. No entanto, é possível fazer uma oração para que se consiga algo que possa redundar em benefício alheio, como por exemplo conseguir-se uma cura de si mesmo para poder atuar ajudando outras pessoas.

Já que tratamos da oração, vamos abordar algo análogo, que é a meditação. A meditação ativa é a maneira correta hoje em dia para se desenvolver órgãos de percepção do mundo espiritual, latentes em todos os seres humanos. Ao contrário da reza, que apela para uma ajuda do mundo espiritual, a meditação faz a pessoa elevar-se a esse mundo, e não procura uma ajuda.

É importante distinguir um exercício de concentração mental de um exercício de meditação. O primeiro ocorre quando se concentra o pensamento em um único tema, por exemplo um sapato. Pode-se pensar nas várias formas de sapato, suas utilidades, como são fabricados, mas tudo em volta desse tema; se durante o exercício pensar-se, por exemplo, em uma pessoa querida que usava um certo sapato, e passar-se a pensar nela, perdeu-se a concentração mental. Um exercício de meditação ocorre quando o pensamento é concentrado em um tema puramente espiritual, como por exemplo os primeiros versículos do evangelho de João. Exercitar a concentração mental é excelente, pois ela desenvolve o a serenidade e o autocontrole. A meditação não deve em absoluto visar objetivos egoístas, pois o resultado pode ser desastroso, como a exacerbação do orgulho e do egoísmo. Sobre meditação, recomendo fortemente os livros de Arthur Zajonc Meditação como indagação contemplativa (São Paulo: Ed. Antroposófica, 2010), e o de Heinz Zimmermann e Robin Schmidt, Meditação – Uma introdução à prática meditativa antroposófica (São Paulo: Ed. Antroposófica, 2012)

8. Se tudo é parte de um plano porque manda os estupradores/assassinos para o inferno por seguir o plano?

Já foi dito que essa questão de inferno é uma invenção e não uma realidade. Também foi dito que o ser humano tem livre arbítrio, portanto pode desviar-se de seu destino, de seu plano, isto é, o tal plano não é determinista e inexorável.

Se uma pessoa comete um crime, está fazendo um mal não só a outra pessoa, mas a si própria. Aliás, se o tal Deus é bom e fosse onipotente, por que deixaria uma pessoa cometer um crime?

Houve uma época, nos primórdios da humanidade, em que esta estava em total convivência com a divindade. Aos poucos, a humanidade afastou-se da divindade, caindo na matéria, o que é magnificamente representado pela imagem do Paraíso bíblico e da expulsão dele. Esse afastamento foi gradual; houve uma época em que seres divinos ainda estavam em contato com alguns seres humanos, que se submetiam a intensa preparação para isso nos chamados Centros de Mistério da antiguidade, como os de Éfeso, Eleusis etc. Havia esses centros, esses templos, em muitos países; por exemplo, os monolitos de Stonhenge são restos deles. Por meio deles os seres humanos entravam em contato com seres divinos e recebiam indicações de como agir. Até os casamentos eram planejados. Aos poucos, esse contato feneceu, e isso tinha que ocorrer para que o ser humano desenvolvesse sua autoconsciência e liberdade. Restou uma lembrança, uma tradição da existência do espírito no ser humano e no universo. Isso durou até o séc. XVIII, onde ocorre algo inimaginável anterioremente: a ideia de que o ser humano é uma máquina, muito bem representada pelo livro de O. De La Méttrie, L’Homme-Machine, de 1748. As próprias religiões afastaram-se do espírito; o Deus delas virou, como foi dito na resposta à questão 1, mera abstração, o que levou Nietzsche a dizer que “Deus está morto”, frase que ele usou pela primeira vez em seu livro Die fröhliche Wissenschaft (“A ciência alegre”), de 1882.

Agora estamos na era de podermos voltar ao espírito, vivenciá-lo conscientemente, mas é absolutamente essencial que não percamos o que conquistamos, isto é, a autoconsciência e a liberdade.

9. Por que apesar de infinitamente inteligente se sente satisfeito com rituais idiotas?

Há pessoas em todos os estágios de desenvolvimento. Para alguns, os rituais das igrejas podem ser satisfatórios, para outros não. Há pessoas que se satisfazem em se sentir bem e reconfortadas. Outras querem compreender por que as coisas são como são, por que os rituais têm a sua forma e não outra, e saber quais os resultados se eles forem seguidos. A humanidade atingiu um ponto em seu desenvolvimento no qual meras atitudes sentimentais não deveriam mais satisfazer um espírito evoluído. Os sentimentos devem ser acompanhados de compreensão intelectual. Por outro lado, o intelecto deveria sempre ser frutificado com os sentimentos e com os impulsos de vontade. Quando o ser humano age somente a partir de seu frio intelecto, ele se torna desumano, age como uma máquina. Note-se, por exemplo, que o nazismo não tinha compaixão, e era impulsionado por uma teoria racista e uma teoria darwinista (de necessariamente haver uma nação mais forte do que todas as outras, que deveria dominá-las) completamente falsas (por exemplo, os judeus não constituem uma raça). Note-se ainda que todas as leis sociais sempre contêm algo de sentimento; uma lei social totalmente racional seria, por exemplo, constatando-se que há excesso de população no mundo, permitir que as pessoas se matassem umas às outras até a população diminuir o suficiente.

O importante é reconhecer que os rituais perderam totalmente o significado. Em particular, o ritual da missa católica remonta parcialmente a períodos anteriores ao cristianismo, e tinha um profundo significado espiritual. É muito provável que os próprios oficiantes desses rituais não compreendam o seu significado; os rituais viraram mera tradição. Isso obviamente não satisfaz uma pessoa que quer, além de sentir, também compreender.

10. Como se pode criar luz no primeiro dia e a fonte de luz (Sol) só no 4 dia?

Esse ponto já foi abordado na resposta à questão 1 acima. Esses dias da criação são imagens para grandiosos acontecimentos espirituais, e não são dias de 24 horas.

11. Por que fica bravo com humanos que fazem algo errado quando eles não tinham o conceito de certo/errado?

Essa questão provavelmente refere-se, como outras, à entidade Deus e à época bíblica. De fato, Joevá era um ser divino extremamente exigente e severo em seus castigos. Ai de quem o contrariasse e não seguisse seus mandamentos!

Mandamentos foram necessários naquela época, pois a humanidade tinha que aprender o que era certo e errado. Mas é necessário lembrar, como foi dito acima, que a Bíblia está repleta de imagens, de símbolos, que representam uma realidade espiritual subjacente. Essas imagens são descritas com elementos humanos, como a raiva e a vingança. Mas no mundo espiritual não é assim. Em particular, era necessário que o povo hebreu preparasse, pela hereditariedade, um corpo físico especial. Por isso a miscigenação com outros povos era proibida, daí o racismo daquela etnia – o que não faz nem um pingo de sentido hoje em dia. Como crianças pequenas aprendem que não devem fazer algo levando um castigo se o fizerem, o povo hebreu também era castigado se não cumprisse os mandamentos. Naquela época, não era possível compreender o que era certo ou errado, portanto era necessário obedecer cegamente. O código de Hamurabi, na Babilônia, também impunha mandamentos.

Note-se algo maravilhoso na época bíblica. Com os mandamentos (os 10 e mais outros 600 e tantos) ficou formalmente, abstratamente, caracterizado o que era ser bom ou mau. Bom era a pessoa que seguia os mandamentos, mau quem não os seguia. Isso significou um tremendo avanço no intelecto: estava escrito o que era ser bom ou mau.

Hoje em dia, como já foi dito, a divindade afastou-se para que possamos ser livres. Mandamentos não fazem mais sentido. Existem leis sociais, mas o correto seria segui-las por se compreender sua validade, e não por medo de se levar um castigo ou multa – como seria o caso de se passar um farol vermelho no trânsito. Novamente, devemos agir a partir da compreensão, e não por tradição ou imposição. Hoje podemos compreender o que é certo e o que é errado.

Infelizmente, essa compreensão está baseada essencialmente no mundo material. Para que o ser humano progrida, é necessário desenvolver a compreensão espiritual, pois o ser humano não é só matéria, como já foi exposto acima. Em particular, é preciso mudar a maneira de pensar, pois o mundo espiritual é totalmente diferente do mundo físico.

Quanto à parte da questão referente à humanidade, em seus primórdios, não ter tido o conceito de mal e bem, ela stá respondida na questão 4.

12. Por que não pode ser culpado pelo mal mas recebe os créditos por todo o bem?

A pergunta deve provavelmente referir-se ao fato de Deus ser considerado bom; nesse caso, como criou ou permite o mal? A resposta a isso está na questão 5.

De qualquer modo, é uma chance para estender a questão da missão da humanidade, pois agir de acordo com o mal ou o bem deveria significar ir contra ou a favor dessa missão, respectivamente.

Parece-me que a missão da humanidade é o desenvolvimento de 4 capacidades: 1. Consciência; 2. Autoconsciência; 3. Liberdade (livre arbítrio); 4. Amor altruísta.

Note-se que essa ordem vai num crescendo: é impossível ter autoconsciência sem consciência, liberdade sem autoconsciência e agir por um amor altruísta sem liberdade.

Os animais têm consciência, mas não têm os outros 3 pontos. No entanto, a consciência dos animais é instintiva, como sentir dor. A nossa vai muito além, pois pode basear-se em conhecimento. Quando percebemos algo, como uma rosa, reconhecemos que se trata de uma rosa, com todas as suas características, pois com nosso pensamento atingimos a essência espiritual da rosa. Portanto, a consciência que temos da rosa é muito superior à que um animal tem vendo-a. Ele talvez não chegue muito perto dela, pois já teve a experiência de que os seus espinhos machucam. Nós podemos adotar a mesma atitude por conhecermos que a roseira tem espinhos, e sabermos que os espinhos machucam, sem termos tido a vivência disso.

A autoconsciência é a consciência de si próprio. Temos essa percepção por meio de sentimentos. Rudolf Steiner, em seu livro A Filosofia da Liberdade, GA 4 (São Paulo: Ed. Antroposófica, 2000 – a edição com a tradução de Alcides Grandisoli é muito mais fiel ao original), que não tem nada de esotérico – e que ele considerava a sua contribuição mais importante, e aquilo que perduraria no decorrer do tempo –, chama a atenção para o fato de que são nossos sentimentos que nos fazem sentir como indivíduos; se fôssemos apenas seres cognitivos, o mundo e nós próprios nos seriam indiferentes. No entanto, os sentimentos são sempre seguidos de pensamentos. Por exemplo, se sentimos uma dor no cotovelo, imediatamente pensamos em cotovelo, na causa da dor, e o que podemos fazer para minorá-la.

Com a autoconsciência, podemos refletir sobre o que estamos fazendo, por exemplo, “Será que estou usando o computador por um tempo longo demais? Será que não seria mais sadio fazer um intervalo, dar um pequeno passeio? O que essa máquina está fazendo comigo?”

Animais têm consciência, mas não têm autoconsciência. Jamais um cachorro sentou e pensou: “Agora vou lembrar daquela linda cadelinha que vi ontem” – já pelo fato de animais não pensarem e não formularem conceitos, no caso “lembrar”, “linda”, “cadelinha”, “ver” e “ontem”. Assim, quanto mais autoconscientemente age uma pessoa, menos animal ela se comporta, mais humana ela é.

O livre arbítrio é a possibilidade de fazer escolhas conscientes. Ele se dá inicialmente no pensamento, para depois traduzir-se eventualmente em uma ação física, como mover um membro e falar.

Finalmente, executar uma ação a partir do amor altruísta significa, como caracterizou Rudolf Steiner no citado livro A Filosofia da Liberdade em termos de ação moral, agir por amor à própria ação, sem nenhum benefício próprio. Se uma ação é feita instintivamente, ou por sentimentos, mesmo que ajude alguém, não é a execução de um amor altruísta. Portanto, o amor altruísta pressupõe a autoconsciência e a liberdade.

Note-se como as forças adversas ao progresso da humanidade tentam evitar ou deturpar esses 4 pontos. A TV retira boa parte da consciência e da autoconsciência do telespectador, que é normalmente forçado a entrar em um estado de sonolência, semi-hipnótico. Tente-se prestar atenção a cada imagem e frase transmitidas, e ver-se-á que em cerca de um minuto sente-se um esgotamento mental, que leva a um relaxamento mental, pois as imagens mudam ou sucedem-se com grande rapidez. Devíamos desenvolver o amor altruísta, no entanto com a transmissão de violência na TV e nos jogos eletrônicos há um abafamento, uma banalização da compaixão, de se sofrer por que o outro está sofrendo. Em particular, a origem dos jogos eletrônicos violentos foi o desenvolvimento de simuladores de lutas para dessensibilizar soldados do exército americano (ver Dave Grossman e Gloria DeGaetano, Stop teaching our kids to kill(New York: Crown Publishing, 1999). Devíamos estar desenvolvendo um universalismo – note-se esse impulso, por exemplo, na Comunidade Europeia, onde não existem fronteiras internas, os estudantes universitários podem cursar semestres em universidades em outros países etc. Para evitar esse universalismo, as forças adversas introduziram a globalização econômica.

Note-se que o amor altruísta é sempre construtivo, ao passo que o seu contrário, o egoísmo, é sempre destrutivo (pode demorar, mas a sua destruição acaba aparecendo). No entanto, estamos presenciando uma exacerbação do egoísmo, por exemplo na competitividade. Uma competição é sempre antissocial, pois quem ganha fica feliz às custas de quem perde, que fica pelo menos frustrado.

13. Por que para de fazer milagres justamente quando o homem consegue gravar e documentar eventos?

Milagres são acontecimentos que não têm explicação física. Nesse sentido, milagres não param de acontecer. A vida, o sono, o sonho, inexplicáveis do ponto de vista da ciência materialista, são verdadeiros milagres. O fato de o leitor estar pensando enquanto lê estas linhas é um milagre. O fato de ele gostar ou não, isto é, ter simpatia ou antipatia pelo que está lendo, é um milagre. A forma orgânica dos seres vivos, e as simetrias que aparecem, por exemplo em nossas mãos e em nossas orelhas, são milagres. Não adianta dizer que essas formas estão no DNA, isso não explica absolutamente nada. Como é que as bordas separadas de uma folha de uma Costela de Adão (monstera deliciosa) crescem preservando a curva característica formada por essas bordas, se cada pedaço da folha é, obviamente, independente de outro pedaço? É um verdadeiro milagre! Tudo se passa como se essa planta seguisse um modelo predeterminado, só que esse modelo não é físico, é um conceito no mundo platônico das ideias.

Independente disso, a questão refere-se certamente à entidade Deus, seja lá o que ela for, ter deixado de fazer milagres. Para compreender isso, é necessário compreender que o ser humano materializou-se no decorrer de sua evolução. Isto é, antigamente ele era muito mais maleável, de modo que o espírito podia atuar muito mais sobre a matéria, produzindo “milagres”. Em segundo lugar, é necessário repetir mais uma vez que a divindade afastou-se do ser humano – daí todo o caos individual e social que estamos presenciando. Deixamos de ter um papai nos guiando, e ainda não aprendemos a nos guiar. Em terceiro lugar, em termos de doenças (como as curadas pelo Cristo), é importante reconhecer que muitas doenças têm origens psíquicas. Atuando sobre o que não é material no ser humano, é possível produzir curas que parecem milagres, mas que são compreensíveis se se levar em conta que o ser humano tem membros não físicos que atuam sobre seu corpo físico.

14. Leva três dias para criar a Terra e 80 bilhões de galáxias em 1 dia só, como pode?

Na resposta à questão 1, já foi dito que esses dias da criação são imagens, não são dias físicos de 24 horas.

Uma outra imagem muito popular é de Noé com sua arca. Ora, pode-se imaginar o rebu que haveria com pares de todos os animais dentro desse barco?

15. Por que manda cortar a pelinha do pênis se o homem é criado à imagem de Deus?

Parece-me que pode haver duas razões para o mandamento de se cortar o prepúcio: uma, higiênica, e outra para dar um choque na criança, acelerando o processo encarnatório. Mas tudo isso não faz mais sentido hoje em dia. Nossa civilização altamente materialista já acelera demasiadamente o processo de encarnação de cada indivíduo. Note-se, por exemplo, como as crianças são forçadas a se comportarem como adultos. Ou o crime que se fez obrigando as crianças a começarem a aprender a ler a partir dos 5 anos de idade. A leitura e a escrita são processos que exigem uma alta capacidade de abstração, que uma criança até mais ou menos os 7 anos não devia ter, o que era respeitado antigamente, quando havia ainda uma intuição, hoje perdida, do que é o desenvolvimento sadio de uma criança.

Por outro lado, na resposta à questão 3 já foi mencionado que essa “imagem e semelhança de Deus” não é física, senão teríamos que considerar que Deus teria barbas ou seios… Seres divinos criaram o espírito humano; ele é semelhante ao espírito daqueles seres.

16. Cria múltiplas religiões mas manda pro inferno os que escolheram a religião errada?

Já foi descrito na questão 6 que o inferno é uma invenção, e não uma realidade espiritual. Já a questão da religião errada é interessante.

Um dos grandes problemas com todas as religiões é que o adepto de uma delas deve necessariamente achar que a sua é a melhor de todas ou a mais cômoda. Se assim não fosse, no mundo civilizado ele trocaria de religião por outra melhor. Pode também haver um medo de trocar de religião: “Se você trocar por outra, irá para o inferno!” ou “Todas as outras religiões são obra do diabo!”.

O grande problema está no dogmatismo e do fato de as religiões não darem muito espaço para a liberdade, para um pensamento livre.

O correto hoje em dia é não se adotar dogmas, pois eles não são explicáveis e são rígidos, e sim adotarem-se hipóteses de trabalho, sempre sujeitas a comprovação e a revisão. Por exemplo – e me permito aqui citar meu caso pessoal –, eu admito certas hipóteses fundamentais. A primeiríssima delas é que existe algo de não físico em cada ser humano e no universo. Se alguém me provar que estou errado, mudarei com prazer. Mas as evidências que tenho para isso são muito fortes – para começar, a própria existência do universo físico: como apareceu a matéria e a energia primordiais? Observando-me a mim próprio também vejo inúmeras evidências, como por exemplo a liberdade que vivencio de poder determinar meu próximo pensamento. Para mais argumentos e detalhes, veja-se meu artigo “Por que sou espiritualista”.

Por outro lado, as consequências negativas de se adotar uma cosmovisão materialista são enormes; veja-se a esse respeito meu artigo “Consequências do materialismo”.

Conclusões

É fundamental separar-se a espiritualidade das religiões instituídas. A esse respeito, veja-se meu artigo “Ciência, religião e espiritualidade”. Essas religiões têm um grande problema: ou pararam, relativamente, no tempo, não acompanhando a evolução humana, principalmente a ânsia de se agir em liberdade, a partir de uma compreensão, e não por um mandamento ou dogma; ou então são fabricações recentes, sem nenhum conteúdo verdadeiramente espiritual.

As questões formuladas mostram muito bem como dogmas e tradições ainda seguidos não fazem mais sentido. Algumas religiões, como a Católica Romana, tentam acompanhar o desenvolvimento intelectual, científico. No entanto, não acompanharam a evolução espiritual do ser humano, como por exemplo no magnífico movimento que estamos presenciando hoje em dia, dos direitos humanos. Por exemplo, não fazem muitos anos que se começou a rebaixar calçadas para cadeirantes poderem se locomover nas ruas. Antes disso, eles eram ignorados, não se pensava que eram pessoas com dignidade e deviam poder se locomover como os não cadeirantes. O Brasil previlegia os idosos talvez como nenhum outro país. Isto é, dá uma atenção especial a eles, por serem mais fracos, facilitando a sua vida em sociedade.

O movimento dos direitos humanos baseia-se, no fundo, em uma percepção intuitiva de que todo ser humano tem uma essência que não depende de seu aspecto físico (incluindo o sexo), de sua nacionalidade, etnia, religião e idade. Essa essência, apesar de individual, é da mesma natureza em todas as pessoas. Já que não depende do aspecto físico e da hereditariedade, falta reconhecer-se que essa essência não é física, é espiritual.

No entanto, veja-se o choque de várias religiões instituídas para com certos aspectos dos direitos humanos, por exemplo na questão da sexualidade. Essa é uma amostra de que essas religiões não acompanharam o desenvolvimento espiritual do ser humano.

Finalmente, as questões acima mostram como pessoas que são conscientes e querem compreender, revoltam-se contra preceitos religiosos que não fazem mais sentido hoje em dia. Nesse sentido, não seria de admirar que a pessoa ou as pessoas que as formularam inclinem-se para o materialismo. Acham as religiões tão absurdas que acabam afastando-se do espiritualismo, adquirindo mesmo um infeliz preconceito contra ele. Assim, veja-se o trágico paradoxo: as religiões, que deveriam mostrar ao ser humano que existe um espírito, pois sem ele a vida humana não tem sentido e não se pode ter uma orientação verdadeiramente humana para a vida, acabam induzindo o materialismo!

Endereços de meus artigos, pela ordem de aparecimento

Agradecimentos

Agradeço a minha esposa Sonia A.L. Setzer pela revisão do texto e por algumas sugestões de conteúdo, e a Guilherme Fernandes por ter me dado a oportunidade de responder as questões e a chance de escrever mais um artigo sobre espiritualidade.

 

 

CIÊNCIA, RELIGIÃO E ESPIRITUALIDADE

Valdemar W. Setzer
www.ime.usp.br/~vwsetzer
Original: 25/1/08; última versão: 21/6/10
Versão em inglês: “Science, religion and spirituality

1. Introdução

Muito se tem falado ultimamente sobre o tema “Ciência e Religião” ou “Ciência e Espiritualidade”. Por exemplo, aBoyle Lecture de 2005, dada por Simon Conway Morris, tratou justamente desses assuntos. O recente livro de Richard Dawkins The God Delusion (traduzido impropriamente como Deus, um Delírio) trata de mostrar que o conceito de Deus e as religiões são um engano, e até mesmo que “a existência de Deus é uma hipótese científica como qualquer outra”, isto é, propõe que a questão da existência ou não de Deus seja tratada cientificamente [DAW b, p. 72]. Em novembro de 2007 assisti em um congresso de medicina a uma mesa redonda com o título “Ciência e espiritualidade”, e fiquei muito insatisfeito com o que nela foi exposto. Por outro lado, recebi algumas críticas sobre meu artigo “Por que sou espiritualista“, e percebi que precisava deixar alguns pontos mais claros. Com isso, resolvi ordenar e expor minhas ideias a respeito do tópico do título do presente artigo, fazendo também incursões na ciência, no materialismo e nas religiões instituídas, ou confissões, complementando várias ideias expostas no artigo citado. Vou discorrer sobre o infeliz abismo existente entre ciência e religião, que poderia ser eliminado com mudanças em ambas, por meio do que vou caracterizar como “espiritualidade científica”. Para chegar a caracterizar esse tipo de espiritualidade, que envolve hipóteses de trabalho e não crenças, caracterizo no item 2 esses dois conceitos, salientando suas diferenças. No item 3 coloco o que considero uma atitude cognitiva correta, e que denominei de “atitude científica”. No item 4 caracterizo o que entendo por materialismo, mostrando que existem dois tipos do mesmo; mostro que a partir dessa visão de mundo, se for coerente, não se podem admitir várias características humanas, especialmente o livre-arbítrio. No item 5 abordo o espiritualismo, do qual caracterizo também dois tipos, sendo um deles o que denominei de “espiritualismo científico”, que usa uma atitude científica na cognição. Adotando-se uma visão de mundo espiritualista científica, características humanas que não fazem sentido de um ponto de materialista passam a poder ser admitidas. O item 6 mostra como há visões de mundo que são combinações de materialismo com espiritualismo. A ciência moderna é examinada no item 7, mostrando que ela é essencialmente materialista. No item 8 descrevo certas características de religiões instituídas, caracterizando o tipo de espiritualismo que elas cultivam, e mostrando que, de certos pontos de vista, elas são materialistas. O abismo atual entre ciência e religião é descrito no item 9, onde mostro como ele poderia ser suplantado por mudanças tanto numa como na outra. Coloco também que ele é devido tanto a um materialismo preconceituoso como ao tipo de espiritualismo típico das religiões instituídas. No item 10 enumero várias razões para uma pessoa sentir-se inclinada a adotar o materialismo, e no 11 faço o mesmo para o espiritualismo científico. Finalmente, no item 12 descrevo um exemplo de uma espiritualidade científica que considero adequada ao ser humano moderno, mostrando brevemente certas características da mesma e suas aplicações.

2. Hipótese e crença

No decorrer da história, o ser humano foi desenvolvendo cada vez mais seu intelecto. Uma das consequências disso é que hoje ele anseia por compreender as coisas, e não simplesmente observar fenômenos sem conseguir entender por que eles se passam. Também não lhe agrada aceitar leis e regras sociais sem compreender sua razão de ser, ou admitir teorias sem que elas lhe façam sentido, sejam logicamente coerentes e correspondam ao que ele pode observar fora e dentro de si. Parece-me que cada pessoa moderna deveria ter uma concepção consciente do mundo, uma cosmovisão (Weltanschauung); a partir dela, deveria orientar seus pensamentos, sentimentos e ações. Em termos de concepções de mundo, é importante separar o que é hipótese de trabalho e o que é crença; vejamos as características de cada uma, salientando as diferenças entre elas.

2.1 Uma hipótese é uma afirmação que é tomada como verdade e serve de base para comprovações experimentais ou para uma teoria. Esta última pode envolver várias hipóteses, e consequências das mesmas sendo, portanto, muito mais ampla. Uma característica fundamental de uma teoria é a sua coerência lógica, isto é, não deve haver contradições entre suas várias hipóteses e entre as afirmações que delas resultam.

Portanto, uma hipótese é a base para alguma compreensão conceitual de observações experimentais, isto é, para a associação mental correta entre uma percepção correta e um conceito correto, ou para a associação mental correta entre conceitos corretos que se relacionam entre si. Note-se a presença da palavra “correto” – vou admitir que existem percepções, conceitos e associações corretos e incorretos. Por exemplo, se o leitor olhar para a entrada da sala em que está e se o seu sistema visual for saudável, certamente terá inicialmente uma percepção correta de impulsos luminosos; em seguida, fará uma representação mental do objeto visto e, finalmente, fará, com o pensamento, uma associação correta com o conceito “porta”. Em geral, diz-se que se “vê” uma porta, mas na verdade o que se vê são impulsos luminosos; “porta” é um conceito, uma ideia, e não pode ser visto com os olhos. Chega-se a ele por meio do pensamento, e não de uma percepção sensorial. Um contra-exemplo seria ver-se uma pessoa ao longe, e não se conseguir distinguir se é um homem ou uma mulher. Nesse caso, provavelmente está havendo um erro ou imprecisão na percepção, o que pode ser conscientizado pela dificuldade em associar à representação não nítida correspondente um dentre os dois conceitos possíveis. Um outro contra-exemplo seria ver-se o Sol movendo-se durante o dia no céu, e se fazer a essa percepção correta uma associação mental com o conceito incorreto do movimento dele em volta da Terra, em lugar de se associar a essa percepção o conceito correto de que ele está parado e a Terra está girando em torno de seu eixo.

Uma crença é uma afirmação tomada como verdade, sendo a base para uma visão de mundo que pode não envolver, parcial ou totalmente, uma compreensão conceitual. Uma crença não deve depender de comprovações experimentais. Pelo contrário, ela fecha as portas à compreensão e à investigação.

2.2 Uma hipótese deve ser formulada claramente, por meio de conceitos, e basear-se em evidências, seja por meio de observações da realidade, ou de teorias coerentes e abrangentes delas derivadas. Além disso, deve estar sempre sujeita a revisões.

Uma crença não precisa ser formulada com clareza, pois não se dirige ao intelecto; ela é aceita como verdade, e tem um caráter de permanência, isto é, não é sujeita a revisões.

2.3 Uma hipótese deve ter um caráter de objetividade, de universalidade e, portanto, não deve basear-se em sentimentos pois estes são sempre subjetivos e individuais.

Ao contrário, uma crença pode envolver conceitos (já que é impossível falar-se sem usar conceitos), mas deve basear-se fundamentalmente em sentimentos, isto é, deve ser essencialmente subjetiva: “sente-se” que uma crença é verdadeira.

2.4 Uma hipótese de trabalho deve sempre fazer parte de uma pesquisa de fatos e de uma teoria em estabelecimento ou já estabelecida.

Já uma crença é algo terminal, auto-contido. Pode fazer parte de uma cosmovisão ampla, mas não deve necessariamente levar a uma pesquisa, ao contrário, muitas vezes uma crença impede a pesquisa. Dawkins critica as religiões dizendo “um dos efeitos realmente negativos da religião é que ela nos ensina que é uma virtude ficar satisfeito com uma falta de compreensão.” [DAW b, p. 152; ver também pp. 154, 159-60].

Usarei neste texto a expressão “acreditar” como sinônimo exclusivo de “ter crença”, no sentido exposto. Como exemplo, na doutrina Católica oficial, deve-se acreditar em Deus e não acreditar na reencarnação do ser humano (apesar de alguns claros indícios desse ultimo conceito no Novo Testamento). Note-se que não há uma conceituação clara de Deus, seja nessa doutrina como na de outras religiões, de modo que não se deveria falar, no sentido da caracterização 2.2, em uma “hipótese da existência de Deus”, expressão empregada por Dawkins [DAW b, p. 138].

Um outro exemplo de crença é tomarem-se as imagens da Gênese como fatos literais, por exemplo considerando-se que os “dias” da “criação” foram de 24 horas, como querem muitos criacionistas bíblicos. Já uma hipótese de trabalho poderia ser a de que essas imagens são símbolos para fatos que realmente ocorreram. Nota-se por esse exemplo como uma hipótese de trabalho deve necessariamente levar a uma pesquisa: no caso, quais as realidades representadas por essas e outras imagens bíblicas. Já a crença citada não leva a nenhuma investigação ou busca de compreensão.

Usando ainda esse exemplo, é um fato que muitas pessoas consideram as imagens bíblicas como invencionices, como “historinhas”. Temos aí duas possibilidades: tomar-se isso como crença ou como hipótese de trabalho. Na segunda, tenta-se justificar essa consideração especulando-se com uma teoria, por exemplo, de que o ser humano antigo tinha medos infantis, e essas “historinhas” ajudavam-no a enfrentar esse medo. Ou que o ser humano tinha necessidade de se localizar perante o passado, de modo que inventou uma cosmogonia fantasmagórica, já que não tinha naquela época a capacidade de inventar uma teoria conceitual como a do Big Bang. Aliás, essa também é uma teoria fantasmagórica; afinal, como a matéria ou a energia surgiram antes de se condensarem e explodirem? Mesmo considerando-se uma sequência de contrações e expansões, ela teve que ter um começo físico. A esse respeito, Milton Mourão Jr. sugeriu-me um interessante paradoxo: a matéria condensada no instante do Big Bang, ou logo depois dele, devia obviamente ter formado um super-buraco negro, e aí não poderia ter ocorrido nenhuma explosão. A maneira que os cosmologistas encontraram para contornar esse paradoxo é supor que nos primeiros instantes a gravitação da matéria era repulsiva, e não atrativa. Posteriormente, passa a predominar a matéria atrativa, se bem que a aparente expansão acelerada do universo visível exige novamente a presença de misteriosas matéria e energia repulsivas. Mas tudo isso é, obviamente, teoria.

3. A atitude cientifica

A atitude científica é uma das maiores conquistas da humanidade, tendo começado a desenvolver-se efetivamente, como potencialidade para todas as pessoas, após o início do século XV. Antes disso, ela aparecia de maneira parcial em um ou outro indivíduo. Ela deve ser aplicada sempre que se faz uma observação e a descrição de algo, e quando se formulam conceitos. Nessas atividades cognitivas, parece-me que essa é a atitude correta para o ser humano moderno, isto é, uma pessoa que não adota uma atitude científica na parte cognitiva de seu dia-a-dia está retornando indevidamente ao passado. No entanto, é preciso reconhecer que essa atitude não se aplica a toda a vida humana, pois nem tudo nela é cognição, como descreverei depois de expor aquilo que considero suas características fundamentais.

Na cognição, adota-se uma atitude científica se os seguintes requisitos forem satisfeitos:

3.1 Ter hipóteses de trabalho, e não ter crenças, cf. o item 2 acima.

3.2 Mantém-se uma curiosidade constante, isto é, procura-se sempre conhecer coisas e ideias novas. Se um fenômeno é observado e não compreendido, deve-se observá-lo de todos os ângulos possíveis e estudá-lo a fim de compreendê-lo. Se uma ideia não é compreendida, ou parecer estranha, deve-se fazer um esforço para estudá-la e compreendê-la.

Essa atitude significa que se deve ter um interesse por quaisquer tipos de fenômenos ou de teorias.

Um contra-exemplo a essa atitude é o fato de muito poucas pessoas saberem por que os aviões sustentam-se no ar, apesar de os verem com frequência. A compreensão desse fenômeno, devido a uma propriedade dos fluidos descoberta em 1738 por Daniel Bernoulli (1700-1782), é relativamente simples e pode ser demonstrada com imensa facilidade: basta assoprar por sobre uma folha de papel fino com a borda superior esticada entre as mãos e encostada abaixo do lábio inferior, e observar como a folha sobe.

Há muito tenho afirmado que a falta dessa curiosidade constante pode ter um efeito indesejável: o desenvolvimento de uma paralisia mental. Segundo Platão, em Menon, Sócrates vai mais longe, pois diz: “Eu disse algumas coisas sobre as quais não tenho total confiança. Mas há algo pelo qual estou pronto a lutar, em palavras e ações, até o máximo de minha capacidade: Nós seremos melhores, mais corajosos e menos impotentes se pensarmos que devemos indagar, do que seríamos se cedêssemos à inútil fantasia [indulge in the idle fancy] de que não é possível, e não há utilidade, em saber o que não sabemos.” [PLA, p. 183.]

3.3 Procura-se observar objetivamente o mundo, isto é, a observação deve ater-se exclusivamente ao fenômeno; nenhum aspecto observado deve ser desprezado e a observação não deve depender de hipóteses anteriores.

Essa ação é caracterizada por uma total abertura tanto para fenômenos exteriores quanto interiores ao observador.

3.4 Procura-se compreender objetiva e conceitualmente o mundo, em especial os seres vivos e o ser humano.

3.5 Não se usam sentimentos como base de observações e formulação de conceitos a respeito dos objetos observados ou teorias estudadas.

Este requisito é consequência dos requisitos 3.3 e 3.4, e é devido ao fato de que os sentimentos são puramente subjetivos. De fato, cada pessoa tem seus sentimentos e uma outra pessoa não pode sentir os sentimentos da primeira; o que ela pode fazer é reconhecê-los, por exemplo percebendo que essa primeira pessoa está alegre ou está triste. No entanto, é impossível sentir a alegria ou tristeza que ela está sentindo.

Um exemplo do uso indevido de sentimentos na aquisição de conhecimentos seria usar a simpatia ou antipatia por uma pessoa para tirar conclusões sobre ela. É interessante notar que, quando uma pessoa tem um sentimento sobre algo, esse sentimento revela muito mais sobre essa própria pessoa do que sobre o objeto em questão. Por exemplo, uma antipatia por uma pessoa pode ser o resultado de seu rosto ser parecido com o de uma outra pessoa que fez uma ação desagradável ao observador. Um outro exemplo seria observar e estudar algum fenômeno ou objeto devido a uma simpatia com relação a eles, evitando-se estudar outros com os quais se antipatiza.

Note-se o uso da palavra “base” na formulação da presente atitude. Ter uma atitude científica não significa ignorar os sentimentos, mas eles não devem ser usados tanto para orientar a curiosidade e a pesquisa, quanto na conceituação dos fenômenos. Sentimentos devem ser conscientizados e levados em conta sempre que se fizer um julgamento, pois é impossível ter-se um conhecimento total sobre algo da realidade (conhecimento total só existe na Matemática, em áreas bem definidas; note-se que existem problemas matemáticos bem formulados que não têm solução). Por exemplo, se há duas teorias coerentes conflitantes sobre um mesmo assunto, e não há evidências de qual se adapta melhor à realidade, pode-se usar um sentimento de simpatia por uma delas para adotá-la provisoriamente; mas essa razão da adoção deve ser conscientizada.

Por outro lado, há sentimentos essenciais em uma atividade científica, como por exemplo o entusiasmo que se deve ter por descobrir coisas novas e obter mais conhecimento. Certos sentimentos também deveriam ser usados na escolha da pesquisa e na divulgação dos resultados. Por exemplo, um certo crivo moral poderia impedir um veterinário de sacrificar animais em suas pesquisas, ou um biólogo de usar células-tronco de embriões humanos, se for necessário matar esses embriões; se foi feita alguma descoberta que pode representar um perigo ecológico ou humano, talvez o pesquisador, baseado em seus sentimentos, decida não divulgá-los (o que lembra a excelente peça de F. Dürrenmat, Die Physiker, “Os Físicos”, escrita em 1961, considerada sua melhor peça [DÜR; ver tambémhttp://en.wikipedia.org/wiki/Die_Physiker]).

3.6 A descrição de fenômenos e a formulação de conceitos e teorias devem ser dirigidas exclusivamente para a compreensão e serem universais.

Este pré-requisito é uma consequência do anterior. Um contra-exemplo seria transmitir conceitos entusiasticamente, tentando influenciar os sentimentos do receptor para que este se convença da validade dos argumentos. Espero que os leitores de meus artigos e livros percebam que neles procuro dirigir-me exclusivamente à compreensão, e não aos sentimentos de quem os lê.

3.7 Não ter absolutamente nenhum preconceito, em qualquer área de conhecimento, isto é, estar-se sempre disposto a verificar qualquer fato ou fenômeno, ou estudar qualquer teoria.

Por exemplo, se alguém diz “O prédio Martinelli [o edifício alto mais antigo da cidade de São Paulo] ruiu”, uma atitude científica seria dizer: “Isso parece muito estranho, pois ele estava lá desde 1929, mas vou investigar para confirmar.” Uma atitude não-científica, seria dizer: “Isso é bobagem, ele está lá desde 1929, nunca ruiu e nem vou me importar com isso.” Note-se como um preconceito encerra a pesquisa.

Um outro exemplo é a teoria das cores de Newton [NEW]. Nela, ele claramente parte da ideia preconcebida de que a “luz branca” é composta das cores do arco-íris, e monta suas experiências para comprovar essa sua teoria. Por isso é que usou uma abertura particular em sua janela, e uma certa distância do prisma ao anteparo, criando com isso um feixe de luz cuja dispersão produzisse as cores do arco-iris: “[…] at a round hole, about one third Part of an Inch broad made in the Shut of a Window. (sic)” [NEW, p. 26 (Prop. II, Theor. II, Exper. 3).] Se o feixe tivesse sido muito fino, ou o anteparo muito distante do prisma, apareceriam apenas três cores (vermelho, verde e violeta), e se fosse de diâmetro muito grande ou o anteparo colocado mais próximo apareceria uma parte branca em lugar do verde. Este, como se pode observar claramente afastando-se gradualmente o anteparo do prisma, resulta da superposição do amarelo com o azul. Recomendo ao leitor observar pessoalmente tudo isso: basta tomar dois papéis pretos e colocá-los sobre um papel branco, olhando a faixa branca assim formada através de um prisma cujo eixo deve ser paralelo a essa faixa. Para alterar a largura da faixa branca, pode-se mover um dos papéis pretos. Aproveite-se para repetir a experiência com dois papéis brancos sobre um dos pretos, formando uma fenda preta; ver-se-á o “espectro complementar”, segundo a teoria das cores de Goethe. Nessa teoria, ele faz questão de não partir dessa ideia preconcebida de Newton [GOE, Vol. 3, p. 48: Der Newtonsche Optik – Erstes Buch, Erster Teil (A Óptica de Newton – vol. 1, parte 1), Props. 86-93; ver também ZAJ, p. 209; SEP, p. 142]. É interessante citar o físico Tolger Holtsmark: “Newton pensou ter explicado a existência do espectro por meio de um modelo físico da luz, ao passo que ele de fato usou a imagem do espectro para explicar um possível modelo físico da luz” [HOL T, p. 1235.]

Este requisito complementa o 3.3.

3.8 A visão conceitual de mundo adotada é coerente; se pontos logicamente conflitantes são conhecidos, procura-se investigá-los para resolver os conflitos.

3.9 Há interesse permanente por opiniões contrárias às próprias, especialmente se elas são bem fundamentadas.

Opiniões contrárias podem servir para se mudarem hipóteses de trabalho (cf. 3.1); elas devem servir pelo menos para se testar as próprias hipóteses e teorias e, eventualmente, colher mais argumentos em favor destas últimas.

3.10 A observação de fenômenos e a descrição conceitual dos mesmos deve sempre ser feita em plena consciência de vigília; o observador deve manter permanentemente a sua auto-consciência e a sua individualidade.

Contra-exemplos a essa característica são o uso de imagens obtidas em sonhos como se fossem conceitos, e de transmissões mediúnicas. No primeiro caso, as imagens dos sonhos, em lugar de serem tomadas literalmente, podem inspirar uma conceituação, como foi a conhecida vivência de F.A. Kekulé, que em 1865 sonhou com uma cobra mordendo seu rabo, inspirando-o a descobrir a forma do anel de átomos de carbono do benzeno. No segundo caso, há duas possibilidades a considerar: o médium está inconsciente ou está consciente durante suas observações ou transmissões. A primeira situação choca-se diretamente com o requisito em questão. Um caso da segunda situação é a psicografia: claramente, o médium que a faz não está expressando sua individualidade, pois transmite conhecimentos que não possui e usa um estilo de redação que não é o seu; sua individualidade é como que substituída nessa atividade.

Somente com a preservação deste pré-requisito é que se pode garantir que não há erro nas observações e na descrição de fenômenos e de conceitos. Uma das mais conhecidas máximas de Goethe, que infelizmente não é geralmente reconhecido como um grande cientista, apesar de suas contribuições científicas e de ter introduzido um método científico efetivo, é: “Nossos sentidos não enganam, o julgamento engana (“Die Sinne trügen nicht, das Urteil trügt” [in Maximen und Reflexionen, No. 527]). Quando o observador está consciente ao fazer suas observações, ele pode reconhecer que seus sentidos não estão sendo suficientemente acurados, ou o aparelho usado em medições tem limitações, ou reconhecer que, eventualmente, há diferentes julgamentos que podem ser feitos a partir de uma mesma observação.

Quando uma atitude é contrária a algum desses requisitos, denominá-la-ei de “atitude anti-científica”.

É fundamental reconhecer que a atitude científica como caracterizada aqui não engloba toda a atividade humana, pois nem toda ela é cognitiva. De fato, existem pelo menos outras duas: as atitudes artística e social. Vou discorrer muito brevemente sobre ambas, pois o assunto foge ao escopo deste artigo.

Nessas duas atitudes, os sentimentos adquirem fundamental importância, contrariamente ao requisito 3.5. Além disso, o aspecto individual, subjetivo, é absolutamente essencial nas duas. De fato, o artista deve obrigatoriamente colocar em sua obra sua particular maneira de expressar algo objetivo ou subjetivo, contrariamente à atitude científica, que deve levar a algo universal e ser expressa universalmente. Em outras palavras, um objeto de arte é algo objetivo e universal, e o que ele expressa também pode ser universal, mas a maneira como essa expressão é manifestada deve ter algum elemento subjetivo da individualidade do artista e depender da individualidade do observador (para mais detalhes, veja-se meu artigo O computador como instrumento de anti-arte“). Por exemplo, um pintor pode representar a fome ou o medo de uma maneira, um outro de outra maneira distinta, o que é bem nítido na pintura expressionista. É interessante notar que qualquer obra de arte deve necessariamente tocar os sentimentos do observador, isto é, a subjetividade dele é parte essencial; o contrário se passa com uma obra científica. Uma obra que é fruto apenas de conceituação objetiva, e o meio de expressão é universal, independendo da interpretação do observador, não é uma obra de arte, e sim de ciência. A ciência tem como objetivo primário a produção de conceitos para a compreensão do mundo; por outro lado, o objetivo primário da arte é a produção de objetos que devem ser captados com os sentidos, provocando alguma sensação ou sentimento. Nessa linha, é interessante notar que a arquitetura é a arte mais objetiva, e a poesia a mais subjetiva.

A atitude social também difere da atitude científica pois a primeira envolve necessariamente ações sobre indivíduos e sua subjetividade. Se estes pudessem ser tratados objetivamente, os economistas sempre teriam sucesso em suas teorias e práticas. Uma das atitudes sociais mais importantes é a compaixão, isto é, sofrer com o sofrimento de outrem. Ela não é derivada de modo algum de uma atitude científica. A “inteligência emocional” de Daniel Goleman [GOL], de importância social fundamental, inclusive profissionalmente, também não é fruto de uma atitude científica, e sim de uma atitude social.

4. Materialismo

Vou caracterizar materialismo como a visão de mundo que admite apenas a existência de fenômenos físicos no universo. Segundo ela, o mundo é constituído apenas de matéria e energia físicas, e os fenômenos que se passam com elas têm causas exclusivamente físicas.

Apesar de não se saber cientificamente o que é matéria, temos uma noção intuitiva da mesma, pois defrontamo-nos com ela por meio de nossos sentidos. Temos também uma noção intuitiva de energia, pois qualquer ação física que fazemos exige um certo esforço, denominado comumente de “trabalho” na Física.

Há dois tipos de materialismo. Denominarei o primeiro de materialismo científico, caracterizado por adotar aquela visão de mundo dentro de uma atitude estritamente científica, como caracterizada no item 3. Chamarei o segundo de materialismo-crença, que é a crença naquela visão de mundo e, portanto, não segue uma atitude científica, especialmente as características 3.1 (já que envolve alguma crença), 3.2 (no sentido de não se ter curiosidade sobre a possibilidade de existência de fenômenos não-físicos) e 3.7 (no sentido de que há uma ideia preconcebida de que só existem fenômenos físicos no universo).

A diferença mais típica entre os dois consiste em que um materialista científico deve estar aberto e se interessar por visões de mundo não-materialistas, estando disposto a rever sua posição se for convencido de que existem fenômenos não-físicos. Por outro lado, um materialista-crente toma sua visão de mundo como dogma, e não está aberto a visões de mundo que admitem a existência de fenômenos não-físicos: tipicamente, ele não só não procura saber como são essas outras visões, como evita entrar em contato com qualquer visão que não seja materialista.

Por exemplo, um materialista-crente diz: “É óbvio que nosso pensamento é gerado pelo nosso cérebro, como poderia ser diferente?” ou “É óbvio que a evolução darwinista é uma realidade, como poderia ser diferente?” Por outro lado, um materialista científico diria: “Segundo minha concepção de mundo, o pensamento é gerado pelo cérebro, mas como não sabemos exatamente como é esse processo, estou aberto a outras explicações, independentemente de que conceitos e experiências elas usam. Quem sabe elas podem apresentar um edifício teórico coerente e abrangente, e aí mudarei minhas hipóteses fundamentais.” O mesmo para a evolução darwinista. Isto é, o materialista científico toma essas duas concepções como teorias (o que realmente são), e não como realidades ou dogmas, como muitas vezes é o caso com materialistas-crentes.

Denominei o primeiro tipo de “científico” por uma simples razão: um cientista, por necessariamente adotar a atitude científica descrita no item 3, não deveria ter preconceitos e deveria ter uma abertura total a tudo. Uma das atitudes mais frequentes dos materialistas-crentes é terem um total preconceito contra qualquer explicação que não seja baseada em fenômenos puramente físicos, que eles também chamam de “naturais”. É muito comum eles negarem-se a estudar qualquer teoria que envolva processos não-físicos, e a examinar evidências desses processos. É também muito típico eles ridicularizarem qualquer teoria ou visão de mundo que use fenômenos não-físicos em suas explicações, como foram os casos de Freud e de Bertrand Russel e, mais recentemente, Richard Dawkins.

Obviamente, existem variações do materialismo-crença: um materialista pode adotar uma atitude científica em relação a certos fenômenos, e uma atitude de crente frente a outros. Por outro lado, existe um único tipo de materialismo científico, pois se uma pessoa o adota, não pode ter nenhuma crença.

É muito importante considerar o seguinte: o que caracteriza uma pessoa como materialista, de qualquer matiz, é a maneira como ela pensa. Uma pessoa pode falar frequentemente de Deus (independente do que compreende ou não compreende com essa palavra), mas se sua maneira de pensar é materialista, isto é, procura e usa somente causas físicas para os fenômenos, aplicados exclusivamente a objetos e forças físicas, é dessa maneira que deveria ser classificada.

Muitas pessoas – ou talvez todas – que se dizem “ateus” são na realidade materialistas, em geral do tipo crente. Essa denominação de “ateu” tem muitos problemas. O Aurélio Eletrônico Séc. XXI define-a como “Diz-se daquele que não crê em Deus ou nos deuses; …”, isto é, ela parte de Deus ou de deuses. Portanto, um ateu terá que explicar inicialmente o que é Deus ou o que são os deuses, para depois dizer que não acredita neles. Se ele disser que acredita que amanhã não vai chover, parte do princípio de que se entende o que é “amanhã” e o que é “chover”. Mas o que ele próprio entende por Deus ou por deuses? O ateu teria que caracterizar precisamente essas entidades, e sua atuação, para que se possa discutir a sua existência ou não. Note-se que é possível descrever claramente algo fisicamente impossível, como por exemplo um castelo que flutue no ar. Além disso, claramente aquelas entidades não são físicas. No entanto, qualquer materialista não admite a existência de algo ou de processos não-físicos; nesse caso, como é que vai caracterizar algo não-físico, para que se possa discutir esse algo com ele? Voltarei ao problema do conceito de Deus no item 8, em relação ao monoteísmo de várias religiões.

Dawkins denomina-se ateu, algo que prevalece em todo seu livro [DAW b]. Mas ele é claramente alguém com mais do que com uma simples falta de crença em Deus, seja lá o que essa entidade for: ele não pode assumir a existência de nenhum processo não-físico, isto é, ele é na realidade um materialista.

Várias pessoas dizem-se “céticas” quando, na realidade, são materialistas. O mesmo Aurélio traz, para cé(p)tico: “Que duvida de tudo; descrente.” Ora, pois! Se o cético duvida de tudo, ele necessariamente duvida da própria existência (que é admitida de maneira ingênua por todos que o conhecem). Nesse caso, ele seria pelo menos um esquizóide, senão tiver problemas psicológicos muito mais graves. Tenho a impressão de que uma pessoa declara-se cética para indicar que não acredita em nada que seja não-físico; nesse caso, a minha denominação de “materialista” caracteriza muito melhor essa pessoa. Aliás, esse “acredita” classifica-a como materialista-crente, segundo minha caracterização no fim do item 2.

Muitos céticos são materialistas-crentes. Um exemplo desses parece ser Michael Shermer, que escreve a coluna permanente Skeptic da revista Scientific American, e é editor de Skeptic – ver em http://www.skeptic.com. Nessesite, na seção Discover Skepticism afirma-se (minha tradução): “O ceticismo moderno está incorporado no método científico, que envolve coletar dados para formular e testar explicações naturalistas para fenômenos naturais.” Assim, excluem-se todos os fenômenos não-naturais, isto é, não-físicos, e se recusa examiná-los com seriedade. Portanto, para Shermer a ciência é materialista-crente, pois só admite explicações materiais e fecha-se às não-materiais.

O positivismo de Auguste Comte (1798–1857), baseava-se na experiência física (herança dos empiristas como Hume e Berkeley) e refutava qualquer metafísica (além da Lógica e da Matemática, classificadas como “ciências formais puras”). Assim, ele também foi um materialista que, por sinal, teve grandes influências no pensamento de muitos intelectuais brasileiros.

Parece-me que a minha denominação de “materialista” caracteriza melhor uma pessoa do que classificá-la como ateu, cético, ou positivista.

Para o restante deste artigo, é fundamental reconhecer-se que um materialismo coerente deve: a) limitar a individualidade humana somente à hereditariedade e à influência passada do meio ambiente; b) negar o livre arbítrio; c) negar a responsabilidade individual e coletiva; d) negar a existência de moral; e) negar a possibilidade de uma ação ser devida a um amor altruísta; f) negar um sentido para o universo e a vida humana. Vou justificar essas minhas afirmações.

a) A questão da individualidade é trivial: se o ser humano é só matéria, não pode haver outro componente na individualidade que não seja devida à hereditariedade e ao meio ambiente.

b) Considero como livre arbítrio, ou a liberdade de se fazer conscientemente ações interiores (como pensar) ou exteriores (executar alguma ação para fora, como atuar com as mãos e pés, movimentar-se ou falar), a possibilidade de um ser humano executar uma ação sem que haja nenhuma imposição interior ou exterior para isso. A imposição exterior é clara: forçar-se, tanto física como emocionalmente, alguma pessoa a executar algo. Um exemplo do segundo caso é forçar-se alguém a uma ação pondo-se-lhe medo de que algo ocorra consigo se não a executar; um outro exemplo é forçar, por meio de condicionamento com propaganda, uma pessoa a executar uma certa ação, como comer ou comprar algo. Um exemplo de uma imposição interior é agir-se segundo um sentimento, como não falar com uma pessoa que, à primeira vista, parece ser antipática.

Uma ação é executada em liberdade se existem outra ações possíveis, e a escolha da primeira é feita em plena consciência, examinando-se mentalmente quais seriam as consequências da execução de cada ação. Isso não exclui a execução de uma ação baseada em um sentimento, como seria o caso de uma pessoa que está fazendo um regime para emagrecer mas, em um dia de calor, resolve conscientemente quebrar o regime para saborear um bom sorvete.

O materialismo tem que forçosamente negar o livre arbítrio pois da matéria não pode advir liberdade: ela está sempre sujeita às “leis” e condições físicas. Aqui há duas possibilidades. Pode haver um determinismo, isto é, dado o estado de um corpo e certas condições em seu meio ambiente, ele sempre sofrerá a mesma transformação. Um exemplo famoso de pessoa que era 100% determinista, isto é, totalmente contra o acaso, foi Einstein, seguindo a filosofia de Baruch Spinoza, (ver, por exemplo, o excelente [ISA, pp. 102, 335] e também [JAM, pp. 37, 69-71]).

A outra possibilidade é a existência da aleatoriedade ou acaso, isto é, dadas certas condições iniciais, a matéria pode comportar-se de várias maneiras possíveis, sem que haja uma causa para a tomada de alguma dessas variantes. O acaso é a base da Mecânica Quântica, que tem um enorme sucesso experimental, mas que transformou o mundo atômico em algo incompreensível. Se um ser humano executa uma ação aleatoriamente, não age em liberdade, pois essa ação não se deveu a um ato consciente.

Um velho raciocínio pode ajudar a esclarecer melhor essa questão da liberdade não poder resultar da matéria. Um átomo obviamente não tem liberdade. Portanto, uma molécula, formada por um grupo de átomos, também não pode ter liberdade. Uma célula, formada por um grupo de moléculas, idem. Um grupo de células, formando um órgão, ibidem. Finalmente, um grupo de órgãos formando um ser humano também não pode ter liberdade. Essa é uma das razões para cientistas e materialistas coerentes negarem a possibilidade do livre arbítrio, que consideram uma ilusão. Einstein foi absolutamente categórico a esse respeito; em suas palavras, “Sou determinista. Não acredito no livre-arbítrio.” [ISA, p. 397]; “Não acredito, em absoluto, no livre-arbítrio no sentido filosófico. Cada pessoa age não só sob pressão das compulsões externas, mas também de acordo com as necessidades internas.” [p. 401]; “Os seres humanos, em seus pensamentos, sentimentos e atos, não são livres, mas estão presos pela causalidade do mesmo modo que as estrelas em seus movimentos.” [p. 401.] Quanto à ilusão do livre-arbítrio, ele disse: “Sou compelido a agir como se existisse o livre-arbítrio já que, se desejo viver numa sociedade civilizada devo agir de modo responsável.” [p. 403.]

c) É óbvio que, sem liberdade, não há responsabilidade pessoal ou coletiva. Einstein negava-a, por achar que cada ação de um ser humano é consequência do seu estado e do estado do meio ambiente: “Sei que, filosoficamente, um assassino não é responsável por seu crime, mas prefiro não tomar chá com ele.” [p. 403.] A propósito, ele não era coerente nesse e em outros aspectos filosóficos pois, depois que soube, em 1941, das atrocidades perpetradas pelos nazistas nos campos de concentração e extermínio, jogou a responsabilidade disso não só sobre eles, mas sobre todo o povo alemão: “Os alemães, como nação inteira, são responsáveis por esses assassinatos em massa e devem ser punidos como um povo.” [ISA, p. 514, JAM, p. 71.] Aliás, é raro encontrar um materialista realmente coerente pois, por exemplo, muitos admitem a liberdade humana, já que prezam pelo menos a liberdade intelectual; além disso, o conceito de liberdade arraigou-se na humanidade profundamente desde o século XIX. É possível que o inconsciente dessas pessoas seja mais sábio do que seu consciente; devido ao primeiro, elas têm uma intuição de que o ser humano pode ter livre-arbítrio, e não percebem que isso contraria sua visão materialista.

d) Sem responsabilidade, não há moral. Nesse sentido, é necessário distinguir claramente “moral” de “ética”. Esta última refere-se a normas estabelecidas por um grupo, em geral profissional. Por exemplo, é ético um advogado defender e tentar convencer outras pessoas (um júri, por exemplo) da inocência de uma pessoa a qual ele está plenamente convencido de ter cometido um assassinato; mas não considero essa uma ação moral. Nesse caso, uma ação moral seria esse advogado reconhecer publicamente a culpabilidade do réu, mas mostrar objetivamente ao júri eventuais atenuantes do caso.

e) Um ato é fruto de um amor altruísta se ele beneficia algo ou alguém, é executado em plena consciência e liberdade, e não traz nenhum benefício para a pessoa que o executa. Portanto, também o amor altruísta não faz sentido do ponto de vista materialista. Desse ponto de vista, só fazem sentido ações egoístas ou movidas pela ambição. A esse respeito, vale a pena notar que a teoria darwinista da evolução é baseada no egoísmo: a luta pela sobrevivência do indivíduo e da espécie, não importando o que acontece com outros indivíduos ou espécies. Estou ciente de que Darwin formulou uma teoria especulativa tentando explicar o altruísmo: uma pessoa altruísta é melhor aceita pela comunidade e assim tem mais chance de sobreviver e deixar uma prole. É realmente estranho que o altruísmo derive de um egoísmo! Mas Richard Dawkins expressou muito bem o ponto de vista materialista: em sua especulação, o egoísmo é inerente ao ser humano, e está em seus próprios genes, como se estes pudessem ter consciência [DAW a]. Da ciência materialista moderna não se chega ao altruísmo.

É interessante notar que muitos cientistas são idealistas, e têm grande satisfação em suas atividades pois sentem que assim ajudam altruisticamente a humanidade. Apesar de isso ser muito positivo, trata-se no fundo de uma incoerência da parte deles quando são materialistas (o que acontece com a maioria deles, senão com a quase totalidade), pois esse sentimento choca-se com a falta de sentido do altruísmo do ponto de vista material.

f) Da matéria não pode resultar algum sentido para o universo e a para a vida humana, pois eles são frutos do acaso. Por exemplo, na seleção natural darwinista predomina o mais apto, mas ele tem essa característica por acaso, devido a mutações genéticas aleatórias (segundo o neo-darwinismo), devido a combinações aleatórias de genes dos pais e encontros casuais com outros indivíduos, onde ele pode predominar. Curiosamente, Dawkins repetidamente escreve que a seleção natural elimina o acaso [DAW b, pp. 141, 145]. No caso do ser humano, uma visão materialista deve necessariamente admitir que o nascimento (ou melhor, a concepção) e a morte são acasos. Portando, desse ponto de vista a vida humana não tem sentido: ela simplesmente existe; daí, por exemplo, o existencialismo de Sartre. O desenvolvimento do universo, do sistema solar, e da Terra, o aparecimento da vida e a evolução dos seres vivos também são basicamente devidos a acasos. Assim, o universo inteiro não tem sentido.

Muitos materialistas convictos têm dificuldade em compreender o que poderia significar um sentido para a vida, o que é perfeitamente compreensível, pois da matéria e das forças físicas não se pode chegar a ele.

Estamos na era do materialismo. Uma pessoa que é materialista está totalmente de acordo com a maneira atual de ser da humanidade. De fato, pode-se tratar a história da humanidade como a “queda” na matéria e no materialismo. A maravilhosa imagem bíblica do Paraíso [Gen 2:8] representa um período inicial em que o ser humano não tinha conhecimento e auto-consciência: ainda não havia “comido” da “arvore do conhecimento do bem e do mal” [2:17], ainda não reconhecia que estava “nu” [3:7]. Sua “expulsão” dele pode ser considerada como um símbolo para aquela queda. (A propósito, nesse sentido as expressões “Tentação” e “Pecado Original” não fazem sentido, pois só se pode cometer um erro se for possível fazer uma escolha, o que exige consciência e conhecimento.) Foi necessário à humanidade passar por essa “queda”, pois é somente graças à nossa imersão e atuação na matéria que podemos cometer erros e portanto sermos livres: se fôssemos inconscientes, ou se só houvesse o bem, não poderíamos escolher e portanto não seríamos livres. A nossa auto-consciência e individualidade superior (conforme vou caracterizá-la no próximo item) também foram desenvolvidas devido a essa “queda” na matéria. No entanto, estamos na época em que essa fase do materialismo deve ser ultrapassada, porém sem perder tudo o que foi conquistado em termos de atitude científica, consciência, conhecimento, liberdade e individualidade. Vejamos o caminho que penso deve ser seguido.

5. Espiritualismo

Vou caracterizar como espiritualismo a visão de mundo que admite, além da matéria e energia físicas, e dos fenômenos físicos, tanto uma “substancialidade” não-física como fenômenos não-físicos que envolvem essa “substancialidade”. Além disso, é parte essencial do espiritualismo a hipótese de que fenômenos não-físicos podem influenciar a matéria física. Neste item exporei minha teoria de como isso poderia ocorrer em certos fenômenos nos seres vivos e no ser humano. Estou ciente dos problemas usar uma caracterização por negação, mas quero partir de algo conhecido, no caso, o mundo físico. Por “não-físico” refiro-me a algo que existe em um plano que não é o físico, não podendo ser observado fisicamente. Não se deveria estranhar a existência de fenômenos fisicamente ocultos pois, por exemplo, não se pode observar fisicamente os sentimentos, os pensamentos e os impulsos de vontade de outra pessoa.

Há dois fatos que não fazem sentido físico, e que poderiam ser tomados como uma forte indicação de que o espiritualismo pode ter algum fundamento: a origem da matéria e da energia físicas, e os limites do universo.

Analogamente ao materialismo, há dois tipos de espiritualismo. Denominarei o primeiro de espiritualismo científico, caracterizado por adotar aquela visão de mundo dentro de uma atitude estritamente científica, como caracterizada no item 3. Chamarei o segundo de espiritualismo-crença, que é a crença naquela visão de mundo e, portanto, não segue uma atitude científica.

Pode parecer estranho que um espiritualista possa ter uma atitude estritamente científica, como caracterizada no item 3. No entanto, se se examinar o que foi exposto nesse item, ver-se-á que de modo algum ele restringe os fenômenos do universo apenas aos fenômenos físicos.

Analogamente ao materialismo, há apenas um tipo de espiritualismo científico, mas há vários tipos de espiritualismo-crença. Nesse último caso, adota-se uma atitude científica em relação a certos fenômenos, e uma crença em relação a outros.

É muito importante reconhecer que a visão de mundo espiritualista científica, como caracterizada, é um superconjunto próprio da visão materialista, isto é, um espiritualista científico admite todos os fatos científicosfísicos, mas admite algo mais, de natureza não-física. Assim, esse espiritualismo é uma ampliação do materialismo científico. É importante salientar a expressão que empreguei: “fatos científicos”. De fato, um espiritualista não é obrigado a aceitar julgamentos materialistas, como por exemplo as presunções de o pensamento originar-se no cérebro e da evolução darwinista, pois esses não são fatos científicos: são especulações científicas. Um outro exemplo é a presunção de que a Terra tem cerca de 6 bilhões de anos; esse dado não é um fato científico: é o resultado de um cálculo que representa uma extrapolação extremamente grosseira (de medidas de decaimento radioativo). O cálculo pode estar correto, mas deveria ser simplesmente chamado de “extrapolação do decaimento radioativo” e não de “idade da Terra”, pois isso é um julgamento. Essa extrapolação, bem como outras baseadas em outros fenômenos, parte do pressuposto que as constantes físicas foram sempre as mesmas, e não dependem, por exemplo, de condições totalmente diferentes das nossas em termos físicos. A propósito, para evitar mal-entendidos, vou colocar aqui que não sou adepto do que se denomina de Young Earth Criationism, que diz que a Terra tem cerca de 6.000 anos.

Um espiritualista-crente pode chegar a negar fatos científicos, pois pode ter o preconceito de não estudá-los ou verificá-los. Alguns fatos científicos podem inclusive contrariar suas crenças pois, como tais, não estão sujeitas a revisão, caso contrário estariam no caminho de serem hipóteses de trabalho.

O espiritualismo-crença pode também ser denominado de “misticismo”. Em geral, os místicos não procuram compreender os fenômenos não-físicos; para eles, bastam os sentimentos inspirados pelos últimos, e a intuição de que existem.

No item 8 vou mostrar que muitos adeptos das religiões instituídas são na verdade materialistas.

É fundamental separem-se fenômenos físicos de não-físicos. Qualquer explicação desses últimos em termos físicos, como por exemplo fenômenos paranormais (como a pretensa telepatia) como sendo causados por “ondas” de alguma energia física desconhecida, é um materialismo e não um espiritualismo. Note-se que “ondas” são fenômenos mecânicos (como por exemplo as causadas em um lago quando se lança nele uma pedra, ou as causadas por sons propagando-se no ar); a sua aplicação em fenômenos não-mecânicos é problemática mesmo do ponto de vista físico. Por exemplo, qualquer onda tem que se propagar em um meio físico. Qual é o meio em que se propagam as ondas eletromagnéticas? Pior ainda, qual o meio de propagação das ondas de probabilidade da Mecânica Quântica, já que probabilidade é um conceito puramente matemático, não tendo consistência física?

Dawkins argumenta que o Deus das religiões instituídas não pode ser o projetista (o intelligent designer) de todo o universo, como elas supõem, por que também teria que haver um projetista que o projetou; por outro lado, como projetista, teria que ser mais complexo e improvável que seres vivos complexos e improváveis [DAW b, 188]. Aqui vemos um exemplo claro da mistura de conceitos físicos com não-físicos. Claramente, essas religiões tomam Deus como uma entidade não-física. Mas projetar e construir entidades físicas, tais como os seres vivos, significa agir sobre o mundo físico, conformando-se às suas leis e condições; falar sobre a improbabilidade de um ser vivo atingir uma alta complexidade é também um raciocínio que se aplica ao mundo físico. Mas especular sobre a necessidade de um ente não-físico como Deus ter sido projetado é aplicar um raciocínio baseado no mundo físico para uma entidade não-física. Especular que um ente não-físico deve necessariamente ser mais improvável e complexo do que seres vivos improváveis e complexos é novamente aplicar sobre um ente não-físico um raciocínio baseado no mundo físico. Curiosamente, Dawkins relata que, em um recente congresso sobre ciência e religião, nenhum representante das religiões instituídas foi capaz de rebater razoavelmente essas suas duas objeções [p. 187]. De meu ponto de vista, isso é absolutamente claro: as religiões instituídas também misturam conceitos físicos com não-físicos (além de não terem um conceito claro do que Deus é).

Voltando a grandes problemas da Física, eles podem ser uma indicação de que, no nível atômico e no cósmico de estrelas, galáxias e nébulas se está na fronteira do nível físico com o não-físico. Por exemplo, não são compreensíveis à razão baseada na nossa experiência da matéria, isto é, em nossos sentidos, no âmbito da Mecânica Quântica, a não-localidade, em que existe aparente influência instantânea entre “partículas” atômicas ou sub-atômicas “acopladas” (entangled), independentemente da distância entre elas [GRE, p. 83], e o spin das “partículas”, que não corresponde à nossa noção de rotação [p. 104]. Por outro lado, a noção relativística de tempo e espaço, em que estes dependem da velocidade, não corresponde à nossa percepção de que o tempo é absoluto, como na Mecânica Newtoniana. Além disso, o tempo dos modelos da Física é reversível [p. 145], isto é, para os seus modelos não há distinção entre passado e futuro [p. 156], o que se choca com a nossa experiência: nunca ninguém viu um leite derramado voltar espontaneamente para a garrafa. Além disso, temos uma noção precisa do “agora”, que também não faz sentido na Física [p. 141]. Outros grandes problemas da ciência são a “energia escura”, que produziria a repulsão que resulta na expansão do universo, formando ¾ do conteúdo do mesmo [CON, p. 25] (mas não afeta “pequenas” distâncias como as de nossa galáxia) e a “matéria escura”, que consistiria em 85% de toda a matéria no universo [p. 27], mas que não se sabe o que são.

Como mostrei no item 4, o livre-arbítrio não faz sentido do ponto de vista materialista. Mas faz todo o sentido do ponto de vista espiritualista científico. Vou justificar isso colocando uma aqui uma teoria minha de como o não-físico pode atuar sobre o físico, levando à liberdade do ser humano. Vou ser breve, pois já discorri sobre isso extensamente no meu artigo “Por que sou espiritualista“. Suponha que exista em cada ser vivo um “membro” não-físico associado a ele. Suponha-se ainda que nos seres vivos existam vários fenômenos fisicamente não-deterministas. Um exemplo disso é que, a partir de um mesmo gene do DNA podem ser formadas várias proteínas diferentes [HOL C, p. 78]. Em seu excelente livro, Jeffrey Smith diz: “Havia uma velha teoria genética de que cada gene era codificado para produzir uma única proteína, o que levou biólogos à estimativa de que deveria haver 100.000 genes no DNA humano para abranger todas as proteínas. Quando em junho de 2000 esse número de genes foi estimado em 30.000, isso explodiu o mito ‘um gene, uma proteína’. Na verdade, a grande maioria dos genes pode codificar mais de uma proteína; alguns podem produzir várias.” [SMI J, p. 117.] Minha teoria é de que a escolha de qual proteína deve ser formada a partir de um certo gene não requer energia. Portanto, uma das maneiras de um “membro” não-físico de um ser vivo poder atuar sobre a matéria física é justamente nessa escolha. No meu artigo citado, mostro que há um aparente não-determinismo de uma célula manter seu estado atual, começar a subdividir-se (mitose ou meiose) ou começar a morrer (apoptose). A escolha de um desses caminhos não requer energia, portanto aqui pode-se ter novamente a ação de um membro não-físico atuando como um modelo (mental!) para o crescimento ou regeneração de tecidos vivos. Essa é uma possibilidade para explicar certos fenômenos morfológicos dos seres vivos, que são um mistério do ponto de vista puramente físico, como por exemplo a simetria das orelhas de uma pessoa, as simetrias de alguns desenhos coloridos extraordinários das asas das borboletas (ver no artigo citado fotos minhas mostrando exemplos dessas simetrias), etc. Além de um gene poder dar origem a proteínas diferentes, e células mudarem de estado, há muitas outras transições possivelmente não-deterministas em qualquer ser vivo, onde a escolha de qual transição será tomada, não requerendo energia, pode sofrer uma influência de algo não-físico associado unicamente àquele ser. Talvez um exemplo disso seria qual combinação de genes é feita na formação de um ovo, a partir dos genes dos pais. Um outro é o fato de que, se um neurônio estar em um certo estado, com os mesmos impulsos de entrada às vezes ele dispara, outras vezes não; isso pode significar que seu disparo é não-determinista. Nesse caso, nosso pensamento não-físico pode agir sobre os neurônios, produzindo sua atividade (vejam-se mais detalhes sobre isso em meu artigo citado). Note-se aqui possíveis consequências físicas de se assumir a existência de membros não-físicos em seres vivos; compare-se essa hipótese com o conceito totalmente abstrato do Deus das religiões instituídas, as quais não podem explicar como essa entidade age.

Nesse esquema, a liberdade do ser humano advém da atuação consciente de um membro não-físico individual, que faz parte de cada pessoa, e que denominarei de “individualidade superior”, escolhendo uma dentre várias ações não-deterministas. Por exemplo, suponha que uma pessoa está numa esquina de um quarteirão retangular e necessita ir a pé até a esquina diagonalmente oposta do mesmo quarteirão. Ela pode seguir um dos dois possíveis caminhos: iniciar pela calçada da esquerda, ou pela da direita. Suponhamos que não haja nada que lhe dê preferência por um caminho ou por outro (como seriam os casos de um deles ter menos tráfego, ou ter um visual mais agradável). Se nessas condições ela fizer uma escolha consciente, isto é, pensar sobre os dois caminhos e decidir qual vai tomar (em lugar de fazê-lo instintivamente), e seguir essa escolha, ela terá agido em liberdade. Uma ação instintiva poderia ser nesse caso tomar um caminho de costume: essa não seria uma ação livre. Note-se que pode haver condições de preferência para cada um dos caminhos (por exemplo, um tem menos tráfego, o outro é mais bonito): ainda assim, a escolha consciente pode ser um ato de liberdade pois, por exemplo, pode-se tomar um dos caminhos, justamente por se reconhecer uma preferência pelo outro. No entanto, se a escolha seguir simplesmente a preferência por um dos dois caminhos, como citado, não terá sido feita em liberdade. Sempre que se segue um sentimento ou um impulso inconsciente de vontade, não se age em liberdade.

Obviamente, um materialista vai dizer que a pessoa que está na esquina tem a ilusão de poder escolher um dentre os dois caminhos. É importante saber-se que ele não pode provar isso, de modo que se pode perfeitamente fazer a hipótese de que a escolha foi livre. No artigo citado dou exercícios puramente mentais de controle do pensamento, permitindo a qualquer pessoa observar mentalmente que tem possibilidade de escolher o próximo pensamento em liberdade, dando-lhe assim evidências pessoais de que existe o livre arbítrio.

Nas decisões conscientes o “membro” não-físico, que chamei de “individualidade superior”, pode tomar uma decisão mental em liberdade, e fazer com que a pessoa acabe agindo em liberdade. Uma observação acurada mostra que os animais agem sempre por instinto ou por condicionamento: no sentido exposto, eles não podem ser livres. Portanto, pode-se concluir que eles não possuem esse membro não-físico “individualidade superior” (obviamente, também plantas e minerais não o possuem). Uma consequência disso é que, desse ponto de vista espiritualista, o ser humano não é um animal. O materialismo não pode chegar a essa conclusão, e não é à toa que denomina o ser humano de “animal racional” (curioso: por que, analogamente, não se denomina um animal de “planta móvel”?). A propósito, uma criança também não tem liberdade: a sua “individualidade superior” ainda não impregnou suficientemente o seu corpo físico, que obviamente ainda não foi suficientemente desenvolvido, ao ponto de ela conseguir manifestar-se conscientemente por meio do pensamento.

Uma hipótese interessante é que essa individualidade superior não tem sexo (que é uma característica do corpo físico e das funções vitais, bem como da alma, como por exemplo a caracterizada por Jung), nem raça (isto é, independe da hereditariedade) e nem nacionalidade. O seu desenvolvimento e manifestação cada vez mais intensa no decorrer da história, é que teria levado à igualdade de direitos entre os sexos, ao anti-racismo e ao universalismo (anti-nacionalismo). Esses impulsos, que conjeturo não poderem ser explicados por seleção natural, são claramente modernos e estão ficando cada vez mais intensos. Uma das suas lindas manifestações é o respeito à essência do ser humano, independente do que ele é exteriormente; daí todo o movimento relativamente recente de proteção e de se dar certas vantagens para os deficientes físicos e para os idosos: em ambos, a individualidade superior é da mesma natureza de que a de todos os seres humanos; no entanto, essa individualidade não consegue manifestar-se plenamente, mas não deixa de existir. Em outras palavras, o que importa realmente em um ser humano é essa sua essência não-física. Numa criança pequena, já existe também essa individualidade, mas ela ainda não consegue manifestar-se, pois depende do desenvolvimento do corpo físico, das funções vitais e também da maturação da percepção, dos sentimentos, da consciência, etc. Note-se como apareceu modernamente um respeito também pelas crianças – a ponto de se terem instituído leis proibindo que sejam castigadas fisicamente, o que era algo considerado natural no passado. Há hoje em dia uma forte intuição de que cada criança traz consigo certas características e certos dons, que devem ser respeitados. De acordo com os conceitos aqui apresentados, eles são devidos a essa individualidade superior única em cada ser humano.

As religiões costumam falar em Deus – como vimos, sem caracterizar essa divindade e mostrar claramente como ela atua. Pois bem, o que denominei de “individualidade superior”, por ser um membro não-físico único em cada ser humano, pode ser considerado o que cada um tem de divino dentro dela. Tenho a impressão de que muitas pessoas, quando dizem “Meu Deus!” estão inconscientemente referindo-se a essa divindade única que existe dentro de si. Afinal, Deus é universal, como ele pode ser de alguém? Dawkins formula a pergunta de como Deus “é um ser capaz de […] falar com um milhão de pessoas simultaneamente […]” [DAW b, p. 185] – novamente, uma mistura de conceitos físicos com não-físicos, mas que mostra bem como o Deus das religiões instituídas é universal (apesar de atuar em cada indivíduo). Por outro lado, a individualidade superior é individual, isto é, é realmente de cada um. Admitindo-se por hipótese de trabalho a existência dessa individualidade superior, o espírito passa a ser algo atuante, e não uma mera abstração como se tornou a noção de Deus. Ele pode ser percebido quando, em um estado meditativo, o pensamento concentra-se em si próprio. A propósito, Rudolf Steiner chamou a atenção para o fato de que o pensamento é a única atividade em que o objeto de uma ação coincide com ela própria [STE a, p. 39]; para pensar, nada mais é preciso do que o pensar [p. 36].

Como em uma cosmovisão espiritualista faz sentido considerar-se que existe a liberdade humana, também dentro dessa visão há sentido em se falar em responsabilidade, em moral e em amor altruísta que, como vimos, não fazem sentido de um ponto de vista estritamente materialista. Assim, somente o espiritualismo pode levar à suplantação consciente e coerente do egoísmo e da ambição. De fato, considero o amor altruísta um requisito essencial para a prática de um espiritualismo científico: o verdadeiro espiritualista deve dedicar um amor altruísta à natureza e aos outros seres humanos.

No fim do item 4 mencionei que o materialismo foi uma necessidade da humanidade. Desde o fim do século XIX ele deveria ser ultrapassado por um espiritualismo especial: trata-se justamente do espiritualismo científico. Não há saída para a humanidade: o materialismo e o espiritualismo-crença só podem continuar levando à destruição do mundo e da humanidade, que pode ser constatada pelos desastres provocados pela tecnologia e pelas crenças religiosas. Ambas estão a serviço do egoísmo e da ambição; só o espiritualismo científico pode levar a humanidade a assumir a atitude altruísta necessária para mudar o rumo das destruições atuais. É interessante notar que as religiões vão contra o livre arbítrio, pois impõem maneiras de pensar e de agir; por outro lado, o livre arbítrio não faz sentido de um ponto de vista materialista.

Infelizmente, não tenho nenhuma esperança na humanidade como um todo. Parece-me que não há possibilidade de reverter, em geral, a decadência crescente dos valores humanos, tanto devido ao materialismo quanto às religiões. Ela manifesta-se pelo império crescente do egoísmo e da ambição monetária e de poder, e por uma enorme influência exercida sobre os indivíduos, de um lado limitando sua liberdade, por exemplo condicionando-os a consumir e a ter certos pontos de vista (incluindo a indução de uma profunda veneração pela tecnologia), e do outro lado forçando-os a seguir cegamente interpretações literais de imagens religiosas transmitidas por várias escrituras e mitos. Mas tenho certeza de que essas tendências destrutivas podem, e devem, sim, ser revertidas individualmente. E é a indivíduos que estou escrevendo neste momento.

Não sou totalmente negativo ou pessimista: reconheço progressos altamente positivos na humanidade, como os movimentos dos direitos humanos, da paz universal e o ecológico. Mas o balanço final global parece-me ser altamente negativo. Não consigo ter, realmente, uma esperança na massa – basta considerar que cerca de metade da humanidade é condicionada e bestificada diariamente pela TV (ver meus artigos a respeito dos meios eletrônicos em meu site).

6. Combinações de materialismo e espiritualismo

Muitas pessoas adotam uma visão de mundo que é uma combinação das duas abordadas, isto é, para alguns fenômenos adotam a visão materialista, e para outros a espiritualista. É o caso de muitos cientistas, ao admitirem que a criação da matéria e da energia tem uma origem não-física, não tendo quanto a esse fato o preconceito de existirem apenas processos físicos; no entanto, adotam como hipótese de trabalho ou como crença que daí para diante o mundo foi deixado a si próprio, e não há mais atuação de fenômenos não-físicos, isto é, são deístas. Assim, são espiritualistas quanto à origem do universo, e são materialistas daí para a frente. Um caso desses foi Einstein, que admitia que Deus tinha criado as “leis” da natureza; no entanto, depois dessa criação ele/ela não mais atua, em particular no ser humano, o que ele expressava dizendo ser contra a ideia de um Deus pessoal que pune ou recompensa cada indivíduo: “Qualquer pessoa que se envolve seriamente no trabalho científico acaba convencida de que existe um espírito que se manifesta nas leis do universo …” [ISA, p. 398]; “Acredito no Deus de Espinosa, que se revela na harmonia bem-ordenada de tudo o que existe; mas não acredito num Deus que se ocupe com o destino e as ações da humanidade.” [p. 399.] Um outro caso são os cientistas que adotam fervorosamente alguma religião: em sua pesquisa científica são 100% materialistas, mas ao professarem sua religião são espiritualistas (nos dois casos, em geral do tipo crente).

Uma vez participei no Instituto de Física da USP de uma mesa-redonda com um conhecido geneticista brasileiro, que se considera profundamente católico. Ele declarou publicamente algo como o seguinte: “Durante a semana, eu ponho meu avental e vou para a o laboratório; no fim de semana ponho meu terno e vou para a igreja, que mal há nisso?” Para mim, isso é uma tragédia, pois os tipos de pensamento que ele exerce nos dois casos e a maneira de encarar o mundo são totalmente incompatíveis. No entanto, trata-se de uma só pessoa; aparentemente, é como se ele tivesse dupla personalidade. Ele encara o mundo do laboratório materialisticamente, e o resto do mundo, talvez humano e social, espiritualmente. Mas onde termina o mundo do laboratório e começa esse outro mundo? O quanto do pensamento do laboratório influencia a vida comum, e vice-versa? Para começar, os cientistas são pessoas humanas, e vivem em sociedade. Em segundo lugar, a escolha da pesquisa a ser feita não é uma ação científica, pois depende do gosto ou impulso do cientista e da moda científica. Esta última refere-se, por exemplo, aos modismos (preferências por certas áreas consideradas muito importantes) na aceitação de artigos, como também nas facilidades no financiamento da pesquisa. Durante a “guerra fria”, para garantir nos EUA o financiamento de alguma pesquisa em Ciência da Computação bastava dourar a pílula com algo de tradução automática. Entre nós, um caso típico foi o do Projeto Genoma da Xilella fastidiosa, promovido em 1997 pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, fazendo com que muitos laboratórios de pesquisa em biologia voltassem-se para essa área. Aliás, não há hoje nenhum laboratório de biologia que se preze que não tenha um sequenciador de DNA; já em 2000 um pesquisador de um desses laboratórios disse-me que esse sequenciadores tornaram-se tão populares e necessários como os voltímetros.

Por outro lado, muitas pessoas que se dizem religiosas ou espiritualistas pensam materialisticamente, como os que querem provar fisicamente a existência de fenômenos não-físicos. Conheci razoavelmente bem um espírita que se tornou um renomado biólogo. Ele contou-me que, quando jovem, media o peso das pessoas antes de uma sessão mediúnica e logo depois dela, para ver se parte da massa delas tinha sido consumida na energia (física, obviamente) usada na manifestação dos “espíritos” durante a sessão.

Como afirmei no item 5, considero absolutamente essencial fazer-se uma separação entre o que é físico do que é não-físico. O que é não-físico não pode de maneira alguma ser detectado fisicamente, especialmente por meio de aparelhos. Isso não significa que ele não pode influenciar o mundo físico, principalmente nos seres vivos, como em minha teoria indicada brevemente naquele item.

7. A ciência moderna

Vou aqui me referir à ciência como é feita e divulgada pela quase totalidade dos cientistas.

A ciência moderna é essencialmente materialista-crente. Basta ler revistas científicas e ver-se-á que as explicações e teorias são baseadas exclusivamente em processos físicos; por exemplo, nenhuma formula a hipótese de que o pensamento pode ter origem não-física, e a atividade neuronal pode ser uma consequência e não a causa dos pensamentos. Estou certo de que um artigo que coloca expliciatamente essa hipótese jamais seria aceito por uma revista científica de renome. Por outro lado, quando são revistas de divulgação científica, em geral abominam ou ridicularizam qualquer tipo de espiritualismo.

É um fato que os sucessos da ciência e da tecnologia (no sentido em inglês, isto é, instrumentos e máquinas) fazem com que as pessoas tornem-se cada vez mais crentes em ambas; já em 1976 eu chamei a atenção para o que significa a crença na ciência em meu artigo “O computador como instrumento do cientificismo“. Com essa crença, parece-me que as pessoas perdem, por exemplo, o respeito pela natureza (a propósito, “respeito” não pode fazer sentido de um ponto de vista materialista coerente, pois da matéria ele não pode advir). Assim, perde-se a intuição do lugar correto em que a ciência e a tecnologia devem ser aplicadas, caindo-se em toda sorte de exageros. A esse respeito, ver meu artigo “A missão da tecnologia“.

É muito importante reconhecer que a ciência e sua dileta filha, a tecnologia, estão destruindo o mundo. O aquecimento global é o caso atualmente mais difundido dessa destruição, mas há inúmeros outros, como a poluição dos alimentos, do ar e das águas, o condicionamento feito pela TV e pelos jogos eletrônicos, etc. Jeffrey Smith, o autor do excelente e bem documentado livro Genetic Roulette [SMI J], afirmou em uma palestra que assisti em outubro de 2007 que considerava organismos geneticamente modificados (GM) uma ameaça ao meio ambiente e à humanidade muito maior do que o aquecimento global e os resíduos atômicos. Em seu livro, ele mostra e documenta com citações de artigos científicos, por exemplo, que a inserção de genes perturba o DNA [p. 63], e o uso de bactérias na transposição dos genes faz com que genes de plantas GM passem para outras plantas, animais e seres humanos, quebrando assim a barreira genética [p. 127]. Traduzo o seguinte trecho, que mostra o desastre resultante da fé em declarações científicas e técnicas: “Quando plantas GM resistentes a herbicidas apareceram no mercado em 1996, a indústria de biotecnologia proclamou que elas iriam necessitar de menos herbicida [curioso, elas não produzem herbicida, são resistentes a ele, isto é, permitem que se o use mais do que elas iriam aguentar se não fossem GM!]. Isso foi verdade durante os primeiros três anos. O uso repetido do [herbicida] Roundup [especificamente ao qual aquelas plantas GM tinham maior resistência], entretanto, fez com que ervas daninhas desenvolvessem resistência ao ingrediente ativo do herbicida, o Glifosato. […] De acordo com dados do USDA [ministério da agricultura americano], o efeito na soja, algodão e milho nos Estados Unidos foi um aumento de 138 milhões de libras (5%) em herbicidas de 1996 a 2004. Isso está acelerando. Em 2004, a soja Roundup Ready recebeu 86% mais herbicidas que grãos convencionais.” [p. 147.] Tenho uma forte impressão de que a mentalidade imposta pela ciência, de crença na mesma, é que levou à adoção de organismos GM. Os terríveis efeitos colaterais do uso de organismos GM, que estão começando a se manifestar, como por exemplo a citada transposição dos genes modificados para outras espécies, são frutos do reducionismo do método científico atual; com ele, não se investigam e atingem aspectos globais, que podem mostrar resultados imprevistos. Por exemplo, J. Smith cita que havia uma teoria, abraçada pela indústria de biotecnologia, de que os genes eram independentes; ele cita pesquisas científicas que mostraram o contrário, havendo agrupamentos de genes funcionando em conjunto, e que a expressão dos genes dependem do fator “epigenético”, isto é, influências fora de genes específicos. “Toda essa nova informação sobre genes não foi considerada quando a tecnologia de inserção de genes foi desenvolvida. Uma inserção aleatória, com suas mutações e eliminações associadas, pode causar uma devastação em uma rede de genes finamente afinados e coordenados.” [p. 121.] Em outras palavras, a expressão genética é extremamente complexa: “A biologia é muito mais complexa que a tecnologia”, segundo Robert Mann, bioquímico da Universidade de Auckland [p. 120]. Além disso, as plantas GM comerciais não foram de modo algum introduzidas pensando-se no bem da humanidade, mas sim para satisfazer a ganância monetária.

Vou caracterizar aqui a ciência que levou aos organismos GM que estão produzindo desastres ecológicos como “má ciência”. Um exemplo clássico de má ciência foram as pesquisas que mostravam que o fumo não tinha efeito nocivo à saúde dos fumantes. Um outro, pouco mas antigo, não previa as consequências da radiação provocada pela explosão de bombas atômicas, o que acabou levando ao banimento dos testes com elas somente muito tempo depois de iniciados. Tenho a impressão de que, se houvesse mais respeito pela natureza, muitos dos desastres provocados pelas descobertas científicas teriam sido evitados. Infelizmente, como já afirmei no começo deste item, respeito tem que ser estranho ao materialismo, pois da matéria ele não pode advir.

É esse reducionismo do método científico corrente, perdendo a noção do global em todos os níveis, e a falta de respeito para com a natureza proveniente do materialismo e da ambição, que nos levam ao seguinte paradoxo: na era do materialismo, estamos destruindo a matéria do mundo. É preciso algo que transcenda a matéria para respeitá-la e para que se tenha e se exerça um amor altruísta, oposto às ações ditadas pelo egoísmo.

Em minha opinião, uma das consequências mais funestas do materialismo, especialmente da ciência materialista, é a consideração de que o ser humano é uma máquina, ideia publicada em um livro por La Méttrie já em 1748 (L’Homme-Machine). Isso está errado já do ponto de vista linguístico, pois “máquina” aplica-se a um artefato projetado e construído; mas os seres humanos não foram nem projetados nem construídos. O correto seria dizer que o ser humano é um ser puramente físico. No entanto, tenho sido bem radical nos últimos tempos a esse respeito: parece-me que não há nada, absolutamente nada puramente físico nos seres vivos, desde as células até os organismos completos, isto é, neles sempre se manifesta algo não-físico.

A imagem passada pelos cientistas, de que o ser humano é uma máquina, já impregnou a mentalidade de boa parte da humanidade. O terrível desse erro crasso é que não há moral intrínseca às máquinas, como não a há nos animais, plantas ou minerais. Pode haver ética ou moral no emprego de uma máquina, mas não intrinsecamente nela própria, no sentido de que uma máquina pode ter responsabilidade pelas suas ações: quem é responsável pelo seu funcionamento é o seu usuário, ou mesmo quem a produziu. Assim, a imagem de que o ser humano é uma máquina retira dele a sua moral intrínseca. Os resultados dessa mentalidade serão cada vez mais terríveis. Por exemplo, do mesmo modo que não é um ato imoral deixar de colocar combustível em um automóvel estacionado em uma garagem, quem sabe também não será considerado imoral deixar um ser humano sem comida. A propósito, quantas pessoas importam-se conscientemente que centenas de milhões de pessoas, incluindo crianças, estão passando fome neste momento, apesar de o mundo produzir comida suficiente? (Um artigo de Susan Sheperd no N.Y. Times de 30/1/08 cita que a cada ano morrem 5 milhões de crianças de menos de 5 anos por falta de alimentação.) Um outro exemplo é a total falta de sensibilidade que criminosos e terroristas em todo o mundo estão mostrando frente ao sofrimento de suas vítimas: se elas são máquinas, seu sofrimento não faz sentido. O quanto isso é devido à mentalidade materialista?

Para mais detalhes sobre o ser humano não ser uma máquina, e em particular sobre o fato de que máquinas jamais vão ter sentimentos e pensamentos no sentido humano, ver meu artigo sobre Inteligência Artificial.

Uma das características essenciais da ciência moderna é a sua extrema especialização. Existe inclusive uma crença de que só os especialistas podem emitir opiniões, esquecendo-se que ao se fazer um julgamento sempre entram fatores imponderáveis, pois o conhecimento do mundo real não pode ser total. O máximo que os especialistas deveriam fazer é apresentar seus dados e teorias; a decisão de usá-los de uma ou outra forma não é um ato científico, isto é, a decisão final não deveria ser tomada por eles ou baseada exclusivamente em seus dados. Essa extrema especialização faz com que não-especialistas tenham muita dificuldade em compreender a linguagem e os conceitos dos especialistas. Há uma tendência a se achar popularmente que a ciência e a técnica são complicadas demais e não é possível, ou é extremamente difícil, compreender os seus conceitos. Isso contribui decisivamente para a paralisia mental citada no requisito 3.2. Com isso, fica-se à mercê dos especialistas, isto é, do materialismo que, em geral, impera neles.

Uma outra característica essencial da ciência moderna é a obsessão em usar modelos matemáticos, a ponto de se considerar que, se não houver expressão matemática, uma teoria não é científica, como à vezes é infelizmente considerada a Teoria das Cores de Goethe [SEP, pp. 8, 176]. Tenho a impressão de que o uso desses modelos deve-se à objetividade que eles introduzem. De fato, eles são absolutamente universais: qualquer pessoa adequadamente preparada pode compreender a Matemática por detrás deles, e empregá-los universalmente na previsão ou confirmação de resultados experimentais. No entanto, é necessário reconhecer que os modelos matemáticos envolvem unicamente previsão ou confirmação de resultados de medidas. Por exemplo, a “Lei” da Atração Gravitacional de Newton expressa uma relação numérica entre as medidas das massas de corpos que se atraem, da distância entre eles, de uma constante (no caso da gravitação, a aceleração da gravidade), e da força de atração. Como todos os modelos matemáticos, essas medidas devem ser expressas quantitativamente. Com isso, os modelos matemáticos eliminam o aspecto qualitativo das coisas – além de não expressarem a essência delas: a fórmula de Newton não diz nada sobre a origem da atração gravitacional (um mistério científico até hoje).

É essa obsessão pela quantificação que, parece-me, levou à descoberta do DNA que, no fundo, é um modelo matemático, com todas as limitações desse modelo. Por exemplo, na realidade o DNA não é aquela hélice estática, como dá a impressão de ser. Uma sequência de bases do DNA, formando um gene, não é algo isolado, pois interage com outros genes. O DNA sem o ambiente celular não produz absolutamente nada, como mostrei no ensaio “Desmistificação da onda do DNA“, e onde cito exageros, típicos de crença na ciência, que se atribui a ele.

A ciência pode ser ampliada por meio da adoção de uma visão espiritualista científica. Uma das consequências disso seria passar-se a fazer ciência qualitativa, além da quantitativa (única feita hoje em dia). Outra consequência seria ter-se novamente uma ciência mais humana. A ciência moderna é intrinsecamente desumana, por exemplo na exigência da reprodutibilidade dos experimentos: muitas experiências humanas não são reprodutíveis. Por exemplo, o leitor deste artigo não será exatamente o mesmo depois de tê-lo lido: os seres humanos incorporam todas suas vivências (principalmente em seu sub- ou inconsciente). Além disso, a objetividade da ciência elimina os aspectos subjetivos do ser humano, como seus sentimentos e impulsos de vontade.

Um pequeno passo, de grande impacto, levaria a uma ampliação da teoria da evolução: considerar-se que nem todas as mutações e nem todas as seleções naturais foram aleatórias, mas dirigidas pelos membros não-físicos constituintes dos indivíduos e das espécies. Isso abriria um enorme campo de pesquisa, pois se poderia, por exemplo, considerar que a evolução teve um objetivo: o aparecimento do ser humano que, claramente, é o coroamento da mesma. Um exemplo de um raciocínio diferente proveniente de uma ciência ampliada levando-se em consideração processos não-físicos, é a razão para que seres humanos sejam eretos: sem essa posição, eles não poderiam ter desenvolvido a liberdade (que os animais não têm).

8. As religiões instituídas

As religiões instituídas são praticamente todas espiritualistas-crentes, pois são baseadas na fé e em dogmas. Uma das consequências das suas crenças é a intolerância existente entre as várias religiões. Ela é fruto da falta de compreensão de cada uma pelas outras. Mas para haver compreensão, é preciso conceituar o que está por detrás de cada religião, começando-se obviamente por separar claramente o que seria uma religião original, do que se tornou essa religião devido a tradições e interpretações que foram acumulando-se com os tempos, modificando-a.

Um caso típico desses, que menciono pois é muito pouco conhecido e mal compreendido, é a questão do monoteísmo universal. A religião judaica, de onde esse conceito espalhou-se para o ocidente, não era absolutamente monoteísta em sua origem. Por exemplo, o primeiro mandamento diz: “Eu sou I’hová [minha transliteração da grafia do texto masorético vocalizado, correspondente ao que se denomina de Jeová], teu Deus [no original, Elohim, que é um plural; ver o próximo parágrafo], que te fez sair da terra do Egito, da casa da escravidão. Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem esculpida de nada que se assemelhe ao que existe lá em cima nos céus, ou embaixo na terra, ou nas águas que estão debaixo da terra. Não te prostrarás diante desses deuses e não os servirás, porque eu, I’hová teu Deus, sou um Deus ciumento, que puno a iniquidade dos pais sobre os filhos até a terceira e a quarta geração dos que me odeiam, mas que também ajo com amor até a milésima geração para com aqueles que me amam e guardam meus mandamentos.” [Bíblia de Jerusalém, Ex. 20:2-6.] Uma leitura isenta de preconceitos mostra claramente que não está dito que não existem outros deuses, e sim que há um só, I’hová, atribuído ao povo hebreu, a quem este deveria obedecer. As “imagens esculpidas” podem ser representações de coisas físicas, mas também de seres não-físicos, o que seria o caso de seres divinos (no plural; “céus” pode significar o mundo espiritual, e “terra” o mundo material). É também interessante notar a referência ao fato de I’hová ser ciumento e vingativo. É só ler a invasão dos hebreus na Terra Prometida e ver os casos sanguinários de terra arrasada ordenados por ele, por exemplo no caso da cidade de Jericó [Jos. 6:21]. De fato, a doutrina do amor altruísta, da bondade irrestrita, só aparece com o Cristo, substituindo o vingativo “olho por olho, dente por dente” [Deut. 19:21], e com a introdução do perdão individual – antes, considerava-se que só I’hová e os Elohim podiam perdoar. Aliás, é interessante notar que o Cristo não quis fundar uma nova religião, e sim apenas renovar o judaísmo, pois o ser humano havia mudado desde a origem dessa religião. Objetivamente, os Evangelhos não são códigos de conduta nem dão prescrição de cultos: são o relato da atuação dessa entidade, o relato de uma vida, dando-se um exemplo de atitude e ação que se julgava dever ser seguido para o bem da humanidade.

Voltando à questão do monoteísmo, já a primeira denominação do que hoje se chama de Deus é um plural, “Elohim” [Gen. 1:1], e só posteriormente é que aparece I’hová [Gen. 2:4]; já aí temos várias entidades diferentes, que a tradição aos poucos interpretou como uma só, conhecida por “Deus”. Em lugar de pronunciar “o nome inefável” I’hová, a tradição judaica introduziu a palavra “Adonai”, que significa literalmente “meus senhores”, novamente um plural. Eu já tinha grande desconfiança com relação ao pretenso monoteísmo judaico, quando li o magnífico livro de Paul Johnson, História dos Judeus. Ele conclui que o monoteísmo universal só aparece com Isaías [JOH, p. 86]. Portanto, antes de Isaías havia o que eu denomino de um “monoteísmo local” ao povo hebreu, significando que havia apenas uma divindade, I’hová, associada a ele, e não outras, cuja existência não é negada. A compreensão do que significa monoteísmo é fundamental para se compreender as religiões ditas monoteístas.

Falando de Deus, é importante reconhecer que, independentemente de como se encara essa entidade, se ela fosse onipotente, como querem várias religiões, o ser humano não poderia ser livre. Por outro lado, ela não pode ser onisciente pois, por exemplo, não tem nossos olhos para conhecer o mundo físico como o conhecemos, e jamais passou pelo sofrimento que os seres humanos podem passar (como por exemplo a dor), e muito menos vivenciar a morte (não confundir Cristo com Deus; nos evangelhos, o primeiro refere-se ao segundo como “pai”). Note-se que, em meus livros e artigos, eu jamais apelo para Deus para explicar ou justificar seja lá o que for pois, para abordar os assuntos pertinentes ao mundo não-físico, não necessito da noção de uma entidade abstrata dessas; basta referir-me ao fato de que cada ser humano, cada animal e cada planta contêm algo de não-físico individual (e também coletivo no caso de plantas e animais, daí sua falta de “individualidade superior” e suas manifestações), ligado ao seu corpo físico; a sua manifestação é algo palpável, como por exemplo a diferença fundamental entre minerais, plantas, animais e seres humanos. Pode-se admitir que a suas diferentes formas exteriores são simplesmente expressão de seus constituintes não-físicos.

A compreensão das religiões só pode advir de um espiritualismo científico. Obviamente, assuntos religiosos escapam totalmente a uma cosmovisão materialista do mundo. Por outro lado, uma religião é dificilmente compreendida por outra pois esta é garantidamente espiritualista-crente. Note-se que tolerância é diferente de compreensão; no entanto, esta pode levar à primeira.

Da mesma maneira que o materialismo-crença leva a fanatismos pela ciência e pela tecnologia, o espiritualismo-crença de todas as religiões leva facilmente ao fanatismo, ou fundamentalismo, religioso. Vemos ainda nos dias de hoje esse tipo de fanatismo, que faz os adeptos serem levados pelos sentimentos, especialmente pelo ódio, a ponto de chegarem a cometer homicídios, tanto no judaísmo, quanto no cristianismo, no islamismo, no hinduísmo, etc., numa total volta indevida a um passado que a humanidade há muito ultrapassou. É óbvio que existem círculos mais humanos dentro dessas religiões, mas isso ocorre quando elas se modernizam. Infelizmente, elas não chegam à total modernização que, em minha opinião, seria a sua evolução para o espiritualismo científico.

Parece-me que as religiões tornaram-se, em geral, uma forma de materialismo. Max Weber já apontou para a ligação da ética protestante com o anseio por um enriquecimento monetário, tipicamente egoísta e materialista. Aqui no Brasil, temos os exemplos vivos de várias seitas evangélicas que, claramente, são religiosas apenas nas aparências ou para os ingênuos. É muito comum adeptos fundamentalistas de várias religiões não respeitarem a vida humana – exatamente o contrário do que se esperaria se as religiões fossem realmente espiritualistas; lembremos que da matéria não pode advir respeito. Por seu lado, o espiritismo mediúnico, muito popular no Brasil, procura forçar a manifestação material do não-físico, em lugar de elevar cada ser humano ao nível da observação consciente do mundo não-físico. Uma outra manifestação do materialismo das religiões é a maneira como teólogos interpretam narrações da Bíblia, como se fossem puramente físicos, o que inclui o criacionismo bíblico citado no item 2 e sobre o qual me estenderei em mais detalhes no próximo item.

Em seu recente livro, Richard Dawkins argumenta contra as religiões instituídas e sua crença em Deus [DAW b]; eu concordo com muitos de seus interessantes argumentos, e aprendi muito com seu livro, apesar de ter muitas objeções a ele. Mas se vê claramente que, sendo um materialista, ele não pode compreendê-las. É muito importante reconhecer que seus argumentos contra Deus e certas práticas das religiões não se aplicam ao espiritualismo científico.

9. O abismo entre ciência e religião

Hoje em dia é muito comum considerar-se que há um abismo intransponível entre ciência e religião, a ponto de se declarar que as áreas abrangidas por cada uma são totalmente distintas, isto é, a ciência não teria nada a dizer sobre religião e esta nada a dizer sobre fatos científicos (não confundir esses fatos com a ética da pesquisa científica). Há mesmo vários cientistas que separam tanto as duas, que se permitem considerarem-se religiosos, como citei no item 6.

Há duas razões para o abismo em questão. A primeira é um profundo preconceito do materialismo-crença, que ignora e muitas vezes ridiculariza qualquer espiritualismo, recusando-se a tomá-lo em consideração. A segunda é o dogmatismo do espiritualismo-crença, especialmente das religiões instituídas, devido à sua falta de busca por compreensão de fenômenos em uma atitude anti-científica; isso produz, com razão, uma reação negativa por parte dos materialistas. É interessante notar que ambos sentem-se ameaçados um pelo outro. Assim, uma de minhas teses é que esse abismo é culpa tanto da ciência como das religiões, e não deveria existir.

Exemplo típico desse abismo é o provocado, do lado do materialismo, pelos adeptos da evolução darwinista, e do lado de muitos espiritualimos-crença, incluindo várias religiões, pelos criacionistas bíblicos. Ambos não se entendem pois seus defensores não adotam uma atitude científica. Se esse fosse o caso, os evolucionistas seriam mais humildes e se interessariam por possíveis explicações espiritualistas para muitos dos problemas apresentados pela teoria da evolução, como por exemplo o fato de os seres humanos terem a coluna vertebral com um duplo S (inexistente nos animais), não terem pelo ou penas, e terem desenvolvido a fala e o pensamento. A respeito desses dois últimos pontos, veja-se o interessante artigo de Ian Tattersal, onde ele diz: “[…] não podemos atribuir o advento das capacidades cognitivas modernas simplesmente como a culminação de uma tendência de desenvolvimento do cérebro ao longo do tempo. Alguma coisa ocorreu além de um polimento [buffing-up] do mecanismo cognitivo.” [TAT, p. 44.] “[…] temos que concluir que o aparecimento da linguagem e os seus correlatos anatômicos não foi impulsionado por seleção natural, por mais que essas inovações benéficas possam parecer significantes a posteriori [in hindsight].” [p. 49.] Veja-se ainda o excepcional artigo do biólogo Craig Holdrege, “The giraffe’s short neck“, que mostra alguns problemas da teoria darwinista, especialmente referente à crença popular (e científica) de que o pescoço da girafa cresceu para que ela pudesse alcançar folhas mais altas (para começar, Holdrege mostra que as fêmeas são mais baixas que os machos; eu ainda acrescento: se fosse para atingir folhas mais altas, as girafas deveriam ter-se mutado em macacos…). Aliás, Holdrege aparentemente encaixa-se perfeitamente no meu conceito de “espiritualista científico”.

Uma observação pessoal quanto a uma classe de problemas da evolução darwinista: aqui em Campos do Jordão, onde estou escrevendo estas linhas, já observei e classifiquei uma dúzia de espécies de beija-flores. Como é que uma delas não teve vantagens evolucionistas e sobrepujou as outras, se há diferenças entre todas elas? Mais especificamente, há duas espécies bem distintas: um beija-flor cinzento de bico bem curvo e rabo comprido branco,Phaethornis eurynome, e outro, menor, todo verde, com pescoço branco, com uma mancha branca no olho, de bico reto e rabo curto, Leucochloris albicollis. (Já observei que ambas as espécies “beijam” as mesmas flores.) Como é que uma dessas espécies não se adaptou melhor do que a outra, e esta não desapareceu? Obviamente, os evolucionistas virão com especulações do tipo: “deve ter havido uma migração recente de pelo menos uma das duas, e não houve tempo para ela sofrer as mutações para chegar na outra”, ou qualquer outra abstração semelhante, que considero insatisfatória.

E por falar em mutações, evidentemente não é uma só mutação que dá origem a uma outra espécie; deve ser um número enorme delas, encadeadas direitinho para que as mudanças sejam gradativas e harmônicas; imagine-se uma espécie de cabra simplesmente esticando paulatinamente o pescoço para ir alcançando folhas mais altas; as pernas, o tronco, as vértebras, etc. teriam que acompanhar com suas próprias mutações. Realmente, é preciso ter uma mente muito simplista para acreditar numa explicação dessas… Dawkins escreve que muitos seres vivos são altamente improváveis (ocorrem-me os desenhos e cores dos rabos dos pavões machos), mas a seleção natural explica que cada pequeno passo em sua evolução tem uma probabilidade muito maior [DAW b, p. 147]. Mas ele não menciona que muitas mutações têm que ocorrer simultaneamente para que alguma transformação vingue, e isso novamente é altamente improvável.

Por outro lado, os criacionistas bíblicos insistem em atribuir dogmaticamente a uma divindade, que denominam de Deus mas não o caracterizam com clareza, a criação praticamente simultânea, ex-nihilo, de todos os seres vivos, sem mostrarem como a atuação de algo não-físico pode influenciar o mundo físico – e mesmo se o mostrassem, teriam que indicar como as plantas, animais e seres humanos puderam adaptar-se ao seu aparecimento e a mudanças tão drásticas no ambiente em tão pouco tempo! Isso obviamente não pode ser aceito por alguém que adota uma atitude científica.

A partir desse abismo apareceram, principalmente nos EUA, conflitos em relação à educação, com obrigações e impedimentos de ensino de uma ou outra visão.

Um enfoque espiritualista-científico poderia resolver ambas as querelas. Em termos de evolução, bastaria supor que nem todas as mutações foram casuais, e nem toda seleção é natural. Em outras palavras, existiram processos não-físicos influenciando algumas delas. Eles não precisam ser devidos a uma única entidade não-física (que é a denominada por Deus). Pode-se supor que cada ser vivo tem algo de não-físico interagindo com o seu corpo físico, como por exemplo, o modelo que lhes dá e preserva a forma orgânica e é responsável pela regeneração dos tecidos e órgãos conservando sua forma semelhante à original. (Sobre a questão da forma, veja-se o interessante artigo de Steve Tallbot “Can the new science of evo-devo explain the form of organisms?“; veja-se também meu artigo “Por que sou espiritualista, onde dou ênfase à questão das formas simétricas, mostrando que membros não-físicos de seres vivos podem estar atuando para moldar e preservar essas formas). Espécies de animais também teriam algo não-físico que influencia todos os membros da espécie, daí os animais não terem o mesmo grau de individualidade que os seres humanos, que atualmente não estão sujeitos a esse algo coletivo. No item 5 eu esbocei brevemente minha teoria de como, nos seres vivos, usando transições não-determinísticas algo não-físico pode atuar sobre o físico.

Quanto à educação, a solução é de uma tal simplicidade que é de se admirar como não se a percebe. Acontece que o criacionismo bíblico é baseado em imagens, em parábolas, como já foi exposto no item 2. Ora, imagens cheias de fantasia são justamente o que crianças pequenas (pelo menos até os 9 anos de idade) precisam e gostam – daí apreciarem tanto os contos de fadas e histórias. Crianças não procuram explicações conceituais, que não entendem. Assim, o criacionismo bíblico é o que deveria ser dado até aquela idade. Por outro lado, jovens na idade do ensino médio (15 anos ou mais) já desenvolveram sua capacidade de abstração ao ponto de procurarem explicações conceituais, e não se interessam mais por historinhas com imagens para explicar fenômenos, não se satisfazendo com elas. Seria um absurdo ensinar as imagens da Gênese no ensino médio; aí a teoria darwinista deveria ser introduzida, mas como teoria, e não como verdade, mostrando-se seus vários problemas, como por exemplo os citados acima. A seleção natural ou artificial (por exemplo, na seleção de plantas e animais com algumas características desejáveis) é obviamente uma força atuante na evolução, tendo consequências sérias, como o caso do aparecimento de bactérias resistentes a antibióticos, um grande problema em hospitais. Os estudantes deveriam aprender algo sobre essas questões.

Não se deve ignorar a importância das ideias da evolução darwinista para o desenvolvimento da humanidade, o que também deve ser ensinado no ensino médio: ela contribuiu decisivamente para eliminar o poder da crença religiosa, que vai contra a tendência do ser humano moderno de buscar compreensão e formulação de conceitos claros. No entanto, uma das suas consequências fundamentais foi espalhar e praticamente impor o materialismo. Mas já é mais do que tempo de torná-la independente dele, de maneira a ampliar nossa compreensão do mundo.

Uma das mais famosas frases de Einstein, de 1941, é a seguinte: “A ciência sem a religião é manca, a religião sem a ciência é cega” (“Science without religion is lame, religion without science is blind.”) [ISA, p. 401, JAM, pp. 14, 76, 116]. Só que, do jeito que são a ciência e as religiões hoje em dia, é impossível haver a mescla que ele desejava. No entanto, se ambas mudassem seus paradigmas, a seguinte frase teria sentido: “A ciência sem o espiritualismo científico é manca, a religião sem o espiritualismo científico é cega.” Sendo manca, a primeira não consegue chegar aonde devia, isto é, conceituar muito do que deixa obscuro; sendo cega, a segunda simplesmente não vê a realidade da natureza e do ser humano, e como hoje em dia ele anseia por explicações e rejeita dogmas. Se ambas evoluíssem para adotar o espiritualismo científico, não haveria mais o abismo existente hoje entre elas.

10. Por que adotar o materialismo?

10.1 As conquistas da ciência e da tecnologia. No item 7 abordei o sucesso da ciência, que trouxe muitas contribuições para a melhoria das condições da humanidade. Na área da saúde, são exemplos medidas de higiene, recomendações de uma alimentação mais saudável e de que as pessoas devem praticar exercícios físicos (os três grandes fatores para o aumento da longevidade), bem como os admiráveis avanços nas técnicas de diagnóstico e cirúrgicas (a eletrônica e a mecânica dentro da Medicina). O advento das telecomunicações produziu mudanças sociais profundas, que infelizmente alimentaram um comodismo muito apreciado. Por outro lado, as complexidades cada vez maiores das máquinas fizeram com que as pessoas deixassem de entendê-las e mistificaram-nas (cf. item 3.2). Por exemplo, todo o funcionamento de um automóvel era compreensível, até que a injeção eletrônica e os computadores foram neles introduzidos; agora, seu funcionamento é em muitos aspectos um grande mistério – até para os mecânicos e eletricistas, que trocam os componentes sem saberem como eles funcionam. Todos esses avanços e todo esse mistério fez com que as pessoas passassem a admirar e acreditar profundamente na ciência e na tecnologia – a ponto de a maioria da humanidade achar que qualquer nova máquina é um bem. Com isso, há cada vez menos consciência dos problemas causados pela tecnologia. É por isso que apareceram livros criticando-a. A propósito, os leitores que não estão conscientes dos problemas causados pela Internet quando usada por crianças e adolescentes deveriam ler o excelente livro de Gregory S. Smith, How to Protect your children on the Internet; dei um parecer a uma editora muito favorável à sua tradução [SMI G]; ver também a resenha que fiz desse livro.

A consequência de tudo isso é que as pessoas são levadas (ou convencidas pelos cientistas) a adotar a mesma cosmovisão da ciência atual; como vimos no item 7, essa cosmovisão é o materialismo.

10.2 Coerência e abrangência da ciência. Apesar de suas contradições (como por exemplo a dualidade partícula-onda no nível atômico e até molecular), a ciência dá uma visão razoavelmente coerente do mundo físico. Leigos não estão em geral conscientes dos problemas enfrentados pela ciência, como os descritos na seção 5.

A abrangência e aparente coerência da ciência e seus sucessos convencem as pessoas de que a visão de mundo subjacente a ela é a correta. Uma pessoa que confia plenamente na ciência e na tecnologia deveria adotar o materialismo.

10.3 A potência da percepção sensorial. Nossos sentidos, especialmente a visão, tornaram-se tão agudos, que as pessoas tendem a “acreditar apenas no que veem”. Como os sentidos só percebem o mundo físico, este é o único que aparentemente existe.

10.4 A capacidade de abstração. Desde o início do século XV, a capacidade de abstração intelectual da humanidade aumentou enormemente. Um exemplo histórico é o da adoção do sistema heliocêntrico: Copérnico (1473-1543) estabeleceu esse sistema de uma maneira absurda (conservando os epiciclos de Ptolomeu, isto é, os planetas girando em torno de nada), só para poder calcular os eclipses e conjunções com mais facilidade – uma razão puramente abstrata! Galileu (1564-1642) foi silenciado em 1633 pela Inquisição pois não tinha uma teoria heliocêntrica satisfatória – simplesmente achou que, já que os satélites de Júpiter aparentemente giravam em torno dele, nem tudo girava em torno na Terra. Só com Newton (1642-1727) aparece em 1687 a teoria da gravitação, que iria explicar o porquê das órbitas elípticas em torno do Sol descobertas por Kepler (1571-1630), que inicialmente não quis aceitar sua própria teoria. Daí para diante não houve mais dúvidas – veja-se a capacidade de abstração que significou a adoção popular de uma teoria sem comprovação experimental. Essa comprovação apareceu apenas em 1851 com o pêndulo de Foucault (1819-1868), praticamente 300 anos depois da publicação do tratado seminal de Copérnico, De Revolutionibus Orbium Coelestium Libri VI, cujas provas ele reviu em seu leito de morte.

As explicações científicas são hoje em dia todas abstratas, em geral envolvendo modelos matemáticos. A capacidade de abstração faz com que as pessoas desvinculem-se da realidade e adotem a visão científica do mundo que, como já expus no item 7, é materialista.

10.5 Medo. Muitos cientistas e materialistas têm receio de tornarem-se místicos ou de voltarem a pensar como em tempos antigos, se adotarem uma visão espiritualista. Talvez o medo mais profundo dos materialistas seja perder seu racionalismo e cair em um obscurantismo. Esses medos são plenamente justificados, devido ao misticismo envolvido nas atividades e pensamentos religiosos e em várias formas de espiritualismo-crença, bem como a irracionalidade, falta de lógica e de bom senso muito comuns neles.

10.6 Mentalidade simplista. As explicações mecanicistas da ciência para muitos fenômenos tendem a ser simplistas, e com isso serem muito atraentes. Esse claramente é o caso da teoria da evolução neo-darwinista, remontando toda a evolução somente a duas pretensas causas: mutação genética e seleção natural. Muitas vezes, sistemas altamente complexos são apresentados ao público leigo como muito simples. Exemplos disso são a noção de que o coração é uma bomba que faz com que o sangue circule no corpo, o modelo atômico planetário de Rutherford (que quase toda a humanidade adota como verdadeiro), a origem dos relâmpagos como descargas provocadas pela diferença de tensão elétrica entre as nuvens ou entre estas e o solo, e as marés serem causadas simplesmente pela atração gravitacional da Lua e do Sol sobre os mares (ver 11.6 para detalhes).

10.7 A hipótese ou crença no acaso. A existência de processos aleatórios, casuais, é um dos pilares da ciência. Quem se satisfaz com isso, deve sentir-se atraído para o materialismo.

10.8 O caráter das religiões instituídas. Como já citei, em geral as religiões instituídas não correspondem à constituição atual do ser humano; hoje em dia, este procura compreensão e não crença. Além disso, elas cerceiam a liberdade impondo a seus adeptos regras dogmáticas de pensamento e de conduta, quando hoje em dia essas regras deveriam ser estabelecidas por cada um, baseadas na compreensão da natureza e do ser humano. Exemplos dessas imposições são: o celibato dos padres católicos e o fato de só homens poderem ser padres e ter seus privilégios; roupas padronizadas, impessoais e muitas vezes inadequadas para o clima, como as dos ortodoxos judeus (aliás, por que muitos destes adotam o cáftan, sobretudo preto que era usado no leste europeu, e muito útil no frio, em lugar de usarem em nossos climas equatoriais e tropicais uma bata e turbante como provavelmente era o caso no judaísmo original de Canaã?); a aparente eliminação da individualidade de certas seitas orientalistas, etc. Recentemente, o papa conclamou os fiéis católicos a continuarem com a evangelização, que obviamente não respeita culturas ditas “pagãs”. Muitas pessoas entram em um culto religioso e não compreendem nada do que lá se passa (aliás, a impressão que se tem é que os oficiantes estão repetindo práticas que tinham na Antiguidade um sentido profundo, mas cujo conteúdo hoje também não compreendem). O autoritarismo prevalente em quase todas as religiões também se choca contra um espírito científico. A sua organização hierárquica não mais corresponde à mentalidade moderna, em que todos gostariam de ser tratados como adultos responsáveis e de participar nas decisões. A influência que as religiões têm em educação (ver item 9 acima), na ciência, na política e na religião não é considerada por muitas pessoas com cultura como saudável para a sociedade. Dawkins discorre extensivamente contra muitas ideias e práticas não-razoáveis por parte de religiões que acreditam em Deus; eu concordo com muitas de suas observações a esse respeito [DAW b].

Tudo isso faz com que muitas pessoas criem uma verdadeira ojeriza por tudo o que é religioso, caindo-se assim no extremo oposto, o materialismo. Em outras palavras, estou pondo parcialmente a culpa pelo crescente materialismo atual na maneira como as religiões são hoje em dia.

10.9 A trágica história de diversas religiões. O anseio pela liberdade individual e o reconhecimento dos direitos humanos é uma das características da humanidade moderna. A história trágica de várias religiões, agindo contra essas características, pode levar pessoas de hoje a refutarem qualquer espiritualismo, achando que ele pode levar a essas barbaridades do passado e que ainda ocorrem localmente no presente. Exemplos de barbaridades são, no caso da Igreja Católica, os massacres verdadeiramente anti-cristãos que ela produziu, como contra as seitas heréticas (maniqueístas, cátaros, bogomilos), as cruzadas (aliás, baseadas numa visão tipicamente materialista, buscando-se o sagrado, isto é, o não-físico, em algo material, uma certa região da Terra), a Inquisição (a perseguição às “bruxas”, aos judeus e cristãos novos, a destruição dos Templários, etc.); no caso do Islamismo, os horrores humanos que o seu fundamentalismo tem produzido, aparentando uma total irracionalidade e falta de compaixão; conflitos religiosos na Irlanda e na Ásia, etc.

10.10 Desrespeito pela natureza. Quem não tem a sensibilidade para admirar a natureza e para respeitá-la, deveria adotar o materialismo. Aliás, parece-me que a adoção de organismos geneticamente modificados, uma vitória da ciência materialista, é justamente fruto desse desrespeito, como citei no item 7.

10.11 A vida não tem sentido. Quem acha isso, e deseja ser uma pessoa coerente, deveria adotar a o materialismo, pois da matéria não pode advir nenhum sentido para a vida (ver 11.9 para mais detalhes).

10.12 Desconhecimento. Muitas pessoas adotam o materialismo por desconhecerem que existem outras alternativas satisfatórias. Nos próximos itens darei algumas indicações que, espero, trarão a algumas pessoas alguma luz sobre essa questão.

11. Por que adotar o espiritualismo científico?

Neste item, vou abreviar “cosmovisão materialista” por CM e “cosmovisão espiritualista científica” por CEC. Vejamos por que alguém poderia estar propenso a adotar esta última.

11.1 A CM é insatisfatória. No item 2 citei o problema da origem da matéria e da energia. No item 9 expus mais alguns problemas da ciência. Ora, a ciência é a base da CM; só por isso teríamos esta última também insatisfatória. Mas há outros problemas, não abordados pela ciência.

A noção de liberdade é uma das grandes conquistas da humanidade, de modo que, por exemplo, hoje a escravidão parece uma aberração – o que não era na Antiguidade: a República de Platão baseava-se em escravos; o Brasil foi o último país na América a abolir a escravatura, em 1888 (Darwin ficou revoltadíssimo ao vê-la nesse país em 1832); até a abolição, poucas pessoas daqui achavam que ela era desumana. Além disso, é um fato que qualquer pessoa pode observar seu próprio pensamento e constatar que é capaz de determinar livremente o próximo pensamento, pelo menos por alguns instantes. Essa auto-determinação leva à observação pessoal de que existe o livre-arbítrio no pensamento, sendo portanto uma forte indicação de que existem processos não-físicos no ser humano, já que, como citei na afirmação (b) do item 4, da matéria não pode advir liberdade. Como eu já citei no item 5, para maiores detalhes, ver meu artigo “Por que sou espiritualista“, onde dou exercícios mentais para qualquer pessoa fazer pessoalmente aquela observação. Nesse artigo abordo ainda várias outras razões para adotar-se a CEC, como por exemplo uma questão fundamental, a da formas dos seres vivos; essas formas aparentemente seguem um modelo mental, não-físico, influenciando o crescimento do organismo e a regeneração dos tecidos.

Uma outra fonte de insatisfação com a ciência corrente e o materialismo em que ela se baseia é a hipótese ou crença na existência do acaso, como citei em 10.7. Para citar um exemplo local, o desastre entre o avião comercial da empresa Gol e o avião do tipo Legacy fabricado pela Embraer, ocorrido em novembro de 2006, teve uma sequência fantástica de coincidências, desde todo o histórico de vôo errado do segundo (incluindo o engano na aerovia e o desligamento do transponder), como o fato de a ponta vertical da asa dele ter cortado a asa do avião comercial como se fosse uma navalha: com algumas dezenas de centímetros de diferença de altura, ou alguns metros de diferença na distância horizontal, o acidente não teria ocorrido – imagine-se o que isso significa dentro da relativamente enorme aerovia que estava sendo seguida por ambos os aviões

Pondo-se a culpa de algo no acaso encerra-se a pesquisa. Certamente isso deve satisfazer àqueles que têm uma mentalidade simplista, mas não aos que querem compreender as coisas com mais profundidade. No caso de ações humanas, qual é a atuação do inconsciente das pessoas, principalmente em relação ao de outras, levando-as a situações de terem encontros importantes, “pegarem” doenças ou sofrerem acidentes, o que é comumente expresso pela expressão “destino”? Onde entra a liberdade humana, se existir um tal “destino”? Obviamente, essas questões escapam totalmente a uma CM, mas podem ser investigadas dentro de uma CEC, em que se pode de início duvidar do acaso físico (algumas causas podem não ser físicas) e partir da hipótese de que o ser humano pode ser livre.

A propósito, pondo-se a culpa de algo em Deus também encerra-se a pesquisa, como muito bem aponta Dawkins [DAW b, pp. 152, 154, 159, 160 já citadas no item 2.4].

11.2 Insatisfação com a desumanidade. Como vimos no item 7, a CM é desumana.

11.3 A preservação do ser humano e da natureza. A destruição atual do ser humano e da natureza é provavelmente devida em grande parte à mentalidade imposta pela CM pois, como mostrei no item 7, da matéria não podem advir responsabilidade e moral, que só fazem sentido dentro de uma visão espiritualista. Em particular, a responsabilidade para com a natureza só pode ser consequência de uma tal visão. Aquilo que aparentemente é inofensivo do ponto de vista material pode não sê-lo de um ponto de vista mais amplo, abrangendo aspectos qualitativos e não-físicos. Por exemplo, considerando-se que a liberdade deve ser desenvolvida e preservada em cada ser humano, um meio de comunicação como a TV, que produz um efeito de condicionamento (ver [SET] e vários artigos em meu site), deveria ser evitado. Só para citar um caso que comprova isso, a rede MacDonald’s gastou nos EUA 510,5 milhões de dólares em 2002 só em propaganda pela TV [LIN, p. 132]. Uma empresa dessas não iria jogar essa fortuna no lixo; gastou-a obviamente por que ela funciona, isto é, condiciona as pessoas a comerem nas lojas da rede e redunda em polpudos lucros.

Não estou propondo proibições, como seria a de se banir a TV. O que estou propondo é a conscientização das pessoas para uma possibilidade de se adotar uma CEC; estou seguro que se uma pessoa o fizesse, iria por conta própria eliminar ou restringir drasticamente o uso de TV e outros aparelhos que não são necessários e são destrutivos, como por exemplo os jogos eletrônicos de ação.

11.4 Respeito e veneração pela natureza e pelo ser humano. A CEC pode levar a um respeito e uma veneração pela natureza e pela vida humana e a uma moral baseada na compreensão. Do ponto de vista da CEC, pode-se afirmar, por exemplo, que cada ser humano existe para desenvolver-se. Isso significa que não temos o direito de matar um ser humano; se ele for perigoso para a sociedade, pode-se confiná-lo, mas deve-se dar-lhe a oportunidade de reconhecer seus erros e regenerar-se. Do ponto de vista materialista, não deveria haver nenhum problema em se matar um ser humano – afinal, ele é só matéria!

É o desrespeito pelo ser humano e para com a natureza, inerente à CM (ver 10.10) que leva muitas pessoas a ficarem insatisfeitas com ela. Note-se que muitos cientistas materialistas não têm esse desrespeito, muito pelo contrário. Só que também aí eles não são coerentes; e a maior incoerência nesse sentido ocorre quando eles chegam a ter veneração pela natureza, pois a matéria não pode venerar coisa alguma e, em si, não pode suscitar veneração.

Sobre esse ponto, vale a pena notar que certos movimentos ecológicos claramente não partem de uma CM, e sim de sentimentos de admiração pela beleza e sabedoria da natureza, bem como de uma intuição de que ela deve ser respeitada. Esse é caso, por exemplo, do movimento de proteção às baleias. Duvido que se possa provar a utilidade delas (exceto economicamente, para baleeiros japoneses…), pois estão no fim da cadeia alimentar. A CEC pode justamente dar uma compreensão do que existe de não-físico nas plantas e animais e como isso é essencial para a humanidade.

Um aspecto muito importante neste item é o reconhecimento de que há uma sabedoria muito grande na natureza – e a maior sabedoria física é encontrada no corpo humano. Do ponto de vista da CM, essa sabedoria é fruto do acaso (ou, para Dawkins, apenas devida à seleção natural [DAW b]). Se uma pessoa acha isso muito simplista, e gostaria de investigar as causas profundas dessa sabedoria, deveria adotar a CEC. Reconhecendo-se a sabedoria no corpo humano, pode-se fazer, por exemplo, a seguinte pergunta: “Como devem ser encaradas as doenças?” Do ponto de vista da CM, as doenças, como vimos em 11.1, são fruto do acaso e, obviamente, não fazem sentido e devem ser eliminadas fazendo-se o possível para que deixem de existir. Já do ponto de vista da CEC, pode-se fazer a hipótese de que uma doença faz parte daquela sabedoria e, portanto, não é fruto do acaso, sendo uma necessidade decorrente da constituição humana. Uma das possibilidades é que a doença faz parte do caminho de desenvolvimento individual e coletivo. Nesse sentido, o papel do médico deveria mudar radicalmente: em lugar de simplesmente eliminar uma doença que um paciente tem, ele deveria ajudá-lo a suplantá-la adequadamente, desenvolvendo-se por meio dela; obviamente, isso não deve colocar a vida do paciente em risco.

Falando de doenças, aqui no Brasil temos um caso típico de resultado de mentalidade materialista: a adição de iodo ao sal, para prevenir o bócio. É impossível encontrar-se sal sem iodo, pois isso é proibido por lei. Em primeiro lugar, isso significa uma medicação forçada, o que vai contra a liberdade individual. Em segundo lugar, parece que já há indícios de que esse iodo está provocando problemas, como por exemplo de hipertiroidismo, como publicado na revista Pesquisa FAPESP em 2/2005 [http://www.revistapesquisa.fapesp.br/?art=2671&bd=1&pg=1&lg=]. Em terceiro lugar, obviamente se há falta de ingestão de iodo em algumas populações, estas deveriam ser orientadas a ingeri-lo, sem forçarem-se todos no país a fazê-lo. Nos EUA há um caso semelhante: a fluoretação da água. Lá, onde é uma tradição tomar-se água da torneira, 67% da população com fornecimento público de água recebem-na fluoretada [FAG, p. 60]. Já há estudos recentes mostrando que essa fluoretação pode estar significando excesso de ingestão de flúor, principalmente quando a alimentação é balanceada, acrescida de uso de pastas de dentes com essa substância: em 2006 o National Research Council produziu um relatório que chegou à conclusão de que “o limite atual de flúor na água – 4 mg/l – deveria ser diminuído devido a perigos para a saúde de adultos e crianças. […] Em adultos, esse nível de flúor parece aumentar o risco de fratura dos ossos e, possivelmente, de fluorose moderada do esqueleto, um endurecimento doloroso das juntas.” [p. 59.] Obviamente, o flúor não influencia apenas os dentes, mas todos os ossos: aquele relatório concluiu que “Se bem que o flúor pode aumentar o volume dos ossos, a sua resistência aparentemente diminui. […] 9 dos 12 membros do grupo [que produziu o relatório] concluíram que uma exposição à água fluoretada a 4 mg/l ou mais durante toda a vida realmente aumenta o risco de fraturas. […] A questão ainda maior pairando sobre [looming over] o debate sobre o flúor é se esses efeitos celulares nos ossos e dentes são indicações de que o flúor está afetando outros órgãos e levando a outras doenças além da fluorose. O maior debate atual é sobre osteosarcoma – a forma de câncer dos ossos mais comum e o câncer mais frequente em crianças” [p.63.] Tenho certeza que outros fatores não estão sendo investigados, como por exemplo um possível endurecimento dos sentimentos Em 1983, 145 municípios do Estado de São Paulo já faziam fluoretação da água [www.scielosp.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-89101983000300005&lng=pt].

11.5 Pesquisa. A CEC alarga os campos de pesquisa. Obviamente, o materialismo restringe toda a pesquisa somente a fenômenos físicos, como por exemplo procurar-se a origem dos pensamentos apenas nos neurônios. A CEC pode fornecer uma compreensão muito mais abrangente sobre a constituição humana, o que amplia enormemente o campo de pesquisa. Sobre esse assunto, veja-se meu artigo sobre a constituição humana do ponto de vista de uma CEC, apresentada no item 12.

Vou dar aqui um exemplo simples de ampliação da pesquisa. Muitos caipiras dizem que se deve cortar sapé no quarto minguante (ou na Lua nova?), pois assim ele dura mais, pega menos bichos, etc. Ora, isso não faz nenhum sentido do ponto de vista da CM, de modo que esse fato simplesmente não é investigado. Já do ponto de vista da CEC, pode haver uma influência não-física dos planetas, do Sol e da Lua nas plantas. Essa influência, quando atuava sobre os seres humanos, é a origem da antiga astrologia – hoje em geral um simples passa-tempo, sem o sentido que tinha em sua origem, quando as pessoas ainda tinham alguma percepção do mundo não-físico. A propósito, essa influênca sobre os seres humanos tinha que diminuir, pois senão eles não poderiam ter desenvolvido a liberdade. Assim, partindo-se de uma CEC, uma investigação sobre a validade da tradição popular do sapé, e muitas outras, poderiam muito bem ser feitas.

11.6 Falta de dogmas e crenças. A CEC não leva a dogmas ou crenças e preserva a individualidade humana. Em particular, ela elimina o dogmatismo atual da ciência quanto ao materialismo e das religiões quanto às crenças.

11.7 O qualitativo. A CEC pode resgatar o caráter qualitativo da natureza, que não faz sentido na ciência materialista como é feita hoje.

11.8 Edifício conceitual. A CEC pode levar a um edifício conceitual muito mais abrangente e com aplicações práticas, como exemplificarei no item 12. Com isso, pode-se ter uma coerência entre os conceitos da cosmovisão e a prática do dia-a-dia, eliminando a dicotomia mencionada no item 9.

11.9 Sentido para a vida. As pessoas que buscam um sentido para o universo, para a Terra, para os seres vivos, para a história e para sua própria vida não podem satisfazer-se com a CM pois, como expus na consequência f do item 4, da matéria não se pode chegar a um tal sentido. Ao contrário, a CEC pode perfeitamente mostrar um sentido para tudo isso. No item 12 vou mencionar brevemente qual poderia ser um sentido geral para a vida humana.

11.10 A complexidade do universo e da natureza. Quem reconhece que o mundo é extremamente complexo, partindo do cosmos, passando por um simples cristal, que tem uma história de milhões de anos, até todas as manifestações de vida, culminando com a complexidade física máxima que é o corpo humano, e não se satisfaz com as explicações simplistas da natureza dadas pelo reducionismo da ciência materialista, deveria pender para um espiritualismo científico. No item 10.6 citei vários modelos e explicações simplistas, nas quais acredita grande parte da humanidade. A primeira referia-se à evolução, que deve ter sido de uma complexidade inimaginável; a sua redução apenas a mutações casuais e à seleção natural simplifica indevidamente essa complexidade. As outras citadas contém erros. De fato, o coração não é uma bomba que empurra o sangue pelo corpo. Se assim fosse, deveria ter uma potência fantástica para ser capaz de bombear um líquido muito viscoso como é o sangue, através de milhares de quilômetros de vasos, a maioria deles capilares. Se me lembro bem, um biólogo disse uma vez que, se assim fosse, o coração teria que ter mais ou menos a potência de uma bomba que empurrasse água de New York a San Francisco, e ainda irrigasse os campos pelo caminho… Uma das teorias (parciais) é que o coração produz um pulso de pressão, detectado pelas artérias, que se contraem, isto é o, corpo inteiro pulsa como uma orquestra que tem o coração como maestro. O modelo atômico planetário de Rutherford está completamente errado (e isso foi notado logo depois de sua formulação): os elétrons não circulam em torno do núcleo, pois senão emitiriam energia eletromagnética, como numa antena irradiante de rádio, e cairiam nele, como mostra a última figura da página do citado vínculo, e nem ao menos o elétron é uma bolinha. Quanto aos relâmpagos, não se sabe como eles começam: a diferença de potencial entre nuvens e entre estas e o solo não é suficiente para iniciar a descarga – depois que essa começa, aí sim, a ionização do ar torna-o suficientemente condutor para que a descarga se complete. Existem teorias que tentam explicar o fenômeno, como a da ionização inicial do ar por meio de raios cósmicos de muito alta energia; ver também http://en.wikipedia.org/wiki/Lightning. Finalmente, as marés são apenas parcialmente devidas às ações gravitacionais do Sol e da Lua, sendo formadas por um complexo efeito de ressonância produzido também pela influência de vários outros fatores, incluindo correntes marítimas, a forma da base do oceano, etc. Aliás, nos oceanos há os chamados pontos Amfidrômicos, que praticamente não têm marés, e que funcionam como centros em torno dos quais ondas de maré radiais giram duas vezes ao dia (correspondendo às duas marés diárias). Esses são apenas alguns grandes exemplos da extrema complexidade da natureza. De fato, recomendo que se desconfie de qualquer teoria reducionista simplista para quaisquer fenômenos da natureza. Parece-me que explicações pseudo-científicas sobre esses fenômenos procuram dar a impressão de que modelos mecanicistas explicam tudo no mundo, quando é justamente o contrário: eles explicam muito pouco. O objetivo desse simplismo deve ser o de induzir o materialismo. No entanto, reconheço perfeitamente que simplificações são necessárias para se preverem resultados de experimentos, e para estabelecer teorias. Porém, é necessário estar-se consciente de que simplificações não podem abarcar totalmente a realidade. Em particular, qualquer máquina é o resultado de várias simplificações. Nesse sentido, pode-se considerar que instrumentos e máquinas são subnaturais.

Por que existe uma hostilidade em relação à CEC? Em minha opinião, isso se deve principalmente aos pontos 10.5 e 10.12, medo e desconhecimento, mencionados acima. No próximo item dou um exemplo que permitirá ao leitor eliminar o seu eventual desconhecimento, se tiver coragem de se aprofundar no estudo do caso a ser citado. Tenho a certeza que, com esse estudo, o medo também desaparecerá.

12. Uma espiritualidade moderna

Em minha opinião, uma cosmovisão adequada à constituição humana de hoje deve ser um espiritualismo científico. Assim, deve basear-se na compreensão, na pesquisa, e na adoção de hipóteses de trabalho, e não na crença. Por outro lado, deve preservar irrestritamente a liberdade individual, a individualidade, a consciência e a auto-consciência, encarar os adultos como responsáveis, ter respeito e compaixão pela natureza e pelo ser humano, tudo isso baseado na compreensão do que são este último e o universo e não em dogmas moralistas. Deve também apresentar um edifício teórico coerente e abrangente (por exemplo, levando à compreensão de antigas tradições religiosas e míticas, bem como de fatos históricos). Esse edifício teórico, a sua cosmovisão, deve levar a realizações práticas que são a aplicação dos conceitos a toda a vida humana, de modo que o dia-a-dia de cada pessoa possa ser o mais possível coerente com sua cosmovisão.

Conheço um único espiritualismo científico que preenche esses requisitos e todos os citados no item 11: é aAntroposofia, introduzida por Rudolf Steiner durante o primeiro quarto do século XX. Justamente por encaixar-se na atitude científica que descrevi no item 3, ela foi denominada por Steiner e é muitas vezes chamada de “Ciência Espiritual”, mas eu prefiro minha denominação de “espiritualismo científico”, para não confundir com o que se entende por ciência hoje em dia, e que não tem sentido ser “espiritual”, pois é inerentemente materialista. É interessante notar que Steiner teve uma formação tecnológica, na Escola Politécnica de Viena, e fez um doutorado em filosofia. Sua obra fundamental, evolução de sua tese de doutorado, A Filosofia da Liberdade (segundo ele próprio, aquilo que iria permanecer da Antroposofia no futuro distante), uma profunda análise da cognição, mostra como ele é capaz de ter um raciocínio claro, adequado ao nosso tempo, e como é capaz de expressar conceitos visando o intelecto dos leitores [STE]. Seus 28 livros, e as centenas de volumes publicados com mais de 6.000 de suas palestras, são de uma abrangência e profundidade inigualáveis. Aprofundando-se no estudo de suas obras, tem-se realmente a impressão de que ele foi o último sábio.

As aplicações práticas da Antroposofia incluem a ainda revolucionária e bem sucedida Pedagogia Waldorf(empregada em mais de 1000 escolas no mundo inteiro, inclusive no Brasil), a Medicina e Terapias Antroposóficas, aAgricultura Biodinâmica (em 1970 o então presidente da associação americana de agricultores orgânicos disse-me que considerava-a como o “máximo” em matéria de agricultura orgânica), uma organização social (denominadaTrimembração do Organismo Social), artes novas (incluindo a Euritmia), etc.

Seria muito interessante o leitor dirigir-se a alguma faculdade de educação em sua cidade e fazer a pergunta: “Vocês abordam a Pedagogia Waldorf como parte do currículo em algum de seus cursos?” Afinal, ela existe desde 1919, há dezenas de livros publicados sobre ela, inclusive um excelente, no vernáculo [LAN], há revistas internacionais especializadas nela, ela está presente em todos os continentes, em particular em quase todos ospaíses da América do Sul, e seus resultados são excelentes (ver um artigo com estatísticas feitas com formados da Escola Waldorf Rudolf Steiner de São Paulo e que desmistifica certos mitos negativos sobre essa pedagogia). É interessante notar que a educação continuada foi adotada no Brasil por uma recomendação da UNESCO, que se baseou no sucesso mundial da Pedagogia Waldorf: as escolas Waldorf não usam e nunca usaram notas e não há repetições de séries, desde o início do ensino fundamental até o fim do ensino médio. A resposta que será encontrada invariavelmente à pergunta proposta no início deste parágrafo é simplesmente “não”: essa pedagogia não é abordada nas faculdades de educação e, se o for, é por iniciativa pessoal de algum professor que já teve contato com ela. Ora, faculdades de educação deveriam abordar todos os métodos de ensino, ainda mais um que é um dos mais estabelecidos e difundidos e que é baseado em uma extensa conceituação (por exemplo, do desenvolvimento global, isto é, físico, emocional e intelectual da criança e do jovem) e prática. Em minha opinião, as faculdades de educação ignoram a Pedagogia Waldorf por uma razão muito simples: ela é baseada em uma cosmovisão espiritualista, a Antroposofia. Além disso, visite-se uma escola Waldorf para sentir a atmosfera de intenso amor pelas crianças e jovens; ter amor pelos alunos é justamente o que não se ensina nas faculdades de educação. O preconceito do materialismo-crença, prevalente em todos os meios acadêmicos, contra qualquer espiritualismo, impede que os estudantes tomem conhecimento dessa realidade educacional.

O edifício conceitual introduzido por Steiner é de uma abrangência excepcional, é coerente, e leva à compreensão de vários fenômenos, como por exemplo o sono, o sonho, a vida e a morte (conjeturo que, se não sair do paradigma materialista, a ciência jamais irá compreender profundamente esses quatro fenômenos). Por exemplo, ele explica por que os sonhos se apresentam em imagens e a causa de elas não seguirem, em geral, a lógica do mundo físico. Em sua conceituação, passa-se a compreender o que denominei no item 5 de “individualidade superior”. Baseado nela, ele apresenta um conceito totalmente novo de reencarnação, o que não faz obviamente nenhum sentido do ponto de vista materialista, mas que pode ser tomado como uma consequência lógica de haver um sentido para a vida humana: o desenvolvimento da “individualidade superior”, feito em vidas sebsequentes – sem essa possibilidade, não se teria chance de compensar os erros feitos durante uma vida. A propósito, sem uma noção sobre reencarnação é impossível compreender o budismo (um materialista diria que não há nada a compreender nele…). Steiner conceitua de maneira original a questão do bem e do mal, e muitas outras questões humanas e sociais. Como o próprio nome o diz, a Antroposofia parte do conhecimento do ser humano, sendo portanto humanista por natureza.

Uma das características mais fascinantes da Antroposofia é a visão que ela dá sobre o desenvolvimento pré-histórico e histórico do ser humano, passando-se a compreender figuras absolutamente incompreensíveis do ponto de vista materialista, como Zaratrustra, Buda, Moisés, Elias, Platão, Cristo, etc. Os mitos dos vários povos e as imagens bíblicas deixam de ser “historinhas”, como o materialismo deve considerá-las. Para quem procura compreensão, ela dá uma imensa satisfação em se ver que é possível entender, por exemplo, muitas imagens da Gênese e do Velho Testamento, a grande contribuição do antigo povo hebreu para a humanidade, os desenvolvimentos que levaram ao aparecimento do Cristo, bem como resolver muitas das aparentes contradições dos Evangelhos. Por exemplo, por que os Evangelhos de Marcos e João começam apenas no batismo do Jordão, ao contrário dos outros dois, que começam com o nascimento de Jesus? Por que os Evangelhos de Mateus e Lucas são totalmente diferentes até esse batismo? Por que o de João é tão diferente dos outros três, os sinópticos? O que significa aquilo que deveria ser o aspecto central do Cristianismo, denominado de “ressurreição” do Cristo? Como compreender as mensagens do Apocalipse? Por que o cristianismo tornou-se durante muito tempo algo tão importante para a humanidade ocidental?

Segundo Steiner, a missão do ser humano na Terra é o desenvolvimento do amor altruísta. Como eu já mencionei no item 4, esse amor não faz sentido para um materialismo coerente. Um ato de amor altruísta só pode ser feito em liberdade, e esta requer consciência. Para isso, é necessário adquirir conhecimento, mas ele não pode ser encarado como a meta do desenvolvimento humano: de fato, é com conhecimento que se fazem, por exemplo, bombas para destruir seres humanos. Segundo Steiner, para cada passo dado na aquisição de conhecimento, principalmente do mundo não-físico, devem ser dados três passos no desenvolvimento moral (“aperfeiçoamento [do] caráter rumo ao bem”) [STE b, p. 48]. Só que, para ele, a moral é uma consequência do conhecimento da constituição humana e da evolução da humanidade, e não uma questão de moralismo ou de dogmatismo. Nessa obra citada, Steiner dá exercícios meditativos no sentido de se desenvolverem órgãos de percepção supra-sensorial. A propósito, ele afirmou uma vez que não se consegue fazer alguma ação física em completa liberdade. Tomando-se o exemplo que dei no item 5, da pessoa que está numa esquina e pode escolher em liberdade um entre dois caminhos, é um fato que, provavelmente, ela não chegou àquele lugar por ações totalmente conscientes e em liberdade; portanto, há uma restrição à liberdade devido ao histórico das circunstâncias que fazem uma pessoa encontrar-se numa certa situação em um dado instante. No entanto, ao praticar uma meditação antroposófica, que usa um pensamento ativo (ver meu ensaio a respeito), uma pessoa está exercendo uma liberdade total: não há nada que a impele a essa prática, e nem a escolha do conteúdo mental da meditação, se este é escolhido adequadamente.

A Antroposofia mostrou que se pode lidar com o espiritual com um enfoque espiritualista científico, sem misticismo e sem proselitismo. É uma lástima que o medo dos cientistas e dos materialistas, de deixarem de exercer uma atitude científica, e a má experiência com religiões e misticismos, força-os a terem um preconceito contra ela, como exemplifiquei no caso concreto da Pedagogia Waldorf não ser abordada nas faculdades de educação.

É devido ao conhecimento que tenho da Antroposofia que pude formular os conceitos espiritualistas científicos expressos neste e em outros artigos. Espero que eles incentivem os materialistas científicos a terem coragem e suficiente falta de preconceito para estudarem a Antroposofia, por exemplo começando com o livro do Dr. Rudolf Lanz, Noções Básicas de Antroposofia (que está na íntegra na Internet) e meu artigo “Uma introdução antroposófica à constituição humana“, mas não deixando depois de estudarem as obras básicas de Steiner (estou à disposição para indicar algumas obras segundo o interesse especial e conhecimento de cada interessado), a fim de constatarem que existem outras cosmovisões possíveis, muito mais abrangentes e humanas do que o materialismo ou o espiritualismo-crença, especialmente o das religiões, e que não exigem a abdicação de uma atitude científica como a exposta no item 3. Pelo contrário, a Antroposofia a incentiva.

13. Referências

[CON] Conselice, C.J. “The Universe’s Invisible Hand”. Scientific American 296, 2, Feb. 2007, pp. 24-31.
[DAW a] Dawkins, R. O Gene Egoísta. Trad. A. P. Oliveira. Lisboa: Gradiva, 1989.
[DAW b] Dawkins, R. The God Delusion. London: Transworld, 2007.
[DÜR] Dürrenmat, F. Die Physiker. Zurich: Diogenes, 1998.
[FAG] Fagin, D. “Second thoughts about Fluoride”. Scientific American 298, No. 1, Jan 2008, pp. 58-65.
[GOE] Goethe, J.W. Farbenlehre (teoria das cores). Eds. G. Ott e H.O. Proskauer. 3 vols. Stuttgart: Verlag Freiesgeitesleben, 1980.
[GOL] Goleman, D. Inteligência Emocional: A Teoria Revolucionária que Redefine o que é Ser Inteligente. Trad. M. Santarrita. Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 1995.
[GRE] Green, B. The Fabric of the Cosmos. New York: Vintage, 2005.
[HOL T] Holtsmark, T. Newton’s Experimentum Crucis Reconsidered, American Journal of Physics, Vol. 38, No. 10, Oct. 1970, pp. 1229-1235.
[HOL C] Holdredge, C. Genetics and the Manipulation of Life: The Forgotten Factor of Context. Hudson: Lindisfarne 1996.
[ISA] Isaacson, W. Einstein: Sua Vida, Seu Universo. Rio de Janeiro: Cia. das Letras 2007.
[JAM] Jammer, M. Einstein e a Religião. Rio de Janeiro: Contraponto Ed., 2000.
[JOH] Johnson, P. História dos Judeus. Rio de Janeiro: Imago, 1995.
[LAN] Lanz, R. A Pedagogia Waldorf: Caminho para um Ensino mais Humano. São Paulo: Ed. Antroposófica, 6a. ed. 1988.
[LIN] Linn, S. Crianças do Consumo: a Infância Roubada. Trad. C. Tognelli. São Paulo: Insituto Alana, 2006.
[PLA] Platão. Meno, in Plato, The Great Books of the Western World Vol. 7. Trad. J. Harward. Chicago: Encyclopaedia Britannica, 1952, pp. 174-199. Esse diálogo está disponível emhttp://classics.mit.edu/Plato/meno.html (para a citação, fazer uma busca no texto p.ex. com “fight” ou “deed”).
[SEP] Sepper, D.L. Goethe contra Newton: Polemics and the project for a new science of color. Cambridge: Cambridge Univ. Press, 2002.
[SET] Setzer, V.W. Meios Eletrônicos e Educação: uma visão alternativa. São Paulo, Ed. Escrituras, 3ª ed. 2005.
[SMI J] Smith, J. Genetic Roulette: the Documented Health Risks of Genetically Engineered Foods. Fairfield: Yes! Books, 2007.
[SMI G] Smith, G.S. How to Protect your Children on the Internet: A Road Map for Parents and Teachers. Westport: Praeger, 2007.
[STE a] Steiner, R. A Filosofia da Liberdade – Fundamentos para uma filosofia moderna. Trad. de M. Veiga. São Paulo: Ed. Antroposófica, 2000.
[STE b] Steiner, R. Como se Adquirem Conhecimentos dos Mundos Superiores? Trad. Erica Reimann, São Paulo: Ed. Antroposófica, 4ª ed. 1996.
[TAT] Tattersall, I. “How we came to be human.” Scientific American 295, 6, Dec. 2001, pp. 42-49.
[ZAJ] Zajonc, A. Catching the Light: The Entwined History of Light and Mind. New York: Oxford University Press, 1993.

Agradecimentos

Agradeço a Sonia Setzer pela e discussão de vários tópicos e revisão deste artigo, e a Anderson Paulino pela menção da frase de Sócrates em 3.2.

 

O QUE A INTERNET ESTÁ FAZENDO COM NOSSAS MENTES?
COM UMA RESENHA DO LIVRO DE NICHOLAS CARR A GERAÇÃO SUPERFICIAL

Valdemar W. Setzer
www.ime.usp.br/~vwsetzer
Original de 4/3/12 – versão 2.1 de 16/3/12

Índice (acione um item para desviar para ele)

1. Introdução
2. Resumo do livro
2.1 Confissão do autor: como o livro foi escrito
2.2 O efeito distrativo
2.3 A plasticidade do cérebro
2.4 História de algumas tecnologias intelectuais
2.5 Sobre a Internet
2.6 O problema das multitarefas
2.7 A perda da concentração
2.8 Críticas à empresa Google
2.9 A nossa memória e a Internet
2.10 Problemas das novas tecnologias
3. Comentários
4. Complementações
5. Recomendações
5.1 Atividades imediatas
5.2 Atividades de curto prazo
5.3 Atividades de longo prazo
6. Referências

1. Introdução

Em 2010 saiu o excelente e fascinante livro de Nicholas Carr The Shallows – what the Internet is doing to our brains [2010], que causou um grande impacto no mundo todo, com notícias, entrevistas e resenhas em jornais e revistas, por exemplo, no Brasil [Leite 2010, Castro 2012, Roxo, 2012]. Em 2011 comecei a dar palestras sobre o livro (ver a apresentação em [Setzer 2011a]), tendo a primeira sido gravada pela IPTV da Universidade de São Paulo [Setzer 2011b]. Em dezembro de 2011 foi lançada a tradução do livro que, por sinal, é razoável, com o título A Geração Superficial: o que a internet está fazendo com nossas mentes [Carr 2011].

O impacto do livro deveu-se à qualidade e profundidade do mesmo e às constatações que Carr faz das influências negativas que a Internet exerce sobre seus usuários. No meio do entusiasmo generalizado pela Internet, o livro foi uma verdadeira ducha de água fria, chamando a atenção para vários perigos da mesma e várias de suas influências negativas no indivíduo e na cultura.

O leitor pode ter achado curioso o fato de haver uma única diferença no título deste artigo em relação ao subtítulo do original: a palavra ‘mentes’ em lugar de ‘cérebros’. A razão disso é que considero a mente como sendo muito mais do que o cérebro, englobando este último, como será exposto no item 3. Comentários.

Este artigo segue exatamente a mesma estrutura geral da palestra que tenho dado [Setzer 2011a, 2011b], com uma diferença fundamental: nas palestras é feito um resumo muito mais completo, cobrindo em sequência cada capítulo do livro; no entanto, aqui as citações de trechos do livro são muitíssimo maiores. O detalhamento nas palestras visou chamar a atenção para aspectos históricos e culturais muito importantes presentes no livro, a fim de interessar os ouvintes a o lerem. Neste artigo, no item Resumo do Livro será feito um resumo objetivo (isto é, sem comentários sobre o conteúdo), por meio de citações, dos pontos mais importantes do livro, especialmente os que tratam do impacto negativo da Internet. Obviamente, a escolha desses pontos é subjetiva. Como nas palestras, o item Comentários contém observações sobre o livro, usando aqui trechos literais das citações do resumo. O item Complementações contém vários pontos considerados importantes do ponto de vista do impacto da Internet em seus usuários e que não constam do livro. Nele, é dada ênfase especial ao impacto em crianças e jovens, minha grande preocupação com relação ao uso de meios eletrônicos (TV, video games e computadores), como pode ser visto em meu último livro sobre o assunto [Setzer 2005] e nos inúmeros artigos em meu site, especialmente o “Efeitos negativos dos meios eletrônicos em crianças, adolescentes e adultos” [Setzer 2008a], e que traz citações literais de mais de uma centena de livros e trabalhos científicos. Finalmente, o item Recomendações traz algo que também não consta explicitamente do livro: recomendações práticas aos usuários da Internet para contrabalançar, na medida do possível, os efeitos negativos apontados por Carr e por mim, em ações imediatas (isto é, durante o uso da rede) e também a curto e a longo prazo.

Neste artigo a palavra Internet será grafada com inicial maiúscula por se tratar do nome de uma rede única, a menos de citações do livro de Carr, aqui transcritas literalmente, cuja tradução usa a inicial minúscula. Curiosamente, a edição original usa a inicial maiúscula. Nas citações, todos os itálicos são ênfases do próprio autor.

Será usada aqui a palavra ‘tecnologia’ como entendida em inglês e usada na tradução, isto é, refere-se a máquinas e instrumentos, bem como às técnicas em projetá-las e usá-las.

Este artigo é um trabalho acadêmico. Assim, conforme previsto na lei de direitos autorais, não foi necessário solicitar autorização da editora para transcrever trechos da referida tradução. Essas transcrições visam preservar ao máximo a palavra e o espírito do autor e, como em minhas palestras, incentivar o leitor a ler o livro.

Críticas e sugestões são, como sempre, muito bem vindas. O meu endereço de e-mail está no topo de minha home page, em forma de figura.

2. Resumo do livro

Este resumo não segue em geral a ordem dos capítulos do livro de Nicholas Carr. Todas as referências e citações seguintes são da edição em português [Carr 2011].

Os capítulos do livro são entremeados por 4 pequenas seções que o autor denomina “digressões” [pp. 59, 113, 199 e 269]. Na última delas, descrita na segunda parte do próximo item, o autor conta como foi o processo de escrever o livro.

2.1 Confissão do autor: como o livro foi escrito

No primeiro capítulo, “Hal e eu” Carr compara-se ao computador HAL 9000, que controla a nave do filme de Stanley Kubrick 2001, Uma Odisseia no Espaço, e faz uma autoanálise da influência da Internet em sua mente: “[Dave] Bowman, [o astronauta] que quase havia sido lançado à morte no espaço profundo pela máquina defeituosa, está calma e friamente desconectando os circuitos de memória que controlam o seu [do computador HAL] cérebro artificial. ‘Dave, a minha mente está indo embora’ diz HAL desesperançado. ‘Eu posso sentir. Eu posso sentir.’ Eu também posso sentir. Nos últimos poucos anos tenho tido um sentimento desconfortável de que alguém, ou algo, tem estado mexendo com meu cérebro, remapeando os circuitos neurais, reprogramando minha memória. A minha mente não estava indo embora, mas mudando. Não estou pensando do mesmo modo que costumava pensar. Eu costumava mergulhar em um livro ou artigo extenso. Minha mente era capturada pelas reviravoltas da narrativa ou as mudanças do argumento, e eu passava horas percorrendo longos trechos de prosa. Agora, raramente isso acontece. Minha concentração começa a se extraviar depois de uma ou duas páginas. Fico inquieto, perco o fio, começo a procurar alguma coisa a mais para fazer. … A leitura profunda que costumava acontecer naturalmente tornou-se uma batalha. Eu acho que sei o que está acontecendo. Há mais de uma década, tenho passado muito tempo on-line, buscando e surfando …” [pp. 17-8.]

“[…] o que a net parece estar fazendo é desbastar a minha capacidade de concentração e contemplação. Quer eu esteja on-line quer não, a minha mente agora espera receber informação do modo com a net a distribui: um fluxo de partículas em movimento veloz. Antigamente eu era um mergulhador em um mar de palavras. Agora deslizo sobre a superfície como um sujeito com um jet ski. Talvez eu seja uma aberração, um deslocado. Mas parece que não. Quando menciono os meus problemas com leitura para amigos, muito[s] dizem que estão passando por aflições semelhantes. Quanto mais usam a web, mais têm que se esforçar para permenecerem focados em longos trechos de escrita.” [p. 19.] “Para algumas pessoas, a ideia mesma de ler um livro tornou-se antiquada, até um pouco tola – como costurar as próprias roupas ou escrever com lapiseira. Sentia saudades de meu antigo cérebro.” [p. 21.]

“Comecei a perceber que a net estava exercendo uma influência muito mais forte e mais ampla sobre mim do que o meu velho PC solitário jamais tinha sido capaz. … O próprio modo como meu cérebro funcionava parecia estar mudando. Foi então que comecei a me preocupar com a minha incapacidade de prestar atenção a uma coisa por mais do que uns poucos minutos. […] meu cérebro, percebi, não estava apenas se distraindo. Estava faminto. Estava exigindo ser alimentado do modo como a net o alimenta – e, quanto mais era alimentado, mais faminto se tornava. Mesmo quando eu estava longe do meu computador, ansiava por checar meus e-mails, clicar em links, fazer uma busca no Google. Queria estar conectado. Assim como o Word da Microsoft havia me transformado em um processador de texto em carne e osso, a internet, eu sentia, havia me transformado em algo como uma máquina de processamento de dados de alta velocidade, um HAL humano.” [p. 31.]

Na Digressão “Sobre a escrita deste livro”, entre os capítulos 9 e 10 [pp. 269-72], Carr conta o que fez para se livrar dos sintomas descritos acima. “Quando comecei a escrever esse [sic] livro, no final de 2007, lutei em vão para manter a minha mente fixa na tarefa. A net proporcionava, como sempre, uma opulência de informação útil e de ferramentas de pesquisa, mas suas constantes interrupções dispersavam meus pensamentos e palavras. Eu tendia a escrever em arrancos desconexos, do mesmo modo como faço no meu blog. Estava claro que eram necessárias grandes mudanças. No verão do ano seguinte, mudei-me [no original: “com minha esposa”] de um subúrbio altamente conectado de Boston para as montanhas do Colorado. Não havia serviço de celular na nossa casa e a internet chegava através [sic] de uma conexão DSL relativamente vagarosa. Cancelei minha conta no Twitter, dei um tempo na minha filiação ao Facebook [colocou-a em “hiatus”], e coloquei meu blog em compasso de espera. Fechei meu leitor RSS e restringi o Skype e as mensagens instantâneas. E, o mais importante, desacelerei o meu aplicativo de e-mail. Fazia muito tempo que eu checava novas mensagens a cada minuto. Ajustei para checar apenas uma vez por hora, e quando isso ainda criava muita distração, comecei a manter o programa fechado o dia todo.

O desmantelamento da minha vida on-line não foi de modo algum indolor. Por meses, as minhas sinapses clamavam pela sua dose de net. Eu me surpreendia sorrateiramente clicando no botão ‘cheque novo e-mail’. Ocasionalmente eu caía numa farra na web por um dia inteiro. Mas com o tempo a fissura cedeu, e me descobri capaz de digitar no meu teclado por horas a fio ou ler do princípio ao fim um denso artigo acadêmico sem que minha mente divagasse. Alguns velhos circuitos neurais, em desuso, estavam voltando à vida, parecia, e alguns mais novos, ligados na web, estavam se aquietando. Comecei a me sentir geralmente mais calmo e com mais controle de meus pensamentos – menos como um rato apertando uma alavanca e mais como, bem, um ser humano. O meu cérebro podia respirar novamente.

O meu caso, percebo, não é típico. Sendo um trabalhador autônomo e de natureza relativamente solitária [o autor é escritor], tenho a opção de me desconectar. A maioria das pessoas hoje, não. A web é tão essencial para o seu trabalho e para a sua vida social que, mesmo se quisessem escapar da rede, não poderiam.” [pp. 269-70.]

“Quando começamos a usar uma nova tecnologia intelectual, não trocamos imediatamente de um modo mental para o outro. O cérebro não é binário. Uma tecnologia intelectual exerce sua influência deslocando a ênfase do nosso pensamento. Embora mesmo os usuários iniciais da tecnologia frequentemente sintam as mudanças nos seus padrões de atenção, cognição e memória, à medida que seu cérebro se adapta à nova mídia, as mudanças mais profundas ocorrem mais lentamente, ao longo de várias gerações, conforme a tecnologia passa a impregnar cada vez mais o trabalho, o lazer e a educação – todas as normas e práticas que definem uma sociedade e sua cultura. Como o modo como lemos está mudando? Como o modo como escrevemos está mudando? Como o modo como pensamos está mudando? Essas são as perguntas que deveríamos estar fazendo, tanto a respeito de nós mesmos como de nossos filhos.

Quanto a mim, já tive uma recaída. Com o final desse [sic] livro em vista, voltei a deixar o meu e-mail correndo o tempo todo e abri de novo meu feed RSS. Estive experimentando uns novos serviços das redes sociais e postando algumas novas entradas no meu blog. Recentemente, sucumbi e comprei um Blu-ray com conexão wi-fi embutida. Ele me permite receber música da Pandora, filmes do NetFlix e vídeos do YouTube na minha televisão e no meu estéreo. Tenho que confessar: é legal. Não tenho certeza se poderia viver sem isso.” [p. 271.]

Esses longos trechos foram transcritos pois tocam em alguns pontos essenciais detalhados e documentados no livro, bem como caracterizam vivamente o problema do vício. Segundo essas citações, na experiência do próprio autor, a Internet tem os seguintes efeitos:

  • Provoca distração;
  • Altera a estrutura cerebral;
  • Influencia a maneira de pensar e de agir;
  • Produz influências que podem ser irreversíveis;
  • Uma dessas influências é a perda da calma interior e do autocontrole;
  • O processo de reversão das suas más influências é penoso e lento, podendo haver recaídas no meio do caminho;
  • Seu uso intenso, no lazer, no trabalho ou na vida social, torna mais difícil o processo de reversão.

Esses efeitos, bem como outros mais, serão cobertos nos itens seguintes.

2.2 O efeito distrativo

Carr dedica o capítulo 7 do livro, “O cérebro do malabarista” a discorrer sobre o efeito de produzir distração. Segundo ele,

“Não importa o quão revolucionária seja, a net é melhor compreendida como a última de uma longa série de ferramentas que auxiliaram a moldar a mente humana. Agora surge a questão crucial: o que a ciência nos diz sobre os reais efeitos que o uso da internet está tendo no modo como nossas mentes funcionam? Sem dúvida, essa questão será objeto de uma grande quantidade de estudos nos próximos anos. No entanto, já sabemos ou podemos supor muitas coisas. As notícias são ainda mais perturbadoras do que eu havia suspeitado. Dúzias de estudos de psicólogos, neurobiólogos , educadores e web designers indicam a mesma conclusão: quando estamos on-line, entramos em um ambiente que promove a leitura descuidada, o pensamento apressado e distraído e o aprendizado superficial. É possível pensar profundamente enquanto se surfa na net, assim como é possível pensar superficialmente enquanto se lê um livro, mas não é o tipo de pensamento que a tecnologia encoraja e recompensa.

Uma coisa é muito clara: se, conhecendo o que sabemos sobre a plasticidade do cérebro, nos propuséssemos inventar uma mídia que refizesse nossos circuitos cerebrais o mais rápida e inteiramente possível, provavelmente terminaríamos projetando algo que se pareceria muito com a internet e que funcionaria de modo muito semelhante. Não apenas porque tendemos a usar a internet regular e mesmo obsessivamente. É que ela descarrega precisamente o tipo de estímulos sensoriais e cognitivos – repetitivos, intensivos, interativos, aditivos [viciantes] – que se demonstrou resultarem em fortes e rápidas alterações dos circuitos e funções cerebrais. Com exceção dos alfabetos e dos sistemas de números [sistemas numéricos, para ser mais preciso no termo matemático], a internet bem pode ser a tecnologia individual mais poderosa de alteração da mente de uso geral. No mínimo, é a mais poderosa desde o livro.”

2.3 A plasticidade do cérebro

O capítulo 2 do livro “Os caminhos vitais” [“The vital parts”, que poderia ter sido melhor traduzido ou “as partes vitais” como “as partes essenciais”] é dedicada ao histórico da pesquisa da neurociência que levou à descoberta da plasticidade do cérebro, isto é, que ele é constantemente modificado por todas as experiências que se passam com o indivíduo, inclusive seu pensamento [pp. 33-58]. Uma das maiores influências nesse processo é a tecnologia. O autor cita Walter J. Ong, que escreveu: “As tecnologias não são meros auxílios exteriores, mas também transformações interiores da consciência e estas são as maiores possíveis quando afetam a palavra.” [p. 78.] Carr acrescenta “A história da linguagem também é uma história da mente. A linguagem em si mesma não é uma tecnologia. É natural [native, melhor teria sido traduzir por ‘nativa’, ‘intrínseca’; ela não é natural – seu aparecimento é um dos grandes mistérios da teoria darwinista da evolução] à nossa espécie. Nosso cérebro e corpo evoluíram para falar e ouvir palavras. Uma criança aprende a falar sem instruções, como um filhote de um pássaro aprende a voar. Visto que a leitura e a escrita se tornaram tão centrais para a nossa identidade e cultura, é fácil assumir que elas, também, são talentos inatos. Mas não são. Leitura e escrita são atos não naturais, que se tornaram possíveis pelo desenvolvimento proposital do alfabeto e de muitas outras tecnologias. Nossas mentes têm que ser ensinadas a traduzir os caracteres simbólicos que vemos na linguagem que entendemos. Leitura e escrita exigem ensino e prática, o modelamento deliberado do cérebro. A evidência do processo de modelamento do cérebro pode ser vista em muitos estudos neurológicos. Experimentos revelaram que os cérebros dos alfabetizados diferem dos cérebros dos analfabetos em muitos pontos – não somente em como compreendem a linguagem, mas também em como processam os sinais visuais, como raciocinam, e como formam memórias. Foi demonstrado que ‘aprender a ler’, relata o psicólogo mexicano Feggy Ostrosky-Solis, ‘molda poderosamente os sistemas neuropsicológicos do adulto.’ … Diferenças de atividade cerebral foram constatadas mesmo entre leitores de diferentes línguas alfabéticas. Descobriu-se, por exemplo, que leitores de inglês se baseiam muito mais em áreas do cérebro associadas com decifrar formas visuais do que leitores de italiano. A diferença tem origem, acredita-se, no fato de que as palavras em inglês muitas vezes parecem ser muito diferentes do seu som, enquanto em italiano as palavras tendem a ser soletradas exatamente como são faladas.” (Carr cita o artigo científico de onde tirou essa informação.)

É baseado nessa plasticidade que Carr afirma recorrentemente que a Internet afeta a estrutura do cérebro.

2.4 História de algumas tecnologias intelectuais

Para mostrar a evolução cultural de tecnologias intelectuais, Carr introduz a história dos mapas e dos relógios [cap. 3, “Ferramentas da mente”, pp. 63-86]. Em seguida, traça a história da escrita e da imprensa [cap. 4, “O aprofundamento da página”, “The deepening page“, literalmente “A página que aprofunda”, pp. 87-112].

Dignas de nota são suas afirmações de que antigamente as palavras não eram separadas e não se usavam sinais de pontuação. “No século XIII, a scriptura continua estava em grande parte obsoleta, tanto para os textos em latim como para aqueles escritos na língua vernácula. Os sinais de pontuação, que facilitaram ainda mais o trabalho do leitor, começaram também a se tornar comuns. A escrita, pela primeira vez, estava dirigida tanto ao olho como ao ouvido. Seria difícil superestimar a importância dessas mudanças. A emergência da ordem das palavras despertou uma revolução na estrutura da linguagem – que, como observa Saenger, ‘era incoerentemente contraditória à antiga busca pela eloquência métrica e rítmica’. A inserção de espaços entre as palavras aliviou a pressão congnitiva envolvida em decifrar o texto, tornando possível que as pessoas lessem rápida e silenciosamente e com maior compreensão. Tal fluência tinha que ser aprendida. Exigia mudanças complexas nos circuitos do cérebro, como revelam estudos contemporâneos com jovens leitores. … À medida que o cérebro se torna mais apto a decodificar um texto, transformando o que envolvia um exercício de resolução de problemas em um processo essencialmente automático, pode dedicar mais recursos à interpretação do significado. Torna-se possível o que chamamos atualmente de ‘leitura profunda’ [deep reading]. … Os leitores não se tornaram apenas mais eficientes. Eles também se tornaram mais atentos. Ler um longo livro silenciosamente exigia uma capacidade de se concentrar intencionalmente por um longo período de tempo, para ‘se perder’ [to lose oneself] nas páginas do livro, como agora dizemos. Desenvolver tal disciplina mental não é fácil. O estado natural da mente humana, como aquele dos nossos parentes do reino animal, é de desatenção. Nossa predisposição é deslocar nosso olhar, e assim nossa atenção, de um objeto para outro, ser cônscios do máximo possível que está acontecendo ao nosso redor. … [Cita pesquisas neurofisiológicas.] O que atrai a nossa atenção acima de tudo é qualquer indício de mudança nos nossos arredores. … Ler um livro era experimentar um processo não natural de pensamento, que exigia atenção continuada, ininterrupta a um único objeto estático. … [As pessoas] tinham que treinar seus cérebros para ignorar tudo o mais que estava ocorrendo ao seu redor, para resistir ao ímpeto de deixar seu foco saltar de um sinal sensorial para outro. Tinham que forjar ou fortalecer as ligações neurais necessárias para contrabalançar o seu estado de desatenção instintivo, aplicando um maior controle sobre a sua atenção. … Nos silenciosos espaços abertos pela leitura prolongada, sem distrações, de um livro, as pessoas criavam suas próprias associações, faziam suas próprias inferências e analogias, e cultivavam suas próprias ideias. Pensavam profundamente enquanto liam profundamente.” [pp. 92-5.]

Vale a pena salientar que nessa citação o autor introduz a expressão “leitura profunda”, que permeia muito do que se segue no livro; ele mostrará que a Internet prejudica essa capacidade.

“Os avanços da tecnologia do livro mudaram a experiência pessoal de leitura e escrita. Também tiveram consequências sociais. A cultura mais ampla começou a moldar a si mesma, de maneiras tanto sutis quanto óbvias, em torno da leitura silenciosa do livro. … Por séculos, a tecnologia da escrita havia refletido, e reforçado, a ética intelectual da cultura oral da qual se originou. … agora, a escrita começava a assumir e a disseminar uma nova ética intelectual: a ética do livro. O desenvolvimento do conhecimento se tornou um ato cada vez mais privado, com cada leitor criando, em sua própria mente, uma síntese pessoal das ideias e informações transmitidas pelos escritos de outros pensadores. … A pesquisa quieta, solitária, tornou-se um pré-requisito para a realização intelectual. A originalidade do pensamento e a criatividade da expressão se tornaram as marcas distintivas da mente moderna.” [pp. 97-9.]

Em seguida, o autor traça a história da imprensa, que possibilitou a popularização do livro. Aí ele dá um toque na Internet: “Agora a corrente dominante está sendo desviada, rápida e decisivamente, para um novo canal. A revolução eletrônica está se aproximando do seu ápice à medida que o computador – desktop, laptop, handheld [smartphone, e agora também tablet] – torna-se nosso companheiro constante, e a internet, o nosso meio predileto de armazenar, processar e partilhar informação de todas as formas, incluindo o texto. … Mas o mundo da tela, como estamos começando a perceber, é um lugar inteiramente diferente do mundo da página. Uma nova ética intelectual está se firmando. As vias de nosso cérebro mais uma vez estão sendo retraçadas.” [p. 112.]

Para quem se interessa pela história da neurociência e alguns de seus últimos avanços, o livro de Miguel Nicolelis sobre essa área traz muito mais detalhes [Nicolelis 2011].

2.5 Sobre a Internet

Nos capítulos 5 a 7, “Um meio de natureza mais geral”, “A própria imagem do livro” e “O cérebro do malabarista” [pp. 117-198], Carr concentra-se na Internet. Após mencionar estatísticas mostrando o grande aumento do uso da Internet e um pequeno aumento do uso de TV (que, portanto, não foi influenciada pelo aumento da Internet), ele diz: “O que parece estar decrescendo à medida que aumenta o uso da net é o tempo que passamos lendo publicações impressas – particularmente jornais e revistas, mas também livros. Das quatro categorias de mídias pessoais, a impressa é a menos usada, ficando bem atrás da televisão, dos computadores e do rádio. … Devido à ubiquidade do texto na net e nos celulares, certamente estamos lendo mais palavras hoje do que líamos vinte anos atrás, mas estamos dedicando menos tempo às palavras impressas no papel. A Internet, do mesmo modo que o computador pessoal antes dela, demonstrou ser tão útil de tantos modos que demos as boas-vindas a toda expansão de seu escopo. Raramente paramos para ponderar, e muito menos questionar, a revolução da comunicação que tem estado em andamento ao nosso redor, em nossas casas, no nosso trabalho, nas nossas escolas.” [pp. 126-7.]

“As mídias tradicionais, mesmo as eletrônicas, são [are being, estão sendo] reformatadas e reposicionadas quando realizam a passagem da [to, para a] distribuição on-line. Quando a net absorve uma mídia, recria-a à sua própria imagem. Não somente dissolve a forma física da mídia; injeta hiperlinks no conteúdo da mídia, quebra o conteúdo em porções buscáveis e circunda o conteúdo com os conteúdos de todas as outras mídias que absorveu. Todas essas mudanças da forma do conteúdo também mudam a maneira como o usamos, experimentamos e mesmo o compreendemos. … Os links não apenas nos indicam trabalhos relacionados ou suplementares; eles nos impulsionam rumo a eles. Eles nos encorajam a roçar uma série de textos em vez de dedicar atenção continuada a qualquer um deles. Os hiperlinks são planejados para capturar a nossa atenção. Seu valor como ferramentas de navegação é inseparável da distração que causam.” [pp. 128-9.]

No seu cap. 7 Carr dedica ênfase especial a essa questão dos vínculos (links) atraírem a atenção e produzirem distração. “O que não estamos fazendo quando estamos on-line também tem consequências neurológicas. Assim como neurônios que disparam juntos conectam-se juntos, neurônios que não disparam juntos não se conectam juntos. Como o tempo que gastamos vasculhando web pages encolhe o tempo que passamos lendo livros, como o tempo que gastamos trocando mensagens de texto medidas em bites encolhe o tempo que passamos compondo sentenças e parágrafos, como o tempo que gastamos pulando entre links encolhe o tempo que dedicamos à contemplação na quietude, os circuitos que dão suporte a essas antigas funções intelectuais enfraquecem e começam a se romper. O cérebro recicla os neurônios e as sinapses não usadas para outros trabalhos mais prementes. Ganhamos novas habilidades e perspectivas, mas perdemos as antigas.” [p. 167.]

“Em 2008, [Gary] Small e dois dos seus colegas conduziram o primeiro experimento que de fato mostrou a mudança do cérebro das pessoas em resposta ao uso da internet. Os pesquisadores recrutaram 24 voluntários – uma dúzia de surfistas da web experientes e uma dúzia de novatos – e escanearam seus cérebros enquanto realizavam buscas com o Google. … As imagens colhidas revelaram que a atividade cerebral dos usuários de Google experientes era muito mais ampla do que a dos novatos. Em particular, ‘os sujeitos com domínio do computador usavam uma área específica na parte frontal esquerda do cérebro, conhecida como o córtex dorsolateral pré-frontal, enquanto os sujeitos sem experiência com a internet exibiam uma atividade mínima, se é que exibiam, dessa área.’ … Claramente, as vias neurais distintivas dos usuários experientes da net haviam sido desenvolvidas com o seu uso da internet. A parte mais notável do experimento veio quando os testes foram repetidos seis dias mais tarde. Nesse meio-tempo, os pesquisadores tinham feito os novatos despenderem uma hora por dia on-line, pesquisando na net. As novas imagens revelaram que a área do seu córtex pré-frontal que estivera em grande parte dormente agora mostrava extensa atividade – similar à atividade dos cérebros dos surfistas veteranos. ‘Depois de apenas cinco dias de treinamento, exatamente o mesmo circuito neural da parte frontal do cérebro tornou-se ativo nos sujeitos inexperientes em internet’, relata Small. ‘Cinco horas na internet, e os sujeitos inexperientes haviam alterado as conexões de seus cérebros.’ Ele prossegue e pergunta: ‘Se nosso cérebro é tão sensível a apenas uma hora por dia de exposição ao computador, o que acontece quando passamos mais tempo on-line?’ Um outro resultado do estudo lança luz sobre as diferenças entre ler web pages e ler livros. Os pesquisadores descobriram que, quando as pessoas fazem buscas pela internet, exibem um padrão de atividade cerebral muito diferente de quando leem um texto com o formato de livro. Os leitores de livros têm muita atividade em regiões associadas com a linguagem, memória e processamento visual, mas não exibem muita atividade nas regiões pré-frontais associadas à tomada de decisões e resolução de problemas. Usuários experientes da internet, ao contrário, exibem atividade extensiva em todas as regiões cerebrais quando vasculham e buscam web pages. Aqui a boa notícia é que surfar na web, visto que envolve tantas funções cerebrais, pode ajudar os idosos a manter as suas mentes aguçadas. Fazer buscas e navegar pela internet parecem ‘exercitar’ o cérebro de um modo muito semelhante a resolver palavras cruzadas, diz Small. Mas a atividade extensiva dos cérebros dos surfistas também indica por que a leitura profunda e outros atos de concentração continuada se tornam tão difíceis on-line.” [pp. 168-70.]

“Um estudo de 1989 mostrou que os leitores de hipertexto frequentemente terminavam clicando distraidamente ‘pelas páginas em vez de lê-las cuidadosamente. Um experimento [de 1990] revelou que os leitores de hipertexto muitas vezes ‘não podiam lembrar o que haviam ou não lido.’ Em outro estudo do mesmo ano, os pesquisadores solicitaram a dois grupos que respondessem a uma série de questões, pesquisando em um conjunto de documentos. Um grupo realizou buscas em documentos eletrônicos com hipertexto, enquanto o outro, em documentos de papel tradicionais. O grupo que usou os documentos de papel teve uma performance superior à do grupo de hipertextos na tarefa designada.” [p. 176.] Houve uma conjetura de que as pessoas iriam se acostumar ao hipertexto e o desempenho delas iria melhorar. “Isso não aconteceu. Embora a World Wide Web tenha tornado o hipertexto um lugar-comum, e na realidade ubíquo, as pesquisas continuam a mostrar que as pessoas que leem textos lineares compreendem mais, lembram mais e aprendem mais do que aquelas que leem textos salpicados com links.” [pp. 176-7.] Carr cita então 8 pesquisas científicas comprovando essas afirmações, inclusive uma que correlacionou o número de vínculos à compreensão e à memorização, que pioravam com o aumento daquele número. Em seguida, ele expõe teorias que tentam explicar esse fenômeno. Mais tarde, no cap. 10, “Uma coisa como eu” ele escreve: “Mesmo em nível prático, os efeitos [da Internet] não são tão benéficos como gostaríamos de acreditar. Como mostram muitos estudos de hipertexto e multimídia, a nossa capacidade de aprender pode ser severamente comprometida quando nosso cérebro é sobrecarregado com diversos estímulos on-line. Mais informação pode significar menos conhecimento.” [p. 290.]

2.6 O problema das multitarefas

“A net é, pelo seu design, um sistema de interrupção, uma máquina calibrada para dividir a atenção.” [p. 182.] Carr descreve vários programas que interrompem o que o usuário está fazendo, como avisos de chegada de e-mails e mensagens instantâneas (chats), avisos de postagens em blogs, twitts, postagens em redes sociais e vários dispositivos para avisar uma pessoa inscrita em um sistema de que há algo de novo nele.

“A navegação na web exige uma forma particularmente intensa de multitarefas mentais. Além de inundar nossa memória de trabalho [memória de rápido acesso e curta duração] com informação, o malabarismo [parte do título do capítulo] impõe, como denominam os cientistas do cérebro, ‘custos de comutação à nossa cognição’. Toda vez que deslocamos nossa atenção, o nosso cérebro tem que se reorientar novamente, exercendo mais pressão sobre nossos recursos mentais. … Muitos estudos demonstraram que a comutação entre apenas duas tarefas pode incrementar substancialmente a nossa carga cognitiva, impedindo o nosso pensamento e aumentando a probabilidade de que passemos por cima ou interpretemos mal informações importantes.” [p. 184.] Carr cita uma pesquisa com sujeitos forçados a executar uma multitarefa. “[…] depois da tentativa multitarefa, [os sujeitos] tiveram muito mais dificuldades de chegar a conclusões sobre a sua experiência. A comutação entre duas tarefas dera um curto-circuito em seu entendimento: eles realizaram o trabalho, mas perderam a noção do seu significado. … Na net, onde comumente fazemos malabarismos não apenas entre duas mas entre várias tarefas mentais, os custos de comutação podem ser muito mais altos. … Nós queremos ser interrompidos, porque cada interrupção nos traz uma informação preciosa. Ao desligar esses alertas, nos arriscamos a nos sentir desconectados ou mesmo socialmente isolados. O fluxo quase contínuo de novas informações bombeado pela web também apela à nossa tendência natural de ‘supervalorizar amplamente o que está acontecendo exatamente agora’, como explica o psicólogo … C. Chabris. Ansiamos pelo novo mesmo quando sabemos que ‘o novo é na maior parte das vezes trivial em vez de essencial’. E assim pedimos à internet que continue a nos interromper, cada vez mais e de modos diferentes. De bom grado aceitamos a falta de concentração e de foco, a divisão da nossa atenção e a fragmentação dos nossos pensamentos, em troca da abundância de informação premente ou, pelo menos, divertida que recebemos. Desligar não é uma opção que muitos de nós consideraríamos.” [pp. 185-6.]

“Como o escritor Sam Anderson colocou em ‘In Defense of Distraction’, um artigo de 2009 na revista New York, ‘nossos trabalhos dependem de nossa conectividade’ e ‘nossos ciclos de prazer – de modo algum triviais – estão cada vez mais ligados a ela.’ Os benefícios práticos do uso da web são muitos, e essa é uma das principais razões por que despendemos tanto tempo on-line. ‘É tarde demais’, sustenta Anderson, ‘para apenas nos retirarmos para um tempo mais calmo.’ Ele tem razão, mas seria um sério equívoco olhar estreitamente para os benefícios da net e concluir que a tecnologia está nos tornando mais inteligentes.” [p. 194.] Carr cita Jordan Grafman, um neurocientista: “‘A otimização para multitarefas resulta em um melhor funcionamento – isto é, a criatividade, inventividade, produtividade? A resposta é, na maioria dos casos, não’ diz Grafman. ‘Quanto mais você faz multitarefas, menos deliberativo você se torna; e menos capaz de pensar e de raciocinar sobre um problema.’ Você se torna, ele sustenta, mais propenso a confiar em ideias e soluções convencionais em vez de desafiá-las com linhas originais de pensamento.” [p. 194.]

Carr cita uma pesquisa de 2009 da Universidade de Stanford, em que os pesquisadores “aplicaram uma bateria de testes cognitivos a um grupo de praticantes pesados de multitarefas de mídia assim como a um grupo com prática de multitarefas relativamente leve. Descobriram que os praticantes pesados de multitarefas eram muito mais facilmente distraídos por ‘estímulos ambientais irrelevantes’, tinham um controle significativamente menor sobre os conteúdos da sua memória de trabalho, e eram em geral muito menos capazes de manter a concentração em uma determinada tarefa. … Os executores intensivos de multitarefas são ‘atraídos pela irrelevância’ comentou Cliffor Nass, o professor de Stanford que liderou a pesquisa. ‘Tudo os distrai.’ A avaliação de Michael Merzenich [um dos principais descobridores da plasticidade do cérebro] é ainda mais desoladora. Quando realizamos multitarefas on-line, diz, estamos ‘treinando nosso cérebro para prestar atenção ao lixo.’ As consequências para a nossa vida intelectual provarão ser ‘mortais’”. [pp. 196-7.]

2.7 A perda da concentração

“[Pesquisadores alemães] relataram que a maioria das páginas da web é vista por dez segundos ou menos. Menos do que uma em dez web pages é vista por mais de dois minutos, e uma fração significativa desse tempo parece envolver ‘janelas do browser desocupadas … deixadas abertas no segundo plano do desktop.’ … Os resultados, dizem, ‘confirmam que o browsing é uma atividade rapidamente interativa.’ Os resultados também reforçam algo que [Jakob] Nielsen escreveu em 1997 depois do seu primeiro estudo na leitura on-line. ‘Como os usuários leem na web?’, perguntou então. Sua resposta sucinta: ‘Eles não leem.’ … Em um período de dois meses em 2008, uma companhia israelense chamada Clicktale, que fornece software para analisar como as pessoas usam as páginas corporativas da web, coletou dados sobre o comportamento de 1 milhão de visitantes aos sites mantidos pelos seus clientes ao redor do mundo. Descobriu que, na maioria dos países, as pessoas despendem, em média, entre 19 e 27 segundos olhando uma página antes de passarem para a próxima, incluindo o tempo para a página carregar na janela do browser.” [pp. 188-9.] Em seguida, ele cita pesquisa feita com leitores de revistas acadêmicas. “Os estudiosos descobriram que as pessoas usando os sites mostravam claramente ‘ler por cima’, pulando rapidamente de uma fonte para a outra, raramente voltando a qualquer fonte que já houvessem consultado. Elas geralmente liam, no máximo, uma ou duas páginas de um artigo ou livro antes de pularem para outro site. ‘É claro que os usuários não estão lendo no sentido tradicional’, relatam os autores do estudo; de fato, há sinais de que novas formas de “leitura” estão emergindo à medida que os usuários dão uma conferida na horizontal nos títulos, sumários e resumos, visando resultados rápidos. Dão a impressão de que vão on-line para evitar a leitura no sentido tradicional.” [p. 189.]

Em seguida, ele cita outra pesquisa corroborando esse fenômeno, e diz: “Não há nada errado com o navegar e o escanear, ou mesmo com a conferência rápida. Sempre passamos os olhos sobre os jornais mais do que os lemos, e habitualmente corremos os olhos sobre os livros e revistas para ter um gosto do escrito e decidir se merece ou não uma leitura mais completa. A capacidade de ler por cima um texto é tão importante quanto a de ler profundamente. O que é diferente, e perturbador, é que ler por alto está se tornando o nosso modo dominante de leitura. … O que estamos experimentando é, em um sentido metafórico, uma reversão da trajetória inicial de civilização: estamos evoluindo de seres cultivadores de conhecimento pessoal para sermos caçadores e coletores da floresta dos dados eletrônicos.” [pp. 191-2.]

“Dada a plasticidade do nosso cérebro, sabemos que os nossos hábitos on-line continuam a reverberar no funcionamento das nossas sinapses quando não estamos on-line. Podemos supor que os circuitos neurais dedicados a vasculhar, passar os olhos e executar multitarefas estão se expandindo e fortalecendo, enquanto aqueles usados para a leitura e pensamentos profundos, com concentração continuada, estão enfraquecendo e se desgastando.” [p. 196.]

2.8 Críticas à empresa Google

No cap. 8, “A igreja da Google”, Carr inicia com uma digressão sobre o taylorismo. Taylor considerou e tratou o trabalhador como máquina que devia ser ‘programada’ para obter a maior eficiência possível na produção. Segundo Carr, “Uma vez que seu sistema fosse aplicado a todos os atos do trabalhador manual, assegurou Taylor a seus muitos seguidores, traria uma reestruturação não somente da indústria mas também da sociedade, criando uma utopia de perfeita eficiência. ‘No passado, o homem vinha em primeiro lugar’, declarou, ‘no futuro, o sistema virá primeiro.’ O sistema de Taylor de mensuração e otimização ainda está muito presente entre nós; permanece um dos fundamentos da manufatura industrial. E agora, graças ao poder crescente que engenheiros computacionais e criadores de software exercem sobre nossa vida intelectual e social, a ética de Taylor está começando a governar o reino da mente também. A internet é uma máquina projetada para a eficiente e automática coleta, transmissão e manipulação de informações, e suas legiões de programadores têm a intenção de encontrar o ‘único melhor método’—o algoritmo perfeito – para conduzir os movimentos mentais do que passamos a descrever como trabalho do conhecimento. A sede da Google no Vale do Silício – a Googleplex – é a catedral da internet, e a religião praticada dentro de suas paredes é o taylorismo. A empresa, diz o CEO [presidente] Eric Schmidt, é ‘fundamentada na ciência da mensuração. Ela busca ‘sistematizar tudo’ o que faz, acresce outra executiva … ‘Vivemos em um mundo de números.’” [pp.206-7.]

Carr descreve como a (empresa, companhia) Google “conduz milhares de experimentos por dia e usa os resultados para refinar os algoritmos que cada vez mais orientam como todos nós encontramos informação e extraímos significado delas. O que Taylor fez para o trabalho manual, a Google está fazendo para o trabalho mental.” [p. 207.] “Julgamentos subjetivos, incluindo os estéticos, não entram nos cálculos da Google. … Em uma prova [trial, teste] famosa, a empresa testou quarenta e uma diferentes tonalidades de azul de sua barra de ferramentas para ver qual tonalidade atraía mais cliques dos visitantes. Conduz experimentos de rigor semelhante com o texto que coloca nas suas páginas. ‘Você deve experimentar e tornar as palavras menos humanas e mais uma peça de maquinário’, explica [M.] Mayer [uma executiva da Google]” [p. 208.]

O autor relata a história da Google, concluindo com uma descrição da fonte do grande sucesso do sistema de buscas: “No final de 2000 tiveram a ideia de um plano bem bolado de apresentar pequenos anúncios textuais junto com os resultados de buscas. … Em vez de vender espaço de propaganda por um preço estabelecido, resolveram leiloar o espaço.” [p. 213.] Além de dar “um ranking aos anúncios da busca conforme o tamanho do lance do anunciante – maior o lance, maior o destaque do anúncio –, a Google em 2002 acrescentou um segundo critério. A colocação do anúncio seria determinada não somente pelo total do lance, mas também pela frequência com que as pessoas de fato clicassem no anúncio. … No final da década [2010] a Google não era apenas a maior companhia da internet no mundo; era uma das maiores companhias de mídia, auferindo mais de 22 bilhões de dólares em vendas por ano, quase todas elas em propaganda, gerando um lucro de cerca de 8 bilhões de dólares.” [p. 213.]

Relacionando com o problema da Internet provocar distração, ele diz: “Mas a Google, como supridora das principais ferramentas navegacionais da web, também molda a nossa relação com o conteúdo que ela nos serve tão eficientemente e em tanta profusão. A tecnologia intelectual da qual ela é pioneira promove o sobrevoo veloz e superficial sobre a informação e desencoraja qualquer envolvimento profundo e prolongado com um único argumento, ideia ou narrativa. “‘Nosso objetivo’, diz Irene Au, ‘é fazer com que os usuários entrem e saiam realmente rapidamente. Todas nossas decisões de design são baseadas nessa estratégia.’ Os lucros da Google são baseados diretamente na velocidade de consumo de informação pelas pessoas. Quanto mais rapidamente surfamos na superfície da web – quantos mais links clicamos nas páginas que vemos –, mais oportunidades a Google tem de coletar informações sobre nós e de nos suprir com anúncios. Seu sistema de propaganda, além disso, é explicitamente projetado para descobrir quais mensagens têm a maior probabilidade de captar a nossa atenção e então colocar essas mensagens no nosso campo de visão. … A última coisa que a companhia gostaria de encorajar é a leitura vagarosa ou o pensamento lento, concentrado. A Google está, bem literalmente, no negócio da distração.” [pp. 214-5.]

Com respeito à coleta de informações sobre os usuários dos produtos da Google, escreve Carr: “A Google divulgou que não estará satisfeita até que acumule ‘100 por cento dos dados dos usuários.’ O seu zelo expansionista não se refere apenas ao dinheiro, contudo. A colonização continuada de tipos adicionais de conteúdos também promove a missão da companhia de tornar a informação do mundo ‘universalmente acessível e útil.’ Seus ideiais e seus interesses empresariais convergem num objetivo abrangente: digitalizar cada vez mais tipos de informação, transferir a informação para a web, alimentar com ela a sua base de dados, rodá-la nos seus algoritmos de classificação e de ranking e distribuí-la no que chama de ‘snippets’ (fragmentos) aos surfistas da web, preferencialmente com anúncios a reboque. Com a expansão do âmbito da Google, a sua ética taylorista ganha um domínio cada vez mais cerrado sobre nossa vida intelectual.” [p. 220.]

Carr ainda entra em mais detalhes sobre projetos da Google, dedicando um bom trecho especificamente ao de digitalizar todos os livros do mundo. “Mas a inevitabilidade de transformar as páginas de livros em imagens on-line não deve impedir que consideremos os efeitos colaterais. Tornar um livro encontrável e buscável on-line é também desmembrá-lo. A coesão do seu texto, a linearidade do seu argumento ou narrativa, enquanto fluem através de muitíssimas páginas, é sacrificada. … A quietude … também é sacrificada. Circundando toda página ou trecho do Google Book Search há uma pletora de links, ferramentas, abas e anúncios, cada um ansioso por fisgar uma parte da atenção fragmentada do leitor. […] para a Google, o valor de um livro não é como uma obra literária autocontida, mas como uma outra pilha de dados a ser prospectada. A grande biblioteca que a Google está correndo para criar não deve ser confundida com as bibliotecas que conhecemos até então. É uma biblioteca de fragmentos. … Com a escrita na tela, ainda conseguimos decodificar o texto rapidamente – lemos, se é que lemos, mais rápido do que nunca –, mas não mais somos levados a uma compreensão profunda, construída pessoalmente, das conotações do texto. Em vez disso, somos apressados para ir adiante até um outro pedaço de informação relacionada, e outra, e outra. O garimpo superficial do ‘conteúdo relevante’ substitui a lenta escavação do significado.” [p. 227.]

Nesse capítulo há ainda três temas dignos de nota. O primeiro trata das redes sociais: “A história da web sugere que a velocidade dos dados só vai crescer. … A maior aceleração veio recentemente, com a ascensão das redes sociais como MySpace, Facebook e Twitter. Essas companhias são dedicadas a prover seus milhões de membros com uma incessante ‘torrente’ de ‘atualizações em tempo real’, breves notícias sobre, como diz um slogan do Twitter, “o que está acontecendo agora mesmo.’ Ao transformar mensagens íntimas – antigamente o reino da carta, do telefonema, do sussuro – no fomento de uma nova forma de mídia de massa, as redes sociais deram às pessoas novo modo irresistível de se socializar e permanecer em contato. Também colocaram uma nova ênfase no caráter imediato. … Há uma competição feroz entre as redes sociais para disponibilizar mensagens sempre mais frescas e em maior abundância.” [p. 216.]

O segundo tema tem a ver com o modelo computacional usado hoje em dia para o cérebro: “O computador digital substituiu há muito tempo o relógio, o chafariz e a máquina da fábrica como a nossa metáfora predileta para explicar a constituição e o funcionamento do cérebro. Usamos tão rotineiramente termos computacionais para descrever nosso cérebro que não percebemos mais que estamos falando metaforicamente. (Referimo-nos aos ‘circuitos’, ‘conexões’, ‘inputs’ e ‘programação’ mais do que umas poucas vezes neste livro.) Mas a visão de [Larry] Page [o fundador da Google] é extrema. Para ele, o cérebro não apenas se assemelha a um computador; ele é um computador. Sua suposição ajuda muito a explicar por que a Google equaciona inteligência com processamento de dados eficiente. Se nosso cérebro é computador, então a inteligência pode ser reduzida a uma questão de produtividade – de rodar mais bits de dados mais rapidamente no grande chip dentro do nosso crânio. A inteligência humana se torna indistinguível da máquina.” [p. 235.]

Isso leva Carr a terminar o capítulo com uma interessante digressão e crítica sobre um terceiro tema adicional, a Inteligência Artificial. “O que está à espreita nos cantos escuros da Googleplex? Estamos próximos da vinda de uma IA (inteligência artificial)? Nossos suseranos de silício estão à nossa porta? Provavelmente não. A primeira conferência acadêmica dedicada à busca da inteligência artificial foi realizada no verão de 1956 – no campus da [Universidade] Dartmouth. – e parecia óbvio naquela época que os computadores em breve seriam capazes de replicar o pensamento humano. Os matemáticos e engenheiros que participaram do conclave de um mês de duração sentiam que, como escreveram em uma declaração, ‘todo aspecto do aprendizado ou de qualquer outra característica da inteligência pode em princípio ser tão bem descrito que uma máquina pode ser capaz de simulá-lo.’ Era apenas uma questão de escrever os programas certos, de traduzir os processos conscientes da mente nos passos de um algoritmo. Mas, apesar de anos de esforço posterior, o funcionamento da inteligência humana tem se esquivado de uma descrição precisa. No meio século desde a conferência de Dartmouth, os computadores avançaram à velocidade da luz, mas continuam sendo, em termos humanos, uns completos idiotas. Nossas máquinas ‘pensantes’ não têm a menor ideia do que elas estão pensando.” [pp. 238-9.]

É interessante notar que neste ponto Carr faz uma distinção entre mente e cérebro: “É também uma falácia pensar que o cérebro físico e a mente pensante existam como camadas separadas em uma ‘arquitetura’ precisamente construída. Os pioneiros da neuroplasticidade mostram que o cérebro e a mente estão extraordinariamente entremeados, um moldando o outro. … Desde que não estamos nem perto de desentrelaçar [disentangling, melhor seria, no caso, ‘destrinchar’] a hierarquia do cérebro, muito menos de compreender como os seus níveis agem e interagem, a fabricação de uma mente artificial deverá permanecer uma aspiração para as gerações futuras, senão para sempre.” [pp. 240-1.]

2.9 A nossa memória e a Internet

No cap. 9, “Busque, memória”, Carr analisa o conhecimento que existe sobre a nossa memória. “Um certo tempo é necessário para que uma memória primária, ou de curto prazo, seja transformada em memória secundária, ou de longo prazo. … Memórias de curto prazo não se tornam memórias de longo prazo imediatamente, e o processo da sua consolidação é delicado. Qualquer disrupção, seja um murro na cabeça [referência a estudos com boxeadores descritos pouco antes] ou uma simples distração, pode varrer as memórias nascentes da mente. Estudos posteriores confirmaram a existência das formas de curto e longo prazo da memória e forneceram evidências adicionais da importância da fase de consolidação, durante as quais as primeiras são convertidas nas últimas.” [pp. 251-2.]

A memória de curto prazo também é chamada de ‘memória de trabalho’. Várias pesquisas são citadas mostrando a história do descobrimentos dessas memórias e as estruturas cerebrais nelas envolvidas. “[…] o corpo crescente de evidências deixa claro que a memória dentro de nossas cabeças é o produto de um processo natural extraordinariamente complexo que é, a cada momento, delicadamente ajustado ao ambiente único em que cada um dos nós vive e ao padrão único de experiências pelo qual cada um de nós passa. … Governada por sinais biológicos altamente variáveis, químicos, elétricos e genéticos, a memória humana, em todos os seus aspectos – o modo como é formada, mantida, conectada e evocada – tem quase infinitas gradações. A memória do computador existe apenas como bits binários – uns e zeros –, que são processados através de circuitos fixos, que podem estar abertos ou fechados, mas com nada no meio [isto é, na transição entre um e outro].” [pp. 259-60.] Citando o neurocientista Kobi Rosenblum, “‘O processo de criação da memória de longo prazo no cérebro humano’, diz, ‘é um dos incríveis processos tão claramente diferentes de ‘cérebros artificiais’, como aqueles de um computador. Enquanto um cérebro artificial absorve informação e a salva imediatamente na sua memória, o cérebro humano continua a processar a informação por muito tempo depois de tê-la recebido, e a qualidade das memórias depende de como a informação é processada.’ Memória biológica é viva. Memória computacional, não.” [p. 260.]

Sobre a possibilidade de a nossa memória ser ‘descarregada’ (downloaded) em um computador, o autor diz: “Aqueles que celebram a ‘terceirização” [outsourcing] da memória na web estão se deixando confundir por uma metáfora. Passam por cima da natureza fundamentalmente orgânica da memória biológica. O que dá à memória real a sua riqueza e o seu caráter, para não mencionar o seu mistério e a sua fragilidade, é a sua contingência. Ela existe no tempo, mudando à medida que o corpo muda. De fato, o ato mesmo de evocar uma memória parece reiniciar o processo todo de consolidação, incluindo uma geração de proteínas para formar novas terminações sinápticas. … De modo que, para que a antiga memória faça sentido para o cérebro presente, ela tem que ser atualizada. A memória biológica está em perpétuo estado de renovação. A memória armazenada em um computador, ao contrário, toma a forma de bits distintos e estáticos; você pode mudar os bits de um dispositivo de armazenamento para outro quantas vezes quiser, e eles permanecerão precisamente como eram.” [p. 261.] “O descarregamento da memória em bancos de dados exteriores não apenas ameaça a profundidade e distintividade do self. Ameaça a profundidade e distintividade de toda a cultura que partilhamos. … Cultura é mais do que o agregado que a Google descreve como a ‘informação do mundo’. É mais do que pode ser reduzido a um código binário e fazer um upload na net. Para permanecer vital, a cultura deve ser renovada nas mentes dos membros de cada geração. Terceirizemos a memória, e a cultura definha.” [p. 268.]

Há algumas citações que são dignas de menção: “‘Diferentemente de um computador’, escreve Nelson Cowan, um especialista de [em] memória que leciona na Universidade de Michigan, ‘o cérebro humano normal nunca atinge um ponto em que as experiências não podem mais ser guardadas na memória: o cérebro nunca fica cheio.’ Diz Torkel Klingberg [um neurocientista sueco]: ‘O total de informação que pode ser armazenado na memória de longo prazo é virtualmente ilimitado.’ As evidências sugerem, ademais, que, à medida que construímos a nossa reserva de memórias, a nossa mente se torna mais aguçada. O próprio ato de lembrar, explica a psicóloga clínica Sheila Crowell em The Neurobiology of Learning, parece modificar o cérebro de um modo que pode tornar mais fácil aprender novas ideias e habilidades no futuro.” [p. 262.]

Carr continua, e leva para a questão da Internet: “Nós não restringimos as nossas capacidades mentais quando armazenamos novas memórias de longo prazo. Nós as fortalecemos. A cada expansão da nossa memória corresponde um aumento de nossa inteligência. A web proporciona um suplemento conveniente e irresistível para a memória pessoal, mas quando começamos a usar a net como um substituto para a memória pessoal, desviando dos processos interiores de consolidação, arriscamo-nos a esvaziar as nossas mentes de suas riquezas. … [A Internet] coloca mais pressão sobre nossa memória de trabalho, não somente desviando recursos das nossas faculdades de raciocínio mais elevado, mas também obstruindo a consolidação de memórias de longo prazo e o desenvolvimento de esquemas. A calculadora, uma ferramenta poderosa, mas altamente especializada, acabou sendo um auxílio para a memória. A web é uma tecnologia do esquecimento. O que determina o que lembramos e o que esquecemos? A chave para a consolidação da memória é estarmos atentos. … Quanto mais aguçada a atenção, mais aguçada a memória.” [pp. 262-3.]

Nesse ponto Carr volta à questão da distração produzida pela Internet: “O influxo de mensagens competindo entre si, que recebemos sempre que estamos on-line, não apenas sobrecarrega a nossa memória de trabalho; torna muito mais difícil para os lobos frontais concentrarem nossa atenção em apenas uma coisa. O processo de consolidação de memória sequer pode ser iniciado. E, mais uma vez graças à plasticidade de nossas vias neurais, quanto mais usamos a web, mais treinamos nosso cérebro para ser distraído – para processar a informação muito rapidamente e muito eficientemente, mas sem atenção continuada. Isso explica por que muitos de nós achamos difícil nos concentrar mesmo quanto estamos longe de computadores. Nosso cérebro se tornou propenso a esquecer e inepto para lembrar. .. À medida que o nosso uso da web torna mais difícil para nós guardar informação em nossa memória biológica, somos forçados a depender cada vez mais da vasta e facilmente buscável memória artificial da net, mesmo se isso nos torna pensadores mais superficiais.” [pp. 264-5.]

2.10 Problemas das novas tecnologias

No capítulo 10, “Uma coisa como eu”, o último do livro, Carr começa descrevendo o programa Eliza, desenvolvido por Joseph Weizenbaum, então professor do MIT, e seu extraordinário livro motivado pelo impacto desse sistema, Computer Power and Human Reason [1976]. Curiosamente, adotei esse livro logo depois que saiu, em 1976, em minha disciplina optativa sobre o impacto individual e social dos computadores (MAC-0424, “Computadores na Sociedade e na Empresa”), do Bacharelado em Ciência da Computação da USP, que comecei a dar em 1974 – ver detalhes da mesma em meu site. O programa Eliza simulava um psicanalista rogeriano, simplesmente modificando as afirmações e perguntas feitas pelo usuário, segundo um padrão (script) que podia ser definido. Por exemplo, como cita Carr, “[…] qualquer sentença da forma ‘eu estou BLAH’ deveria ser transformada [e exibida ao usuário] em ‘Por quanto tempo você tem estado BLAH?’ independentemente do significado de BLAH.” [p. 274.]”Ao comentar sua criação, que ele reconheceu ser uma modesta e quase tola contribuição ao nascente campo do processamento de linguagem natural, [Weizenbaum] observou como é fácil para os programadores de computadores fazerem as máquinas ‘se comportaram de um modo maravilhoso, frequentemente capaz de deslumbrar mesmo o mais experiente observador.’ … Enquanto se surpreendeu com o interesse público no seu programa, o que o chocou foi o quão rápida e profundamente as pessoas usando o software ‘se tornavam envolvidas emocionalmente com o computador’, conversando com ele como se fosse uma pessoa de verdade. Elas, ‘depois de conversar com ELIZA por um tempo, insistiam, apesar de minhas explicações, que a máquina realmente as entendia.’ … ‘O que eu não tinha percebido’, disse Weizenbaum, ‘é que exposições relativamente curtas a um programa de computador relativamente simples podem induzir um poderoso pensamento delirante em pessoas bem normais.’ As coisas estavam prestes a se tornar ainda mais estranhas. Psiquiatras e cientistas renomados começaram a sugerir, com considerável entusiasmo, que o programa poderia desempenhar um papel valioso no tratamento real de portadores de doenças e distúrbios [mentais].” [pp. 276-7] “Escrevendo na Natural History, o proeminente astrofísico Carl Sagan expressou uma excitação igual em relação ao potencial da ELIZA. Ele previu o desenvolvimento de ‘uma rede de terminais terapêuticos computadorizados, algo como um conjunto de grandes cabines telefônicas, nas quais, por uns poucos dólares por sessão, poderíamos falar com um psicoterapeuta atencioso, testado e amplamente não diretivo.’” [p. 278.]

“A reação ao software amedrontou Weizenbaum. Implantou em sua mente uma questão que nunca havia se colocado antes, mas que o preocuparia por muitos anos: ‘O que tem o computador que elevou a visão do homem como uma máquina a um novo nível de plausibilidade?’” [pp. 279-80.] Isso motivou-o a escrever o citado livro, uma década depois da estréia de ELIZA. “Além de ser um tratado de erudição sobre o funcionamento de computadores e software, o livro de Weizenbaum foi um grito de protesto, um exame apaixonado e às vezes farisaico dos limites de sua profissão por um programador de computadores. O livro não fez com que o autor ganhasse a aceitação de seus pares. Depois que foi publicado, Weizenbaum foi expurgado como herético pelos principais cientistas da computação, especialmente aqueles que faziam pesquisas em inteligência artificial. John Mc Carthy [justamente o introdutor da expressão ‘inteligência artificial’], um dos organizadores da conferência original de IA de Dartmouth [ver o item 2.8 acima], falou por muitos tecnólogos quando, em uma resenha desdenhosa, descartou o O poder do computador e a razão humana com um livro ‘irracional’ e criticou Weizenbaum pelo seu ‘moralismo não científico’. Fora do campo do processamento de dados, o livro causou apenas uma breve comoção. Ele apareceu exatamente quando os primeiros computadores pessoais estavam saindo das oficinas dos aficionados para a produção em massa. O público, disposto a uma orgia de compras que colocaria computadores em quase todo escritório, casa e escola do país, não estava no estado de espírito para nutrir as dúvidas de um apóstata.” [pp. 281-2.]

Em seguida Carr entra em considerações sobre a influência das tecnologias: “Sempre que usamos uma ferramenta para exercer um maior controle sobre o mundo exterior, mudamos nossa relação com esse mundo. O controle só pode ser exercido com um distanciamento psicológico. Em alguns casos, a alienação é justamente o que dá o valor a uma ferramenta. Construímos casa … por que queremos ser alienados do vento, da chuva e do frio.” [pp. 287-8.]

O autor cita uma interessante pesquisa feita pelo psicólogo clínico Christof van Nimwegen usando um sistema de ajuda (help) para orientar a solução de um complicado quebra-cabeça. “Os achados indicaram, como van Nimwegen relatou, que aqueles [sujeitos] usando um software sem auxílios eram mais capacitados para planejar com antecedência e traçar estratégias, enquanto que aqueles usando o software com ajuda tendiam a se basear na simples tentativa e erro. De fato, verificou-se que aqueles com o software com ajuda ‘clicavam a esmo, sem propósito’ quando tentavam resolver o quebra-cabeça. Oito meses depois do experimento, van Nimwegen reuniu os dois grupos e solicitou que jogassem novamente o quebra-cabeça das bolinhas coloridas, assim como uma variação dele. Descobriu que os que haviam originalmente usado o software sem auxílios eram capazes de resolver os quebra-cabeças quase duas vezes mais rapidamente do que aqueles que tinham usado o software com ajuda. … Quanto mais as pessoas dependiam da orientação explícita dos programas de software, menos envolvidas ficavam na tarefa e acabavam aprendendo menos. … Um polemista colocaria a mesma coisa com menos rodeios: ‘Quanto mais brilhante o software, mais apagado o usuário’.” [pp. 291-2.]

Em seguida, Carr coloca esses resultados em relação com a Internet: “As companhias da internet estão em competição feroz para tornar mais fácil a vida das pessoas, para transferir a carga da solução de problemas e dos outros labores mentais do usuário para o microprocessador. … Nós queremos softwares [sic] amigáveis e com ajuda. Por que seria de outro modo? No entanto, à medida que cedemos aos softwares [sic] mais do esforço de pensar, ficamos mais propensos a diminuir a nossa capacidade cerebral de modos sutis, mas significativos. Quando alguém escavando valas troca a sua pá por uma escavadeira, os músculos de seus braços se enfraquecem mesmo que a sua eficiência aumente. Uma troca semelhante pode acontecer ao automatizarmos o trabalho da mente.” [p. 293.]

O autor relata em seguida um estudo feito na Universidade de Chicago por James Evans, que “reuniu uma enorme base de dados sobre 34 milhões de artigos de estudos publicados em revistas acadêmicas de 1945 a 2005.” O resultado foi surpreendente. “À medida que mais revistas passaram a ser on-line, os estudiosos na realidade citavam menos artigos do que antes. E, à medida que os antigos números de revistas impressas eram digitalizados e disponibilizados na web, os estudiosos citavam artigos mais recentes com frequência cada vez maior. O alargamento da informação disponível levou, como Evans escreveu, a um ‘estreitamento da ciência e da erudição’.” [p. 294.]

Voltando a Taylor (ver o item 2.8 acima), Carr diz: “Antes de Frederick Taylor ter introduzido seu sistema de administração científica, o operário individual, baseado no seu treinamento, conhecimento e experiência, podia tomar as suas próprias decisões sobre como fazer seu trabalho. Ele escrevia seu próprio script. Depois de Taylor, o operário começou a seguir um script escrito por outra pessoa. … A bagunça que vem com a autonomia individual foi arrumada, e a fábrica como um todo se tornou mais eficiente, e a sua produção mais previsível. A indústria prosperou. O que se perdeu com a bagunça foi a iniciativa pessoal, a criatividade e a extravagância. A artesania consciente se transformou em rotina inconsciente. Quando estamos on-line, também estamos seguindo scripts escritos pelos outros – instruções algorítmicas que poucos de nós somos capazes de entender, mesmo se os códigos ocultos nos fossem revelados. Quando buscamos informações pelo Google ou outros buscadores, estamos seguindo um script. Quando olharmos um produto que a Amazon ou a Netflix nos recomenda, estamos seguindo um script. … Em vez de agir conforme o nosso conhecimento e intuição, seguimos os movimentos.” [pp. 295-6.]

Em seguida, Carr cita uma pesquisa acadêmica que submeteu três dúzias de pessoas a “testes rigorosos, mentalmente fatigantes, para medir a capacidade de sua memória de trabalho e sua capacidade para exercer controle de cima para baixo sobre sua atenção. … Os sujeitos foram então divididos em dois grupos. Metade deles passou uma hora caminhando por um parque florestal isolado e a outra metade despendeu um igual período de tempo caminhando nas ruas movimentadas do centro da cidade. Ambos os grupos foram submetidos aos testes uma segunda vez. Passar um tempo no parque, descobriram os pesquisadores, ‘melhorou significativamente’ o desempenho nos testes cognitivos, indicando um incremento substancial da atenção. Caminhar na cidade, ao contrário, não acarretou nenhum aprimoramento dos resultados dos testes. … Passar um tempo no mundo natural parece ser de ‘vital importância’ para o ‘funcionamento cognitivo efetivo’.” [p. 297.] Carr acrescenta: “Não há … na internet nenhum local tranquilo onde a contemplação possa realizar a sua mágica de recuperação. Há somente a agitação infindável, hipnótica, das ruas urbanas. … Um dos maiores perigos que enfrentamos ao automatizarmos o trabalho de nossas mentes, ao cedermos o controle do fluxo de nossos pensamentos e memórias a um poderoso sistema eletrônico, é aquele que denunciam os temores tanto do cientista Joseph Weizenbaum como do artista Richard Foreman: uma lenta erosão do nosso caráter humano e da nossa humanidade.

Mas a internet não tem apenas um efeito deletério sobre a cognição. Citando uma pesquisa sobre atividades emotivas, o autor diz: “O experimento, dizem os estudiosos, indica que quanto mais distraídos nos tornamos, menos aptos somos a experimentar as formas mais sutis, mais distintamente humanas, de empatia, compaixão e outras emoções. … Seria precipitado concluir que a internet está solapando nosso senso moral. Não seria precipitado sugerir que, à medida que a net está fazendo o roteamento dos nossos caminhos vitais e diminuindo a nossa capacidade de contemplação, está alterando a profundidade de nossas emoções, assim como de nossos pensamentos. [p. 299.]

Para concluir, duas frases: “O avanço tumultuado da tecnologia poderia … abafar as percepções, pensamentos e emoções refinados que somente surgem com a contemplação e a reflexão.” [p. 301.]. No epílogo, Carr ainda escreve, remetendo-se ao início do livro (ver item 2.1 acima): “Essa é a essência da sombria profecia de Kubrick: à medida que passarmos a depender de computadores para mediar a nossa compreensão do mundo, então a nossa inteligência se achatará em uma inteligência artificial [it is our own intelligence that flattens into artificial intelligence].” [p. 305.]

3. Comentários

O livro é excepcional pela profundidade cultural, pela farta citação de trabalhos científicos e de livros, bem como de opiniões de outros dando base às ideias do autor ou corroborando-as, pela maneira interessantíssima com que os assuntos são expostos e pela sua fluência.

A tradução é razoável – note-se como nas citações no resumo acima foi necessário chamar a atenção para muito poucos problemas de tradução. Os trechos correspondentes só foram comparados com o original pois pareceram um pouco estranhos; no entanto, vários desses trechos correspondiam ao original.

Há duas diferenças em relação ao original. A primeira á a falta de um índice remissivo, muito importante para se localizar em que páginas são citados certos termos e nomes de pessoas. A segunda é o fato de as notas e referências terem sido colocadas em notas de rodapé, ao contrário do original, que as apresenta no fim. É muito incômodo ter que parar a leitura e ir para o fim do livro, tendo o trabalho de localizar a referência pelo seu capítulo e número. No entanto, quem sabe, no espírito do livro, o autor escolheu o método de colocá-las no fim justamente para que alguém que não se interesse por elas não desviar a atenção do texto principal. Porém, esse desvio de atenção é mínimo quando se tem que ler uma nota de rodapé na mesma página.

Tanto no original como na tradução, as referências bibliográficas, fora as notas de rodapé na tradução, estão divididas por capítulo. Isso dificulta a localização de algumas delas pelo nome do autor.

No restante deste artigo os trechos citados do livro foram copiados do resumo acima; para localizá-los, basta usar uma busca com o dispositivo de busca na página do navegador sendo usado, empregando uma parte da citação; para retornar ao trecho inicial, basta repetir a mesma busca. Uma outra possibilidade é abrir este artigo em duas páginas do navegador, e chavear entre elas, tomando-se o cuidado para que esse método não produza uma distração análoga ao do uso de vínculos (links), como Carr chamou a atenção.

O meu comentário principal sobre o conteúdo é a insistência do autor em chamar a atenção para as alterações que a Internet faz sobre o cérebro, como por exemplo em “Por meses, as minhas sinapses clamavam pela sua dose de net.” Obviamente, ele não sentia suas sinapses e seus neurônios, o que ele sentia era o efeito sobre sua mente, que é o que podemos observar conscientemente por meio de nosso pensar, nosso sentir e nosso querer. Curiosamente, Carr usa tanto a palavra ‘mente’ (mind), como em “A minha mente não estava indo embora, mas mudando.”, “Minha mente era capturada”, “a minha mente agora espera receber informação”, quanto a palavra ‘cérebro’, como em “[As pessoas] tinham que treinar seus cérebros para ignorar tudo o mais que estava ocorrendo ao seu redor”, “alguém, ou algo, tem estado mexendo com meu cérebro”, “Sentia saudades de meu antigo cérebro.”, “O próprio modo como meu cérebro funcionava parecia estar mudando.” Assim, a menos dos casos de relatos de pesquisas feitas diretamente no cérebro, por exemplo com tomografia, o correto seria usar ‘mente’. Ele diz que se usa tanto termos computacionais para o funcionamento do cérebro (como “‘circuitos’, ‘conexões’, ‘inputs’ e ‘programação’”, que “não percebemos mais que estamos falando metaforicamente.” No entanto, a ênfase que ele dá ao cérebro e não à mente não corresponde a metáforas.

Aparentemente, em boa parte do livro parece que Carr não faz distinção entre mente e cérebro. Mas eu faço.

Para mim a influência da Internet (e também dos outros meios eletrônicos TV, video games e computadores) se dá principalmente na mente, que considero englobar o cérebro mas ser muito mais do que este. O cérebro é essencial para a mente ter consciência dos processos mentais. Considero os processos cerebrais como sendo normalmente produzidos pela mente de maneira análoga ao movimento de um braço, que não é originalmente produzido por ele, mas por um impulso de vontade, consciente ou inconsciente; em ambos esses casos, considero que a origem dos impulsos que levam àquele movimento é a mente; esta pode, obviamente, ser excitada por um outro evento, como o calor de um fogo próximo ao braço ou uma picada de um espinho, o que não deixa de ser um impulso de vontade. Seguindo a concepção introduzida por Rudolf Steiner (ver, por exemplo, [Steiner 2008]), considero que as atividades interiores pensar, sentir e querer não se originam no cérebro, apesar de este tomar parte desses processos, isto é, pode-se considerar o cérebro com uma parte física da mente. Daí uma lesão cerebral poder alterar ou mesmo impedir alguns aspectos dessas funções. Note-se que, contrariamente ao que admite António Damásio [Damásio 1994] e outros autores, não se pode afirmar cientificamente que essas lesões indicam que esses processos, e também a memória, localizam-se exclusivamente no cérebro ou são geradas por ele. O máximo que se pode afirmar cientificamente é que o cérebro participa dessas funções. Observe-se que todas essas funções são grandes incógnitas na neurociência, que hoje em dia utiliza primordialmente o modelo computacional do cérebro. No entanto, para começar, não se conhece o código usado por ele, nem os algoritmos que o interpretam. Sem um código, não há computação. Parece-me que, dada a quantidade de neurônios no cérebro (86 bilhões, segundo as pesquisas mais recentes [Zorzetto, p. 21]), e o talvez trilhão de sinapses conectando-os, e ainda o fato de que células biológicas não têm um comportamento elétrico preciso, o resultado sem um controle ‘externo’ seria puro ruído, e nossas funções mentais e motoras seriam totalmente aleatórias. Para mim, esse controle é exercido pela mente. Carr diz que a memória “tem quase infinitas gradações”; ora, qual a diferença entre “quase infinitas” e ‘infinitas’? Suas afirmações e citações de que “o cérebro nunca fica cheio”, e “[o] que pode ser armazenado na memória de longo prazo é virtualmente ilimitado”, levam à conclusão de que a memória é infinita e, portanto, não reside no cérebro, que é finito, como mostra o número de neurônios citado acima. Aliás, Carr diz que ela é um “mistério”. Ele cita as hipotéticas memórias de curto prazo (ou de trabalho) e de longo prazo, mas não se sabe qual o processo que faz como que algo ‘passe’ de uma para a outra. Não se sabe nem mesmo como algo está ‘armazenado’ nessas memórias, e onde elas se encontram precisamente. A propósito, ele não cita o esquecimento e posterior lembrança de algo como uma distinção essencial para as memórias digitais: nestas, ou algo está gravado, ou não está. Uma indicação de que a memória não está armazenada no cérebro e, sim, na mente, é o fato de uma certa lesão provocar a perda da lembrança de certos fatos, mas com o tempo, ela poder voltar.

O livro não descreve as transformações produzidas pela Internet no cérebro, apenas diz vagamente que elas existem. É curioso que muitas pesquisas por ele citadas, especialmente as do item 2.5 acima, mostram a influência da Internet em capacidades mentais, como memorização e compreensão, e não envolveram exames do cérebro. Um exemplo é a citação de uma delas referindo-se a “transformações interiores da consciência” e não ‘do cérebro’. De qualquer modo, aprecio o que ele traz de considerações e, principalmente, citações de trabalhos científicos, sobre as alterações produzidas no cérebro pelo uso da Internet, já que isso dá um aspecto científico, de certeza dos resultados e, principalmente, é o que hoje em dia dá objetividade e credibilidade às afirmações e convence as pessoas.

Curiosamente, Carr parece admitir que o cérebro não é um computador ou uma máquina, como por exemplo na consideração negativa “Se nosso cérebro é computador … A inteligência humana se torna indistinguível da máquina.” No entanto, ele usa muitas vezes a expressão de que o cérebro processa informação ou dados, como por exemplo na frase “o cérebro humano continua a processar a informação por muito tempo depois de tê-la recebido, …”. Isso é indevido. Em primeiro lugar, deve-se fazer uma distinção entre dado e informação. Como expus em meu artigo “Dado, informação, conhecimento e competência” [Setzer 2008b] dado é uma sequência de símbolos quantificados ou quantificáveis, sujeitos a regras formais de formação. Informação requer compreensão por parte do receptor; um computador não processa informações, processa dados. Por exemplo, para quem não entende chinês, um texto nessa língua, por exemplo uma tabela de cidades e suas temperaturas mínima e máxima no dia anterior, como é publicada em jornais, é uma coleção de dados; como essa pessoa não compreende o que o texto representa, não lhe traz nenhuma informação. O cérebro, sendo físico, só pode processar dados, como bem expôs John Searle [1991], especialmente no seu capítulo 2, “Can computers think?” (“Os computadores podem pensar?”), com sua metáfora do “Quarto Chinês” [pp. 32-3]. Nela, um operador que não fala chinês faz traduções desta língua para o inglês seguindo regras estritas de combinações de ideogramas, sem entender patavina do que está fazendo, isto é, age como um computador. O fato de termos compreensão significa que no cérebro há algo além de execução de regras estritas. Segundo Searle, o cérebro é um sistema puramente físico [p. 39], mas não é um computador, que é uma máquina puramente sintática, pois segue regras estritas, matemáticas, de manipulação de símbolos formais. No entanto, ele não é capaz de dizer o que o cérebro é e de onde aparece a semântica, a compreensão. Posso, portanto, fazer a conjetura de que só com o cérebro não chegaríamos à compreensão, ao significado; para isso, é necessário ter uma mente que, apesar de englobar o cérebro, transcende a ele. Tenho muito mais a dizer sobre isso, mas iria muito longe.

No seu cap. 8 “A igreja da Google” Carr critica a visão computacional do cérebro e da mente que, segundo essa visão, são idênticos. Felizmente existem exceções entre os cientistas: ninguém menos do que Roger Penrose, em seu magnífico livro The Emperor’s New Mind [1991] afirma categoricamente não encarar o cérebro como um dispositivo computacional, isto é, ele acha que o funcionamento do cérebro não poderá ser descrito algoritmicamente. Mas Carr não aponta para a razão profunda de se adotar aquela visão, e nem para o fato de ser a visão corrente da neurociência. Essa razão é o fato de a concepção de mundo da grande maioria, senão a quase totalidade dos cientistas, especialmente os neurocientistas, ser o materialismo, isto é, a de que só existem matéria e energia físicas no universo. Por outro lado, um espiritualista coerente, isto é, alguém que admite (idealmente, como hipótese de trabalho) a existência de algo não físico no ser humano e no universo, jamais deveria dizer que o cérebro e mente são a mesma coisa, e jamais deveria encarar o cérebro como um computador. É interessante notar que em certos trechos Carr parece distinguir mente de cérebro; no entanto, não chega ao ponto de afirmar que a mente não é física, como eu faço. No entanto, sua observação de que ela está “entremeada” com o cérebro parece-me perfeitamente correta. Sem o cérebro, a mente não teria certas capacidades, como a autoconsciência e, portanto, uma pessoa não poderia controlar seu pensamento. Por exemplo, qualquer pessoa pode fazer a experiência de escolher um entre dois pensamentos triviais, isto é, não ligados com nenhum sentimento ou necessidade pessoais – como o caso de dois números sem nenhum significado, ou a imagem de dois clips de papel, um voltado para a direita e outro para a esquerda –, e em seguida concentrar-se sobre um deles por alguns instantes. A possibilidade dessa escolha consciente mostra, para a pessoa que faz esse exercício mental, a possibilidade de o pensamento se autodeterminar, isto é, ser livre, o que é impossível em uma máquina ou qualquer sistema puramente físico, pois a matéria está inexoravelmente sujeita às ‘leis” e condições físicas – se assim não fosse, não seria possível projetar e construir obras civis e máquinas.

O primeiro capítulo “Digressão” do livro tem o título “Sobre o que o cérebro pensa quando pensa em si mesmo” [p. 59.] Ora, pois, como será que Carr se expressa em sua vida diária? Provavelmente, por exemplo, “Eu penso que vai chover nesta tarde.” e não “Meu cérebro pensa que vai chover nesta tarde.” Assim, aquele título não corresponde à sua própria atitude, que se refere ao seu Eu, sua individualidade, algo muito maior do que o seu cérebro. Em outro trecho, ele escreve: “Podemos ver os produtos do pensamento – obras de arte, descobertas científicas, símbolos preservados em documentos –, mas não o próprio pensamento.” [p. 76.] Sim, não podemos ver o nosso pensamento, mas podemos observá-lo com ele próprio. De fato, o pensar pode refletir sobre si próprio, uma atividade única no universo, chamada por Rudolf Steiner de “estado de exceção” do pensar, pois este normalmente está dirigido às percepções sensoriais ou à memória [Steiner 1988]. Nesse estado de exceção, a ação (pensar) confunde-se com o objeto da ação (o pensar). Jamais uma máquina ou um sistema físico poderão fazer tal coisa; trata-se de um fenômeno puramente humano, único no universo. O título daquela digressão é, portanto, muito significativo, mas incorreto: não é o cérebro que pensa sobre si próprio, é o pensar que o faz, mostrando assim que ele transcende o sistema físico do cérebro.

Qual o problema de confundir mente com cérebro? Se todas as atividades mentais são geradas pelo cérebro, como este é físico tudo se passa como se ele fosse uma máquina ou, na melhor das hipóteses, um sistema puramente físico, talvez usando tipos de energia desconhecidos, mas físicos, como querem alguns filósofos. O ser humano todo seria então puramente físico, material. Acontece que da matéria não pode advir liberdade, como foi exposto. Sem livre arbítrio, não se pode falar de responsabilidade pessoal, nem de moral e nem de amor altruísta. Com isso, há uma profunda e perigosa degradação da concepção que o ser humano faz de si próprio. Pelo contrário, admitindo-se como hipótese de trabalho que a atividade cerebral é consequência de uma mente não física, é possível falar-se em livre arbítrio e em todo o resto descrito, e se pode ter uma elevada concepção do que o ser humano é. Falando-se em cérebro, como faz Carr com frequência, e até no título do livro, não se deixa a possibilidade de haver algo transcendente no ser humano em relação à matéria. Falando-se em mente, deixa-se pelo menos essa possibilidade em aberto.

A maior falta do livro parece-me ser o enfoque dos efeitos da Internet apenas em adultos. Curiosamente, Carr menciona rapidamente, em suas entrevistas, o problema do uso por crianças, por exemplo em [Leite 2010 e Castro 2012], dizendo que elas devem familiarizar-se com a Internet. No item 4 abaixo, Complementações, faço considerações sobre esse ponto e os efeitos dela em crianças e adolescentes.

O livro também peca pela falta de recomendações para o leitor precaver-se contra os males da Internet apontados. Isso foi uma intenção do autor, que disse em uma entrevista: “Não escrevi o livro para ser do tipo autoajuda.” [Leite 2010]. Dessa maneira, Carr deixa o leitor em liberdade para escolher as medidas que achar melhor. No entanto, vimos no item 2.1 “Confissão do autor: como o livro foi escrito” que ele relata sua própria experiência do que fez para livrar-se de parte dos males da Internet. No item 5 abaixo, Recomendações, dou várias sugestões nesse sentido, pois algumas certamente não ocorreriam aos leitores do livro.

4. Complementações

O conteúdo do livro fez-me lembrar daquele que considero o principal livro de Neil Postman, Amusing Ourselves to Death [Postman 1986], autor citado por Carr, mas com relação a outra de suas excelentes obras, Tecnopólio [Postman 1994]. Naquele livro, um dos melhores libelos contra a TV como veículo de comunicação já publicados, Postman mostra que, com o advento do telégrafo, os jornais, que antes quase só traziam notícias locais, isto é, dentro do contexto dos leitores, passaram a trazer notícias de regiões distantes, que se tornaram atraentes não pela relevância local, mas pela atualidade. As redes sociais na Internet introduziram a comunicação imediata entre muitas pessoas, tornando a atualidade uma atração em si, independente da sua relevância. Que importância tem para meus conhecidos ou pessoas que se interessam pelas minhas ideias saber que estou entrando em um supermercado ou no banheiro, ou minha opinião sobre a temperatura no momento? Parece-me que se trata de uma atração pelo imediatismo e um endeusamento da irrelevância. Mas o que se poderia esperar de pessoas que gostam de assistir TV? Mais da metade de toda a humanidade é bestificada pela TV todos os dias (em uma média ao redor de 4 horas por dia); com isso, ela constitui-se na maior tragédia que já existiu.

Carr não menciona o condicionamento produzido pela Internet. Antes de abordar esta última, vejamos inicialmente o condicionamento produzido pela TV. Como já foi provado neurofisiologicamente, o aparelho de TV induz normalmente um estado de sonolência nos telespectadores. Por isso ela produza a gravação das imagens diretamente no subconsciente ou no inconsciente. Todas as vivências de uma pessoa ficam gravados nela; por exemplo, o leitor deste artigo não será exatamente o mesmo depois de tê-lo lido. A grande diferença em relação à TV é que um texto escrito exige atenção para ser compreendido. A gravação das imagens no subsconsciente é que produziu um casamento perfeito entre a TV e a propaganda. Cerca de 2/3 dos gastos com propaganda no Brasil vão para a TV – não só por ser o veículo de comunicação mais difundido (98% dos lares no Brasil têm pelo menos um aparelho de TV), mas certamente porque essa propaganda funciona: grandes empresas não iriam gastar rios de dinheiro em propaganda na TV se ela não funcionasse. Ela funciona devido à gravação das imagens transmitidas diretamente no subsconsciente. Devido a isso, o telespectador pode sentir um desejo por um determinado produto sem saber por que. Em outras palavras, a TV tem um efeito subliminar por natureza. Pois bem, o efeito de distração produzido pela Internet, tão bem salientado por Carr, talvez produza esse efeito subliminar em relação à propaganda que ela exibe. Veja-se a página inicial (home page) de qualquer site de banco, de empresa, de jornais e de muitas instituições e associações, para se verificar que em geral ela tem uma quantidade imensa de informações, em forma de caixas de textos, imagens e muitas vezes animação. Uma página com uma enxurrada de seções distintas tornou-se um padrão na Internet, isto é, uma página que não tem esse formato parece deslocada, antiquada. Certamente nenhum usuário observa atentamente cada um desses trechos da tela, isto é, os que não são observados passam a ter um efeito subliminar, pois é registrado pelo subconsciente. Quando se abre um e-mail usando o webmail gmail, aparece no lado direito uma porção de anúncios. Eu uso o gmail, devido à sua praticidade, mas jamais olhei e abri algum desses anúncios; no entanto, talvez eles tenham um efeito subliminar sobre mim, pois o meu subconsciente deve ter gravado todos eles. Esse efeito subliminar constitui o cerne do interessante livro de Wilson Bryan Key; ele mostra, por exemplo, a foto de uma capa de um número da revista Time onde aparece Muamar Kadaffi [Key 1989, fig. 9]. Em outra foto, ele mostra a anterior salientando uns traços que formam a palavra kill, matar, desenhada, portanto, subrepticiamente no rosto [fig. 39]. Não se deve esquecer que os Estados Unidos é o país da propaganda; nele, ela é venerada como algo essencial para o funcionamento da sociedade, sem haver a consciência de que ela vai contra a liberdade individual, tão prezada naquele país. Em minha caracterização, propaganda é a ciência, a técnica e a arte de influenciar pessoas a fazerem algo que não fariam sem essa influência. O efeito subliminar é parte dessa influência – talvez a parte mais essencial. Aparelhos com tela são ideais para se produzir esse efeito; só a existência de uma frase ou figura ao lado de um texto que se está lendo já o produz. O ser humano devia estar desenvolvendo cada vez mais consciência em seus atos, isto é, pensar antes de agir; a propaganda vai justamente contra esse tendência, que vem principalmente desde o século XV. Animais não pensam antes de agir – agem por instinto ou condicionamento; nesse sentido, a propaganda animaliza o ser humano.

O gmail da empresa Google coleta dados de todos os e-mails recebidos e enviados por um usuário, formando com isso um perfil dele. Com esse perfil, o gmail tenta exibir, ao lado de cada e-mailaberto, a propaganda mais adequada para o seu usuário. Certamente o google docs – onde se podem armazenar arquivos com textos, planilhas etc., e inclusive compartilhá-los com várias pessoas – deve fazer isso. Não instalei o navegador Chrome da Google (uso o Firefox, da Mozilla) pois não quero que ela colete ainda mais dados sobre mim do que já faz com o gmail, isto é, aperfeiçoando o meu perfil nela gravado a partir das páginas que visito. (Mas não duvido que, se abro uma página acionando um vínculo em um e-mail do gmail, isso é registrado pela Google.) Possivelmente qualquer sistema da Google que exija um cadastramento prévio e uma identificação (log-in) do usuário em cada uso produz a coleta de informações sobre a utilização que se faz do sistema.

Essa coleta de informações significa também um efeito terrível da Internet: ela está servindo como o veículo para a perda da privacidade. Mais ainda, por meio das redes sociais, do tipo Facebook, Orkut e Twitter, ela está servindo para impor a mentalidade de que não deve haver privacidade. O usuário deseja que outros saibam o que ele está fazendo, o que ele gosta etc. A diminuição da privacidade significa um outro prejuízo para a humanidade: a diminuição da individualidade, que também desenvolveu-se especialmente a partir do século XV. Por exemplo, antes da Renascença os artistas plásticos não costumavam assinar suas obras; muitas vezes não se distinguia uma obra como sendo de um mestre ou dos seus discípulos em sua escola, como foram os casos de Cimabue (1240-1302) e Giotto (1266-1337). Um famoso caso dessas assinaturas foi o logotipo adotado por Albrecht Dürer (1471-1528) com suas iniciais. Na antiguidade remota, o indivíduo sentia-se muito mais como membro de sua tribo, de sua comunidade ou mesmo de sua cidade (caso da Grécia antiga), nação ou império (como o romano), do que como indivíduo. Isto é, não havia a autoconsciência existente em nossos dias. Nesse sentido, juntamente com a diminuição da liberdade a Internet representa um retrocesso a tempos já ultrapassados. Qualquer desses retrocessos, como por exemplo o fundamentalismo religioso e estruturas hierárquicas de poder (inclusive no gerenciamento de empresas) implica numa degeneração da condição humana atual e como ela deve desenvolver-se no futuro.

Uma das principais complementações que tenho a fazer ao livro é sobre o impacto da Internet em crianças e adolescentes. Como expus em meu artigo “Os efeitos negativos dos meios eletrônicos em crianças, adolescentes e adultos” [Setzer 2008a], os meios eletrônicos não são adequados para crianças e adolescentes, pelo contrário, são altamente prejudiciais ao desenvolvimento sadio, especialmente o mental, mas também o físico, pois grande parte da epidemia atual de excesso de peso e de obesidade é devida à inatividade física frente aos aparelhos eletrônicos. No caso específico da Internet, o relato de Carr sobre como teve que mudar seus hábitos em relação a ela para poder escrever o livro, como descrito no item 2.1 acima, mostra que ela exige duas coisas essenciais: autoconsciência (para se reconhecer o que está se passando consigo próprio) e autocontrole (para se mudar conscientemente de hábitos). Ora, crianças e adolescentes estão justamente desenvolvendo essas capacidades; se já as tivessem plenamente desenvolvidas, estariam indevidamente comportando-se como adultos. Acontece que não deve haver queima de etapas em educação; uma criança que não foi infantil, mesmo que parcialmente, será provavelmente um adolescente e um adulto com problemas, principalmente psicológicos e sociais. Todos os meios eletrônicos, incluindo a Internet, têm um efeito absolutamente garantido: aceleram o desenvolvimento, especialmente o intelectual e o emotivo. Só que uma criança ou adolescente intelectualizados já são deturpados.

Quanto ao autocontrole, muito adultos não estão conseguindo controlar-se no uso da Internet, como por exemplo ao verificarem a todo momento se chegou algum e-mail ou mensagem novos, navegando sem parar, jogando jogos pela Internet etc.; como se espera que crianças e adolescentes vão consegui-lo? Mas não é apenas autoconsciência e autocontrole que a Internet exige. Ela exige também muito conhecimento e discernimento, para se distinguir o que é verdadeiro do que é falso (haja falsidade na Internet, como os famosos hoaxes, notícias falsas, como por exemplo uma que circula nela há anos, de que o governo inglês proibiu o ensino do Holocausto nazista nas escolas), o que é belo do que é feio, o que é bom do que é mau. Novamente, crianças e adolescentes também estão desenvolvendo conhecimento e discernimento. Mas isso me leva a dois outros grupos de pessoas para as quais a Internet não é adequada: pessoas sem cultura e idosos ingênuos. Conheço uma pessoa bem idosa, com muito conhecimento, mas que é ingênua a ponto de achar que, se um amigo envia uma mensagem, ela deve ser verdadeira – e mostrou isso justamente com o caso que citei, da proibição do ensino do Holocausto. Essa pessoa minha conhecida já distribuiu esse e-mail mais de 6 vezes, apesar de eu ter logo na primeira vez mostrado que era um hoaxdenunciado pelo próprio governo inglês e pela BBC.

Como bem salientou Carr, a Internet é produz muita distração, prejudicando as capacidades de “concentração e de contemplação”. Ora, crianças e adolescentes deveriam estar desenvolvendo essas capacidades; sem concentração é, por exemplo, impossível estudar. Em lugar de desenvolver essas capacidades, com a Internet (e com os meios eletrônicos em geral) elas desenvolvem justamente o contrário: a incapacidade para exercê-las. Um adulto, como foi o caso de Carr, como ele próprio se descreve no item 2.1 acima, tem sua capacidade de concentração prejudicada, e isso é muito ruim. Mas prejudicar o desenvolvimento dessa capacidade em crianças a adolescentes pode significar um mal para toda a vida.

Além dos prejuízos que a Internet causa em crianças e adolescentes para seu desenvolvimento sadio, há um ou outro aspecto extremamente grave: o perigo representado pelos predadores, especialmente pedófilos e maníacos sexuais. O livro de Gregory Smith, Como Proteger seus Filhos na Internet [2009], trata justamente desse problema gravíssimo e assustadoramente comum: uma enorme porcentagem de crianças e adolescentes que usam a Internet já sofreram assédio durante seu uso, trocaram mensagens com pessoas desconhecidas e fizeram acesso a sites indesejáveis. A respeito desse livro, ver minha resenha [Setzer 2008c].

Carr não o diz explicitamente, mas mostra perfeitamente como a tecnologia não é neutra. Assim como a Internet influencia as atitudes e até fisicamente os seus usuários, qualquer máquina tem esse efeito. No fim do cap. 10, “Uma coisa como eu” ele cita o filósofo alemão Heidegger (que se engraçou com os nazistas mas depois foi redimido por ninguém menos que sua ex-estudante e namorada, a famosa filósofa judia Hanna Arendt): “Na década de 1950, Martin Heidegger observou que ‘a onda de revolução tecnológica’ iminente poderia ‘cativar, enfeitiçar, deslumbrar e distrair de tal forma o homem que o pensamento calculista poderia um dia vir a ser aceito e praticado como o único modo de pensar.” [pp. 300-1] Ele cita o famoso ensaio de Heidegger [1949], “The question concerning technology”: “Esse ‘frenesi da tecnologia’, escreveu Heidegger, ameaça ‘entricheirar-se em toda parte’.” [p. 301.] Pois justo no terceiro parágrafo desse ensaio, Heidegger escreveu: “Em toda parte, nós permanecemos sem liberdade e acorrentados à tecnologia, tanto se nós a afirmamos ou negamos. Mas nós somos entregues a ela da pior maneira possível se a encaramos como algo neutro; pois essa concepção que se faz dela, à qual [concepção] nós apreciamos especialmente prestar homenagem, torna-nos totalmente cegos para a essência da tecnologia.”

Acontece que nada, absolutamente nada é neutro em relação ao ser humano, pois este incorpora todas as suas vivências. Por exemplo, ao ler este artigo, o leitor vai se modificando um pouco, incorporando o que lê e pensa durante a leitura. Ao final dela, a pessoa não é mais exatamente a mesma que era quando a começou.

Como Carr cita, é necessário manter sempre um “distanciamento psicológico” em relação à tecnologia. Isso é fácil de compreender: se a pessoa envolve-se sentimentalmente com uma tecnologia, por exemplo gostando dela como gostaria de uma pessoa ou animal, não consegue usá-la objetivamente como simples instrumento, e pode vir depender dela e ser dominado por ela. Mencionei envolvimento com pessoas, animais e não com plantas e minerais pois os dois primeiros têm sentimentos, os últimos não. Pode-se admirar uma máquina pela maneira inteligente e estética como foi projetada, bem como por sua utilidade. No entanto, respeitar, venerar ou amar uma máquina são aberrações. Envolver-se emocionalmente com máquinas pode levar a uma consequência terrível: não fazer mais distinção entre seres humanos e máquinas, isto é, considerar os primeiros como máquinas. Isso é particularmente perigoso com o computador. Como Joseph Weizenbaum, citado por Carr, muito bem questionou, “O que tem o computador que elevou a visão do homem como uma máquina a um novo nível de plausibilidade?” Acontece que o computador simula certos tipos de pensamento humanos, de modo que, no ponto de vista do pensar, essa atividade mais poderosa do ser humano, pode haver uma confusão de que este pensa como um computador processa dados. Essa é, por sinal, a mentalidade dos neurocientistas em geral, bem exemplificada no livro de Miguel Nicolelis [2011]. Além disso, o computador dá uma sensação de poder (a máquina sempre executa o que se lhe comanda, a menos de raros casos de pane), e apresenta um ambiente virtual muito rico que, justamente por ser virtual, aliena o usuário da realidade, especialmente de seus próprios problemas. No caso da Internet, tem-se ainda o fato de ela ser atrativa por provocar distração, como Carr chamou muito bem a atenção.

Carr não cita o fato de certas pessoas afirmarem que o ser humano vai adaptar-se ao computador e à Internet, e sobreviver a eles, como já fez com outras tecnologias. (Mas será que realmente estamos sobrevivendo, ou em grande parte sendo destruído por elas? Ninguém mais duvida que a tecnologia está destruindo a natureza; pouca gente percebe que ela também está destruindo o ser humano.) É importante considerar que é inválido comparar o computador com outras máquinas. Nunca houve uma máquina que simulasse um certo tipo de nossos pensamentos (os algorítmicos) como ele, e exigisse que, para ser inserido nele, tudo tivesse que ser transformado em uma lógica simbólica discreta, algorítmica. Mal e mal nós sobrevivemos à industrialização (mas por quanto tempo ainda, já que ela está destruindo a natureza?), mas isso não significa que sobreviveremos ao computador.

Como descrevi no ensaio “A missão da tecnologia” [Setzer 2007], considero que a tecnologia tem uma missão: libertar o ser humano das forças da natureza interiores e exteriores a ele. No entanto, em lugar de libertá-lo, ela está escravizando o ser humano, e toda a natureza. Temos que mudar essa situação; essa mudança passa necessariamente pela consciência dos efeitos que a tecnologia – não só as máquinas, mas substâncias etc. – têm sobre a natureza e sobre nós. Nesse sentido, o livro de Carr é uma valiosa contribuição.

Quem tem os olhos e a mente bem abertos pode observar algo muito importante: a tecnologia está destruindo a natureza e o ser humano. Uma das maneiras mais seguras de destruir esse último é destruir a mente das crianças e adolescentes, e é justamente o que a Internet, junto com os outros meios eletrônicos, está fazendo, como mostrei acima.

5. Recomendações

Como já citado, Carr declarou que seu livro não tinha recomendações explícitas aos usuários da Internet pois não era de autoajuda [Castro 2012]. Pois é justamente isso que será feito neste item: serão dadas ao leitor recomendações imediatas, isto é, a serem seguidas durante o uso do computador e da rede; de curto prazo, para serem executadas de vez em quando, interrompendo-se por um breve período esse uso; e a longo prazo, para serem executadas regularmente como atividades de vida que visam equilibrar os males produzidos pela Internet. A razão da inserção dessas sugestões neste artigo deve-se ao fato de que várias delas não seriam pensadas por grande parte, senão a totalidade dos leitores, pois derivam de minha experiência pessoal e de minha concepção de mundo, que é bem distinta da normal.

Há algo em comum entre todas as recomendações dadas a seguir: todas visam contrabalançar os efeitos negativos da Internet por meio de atividades opostas às que ela normalmente obriga. Por exemplo, já que ela produz distração, algumas levam ao desenvolvimento da concentração mental; já que ela força pensamentos abstratos e apresenta imagens prontas na tela, algumas incentivam um pensar mais vivo, com sentimentos, e a criação de imagens mentais; já que ela obriga a uma passividade corporal, algumas sugerem exercícios físicos, e assim por diante.

5.1 Atividades imediatas

A primeira recomendação imediata é óbvia ululante. Já que seguir os vínculos (links) imersos em um texto produz distração, com consequente menor absorção e memorização do conteúdo, como foi visto no item 2.5 acima, é essencial que se leia um texto até o fim, e só depois disso escolha-se algum vínculo para se desviar para uma segunda página. A recomendação é recursiva, isto é, se nessa segunda página houver um vínculo para uma terceira, deve-se inicialmente terminar de ler o texto da segunda, para eventualmente se desviar para a terceira. Isso vale também para imagens e vídeos, que devem ser adiados até o fim da leitura do texto com vínculos para eles.

A segunda recomendação imediata refere-se às multitarefas. Deve-se treinar a disciplina e se concentrar numa única tarefa, por exemplo ao ler um texto não acionar um outro programa como um processador de e-mails. Ao escrever um e-mail, não examinar a caixa de entrada para ver se chegou um outro e-mail. Se o processador de e-mails tiver um aviso sonoro de que chegou um novo e-mail, deve-se desligá-lo, para não se ter que combater a ânsia de verificar o que chegou. Como o próprio Carr descreve em relação a si próprio como citado no item 2.1 acima, o ideal seria ler a caixa de entrada no máximo uma vez por dia; se for possível passar mais do que um dia sem lê-la (isto é, se não serão acumulados muitos e-mails), o melhor ainda é verificá-la com intervalo de alguns dias.

A terceira recomendação imediata consiste em, ao abrir-se uma página com muitas informações independentes (textos, imagens, animação), concentrar-se naquilo que se está procurando, e não se distrair com o restante.

Uma quarta recomendação é de se usar o mínimo possível sistemas de ajuda (help) no uso de um software. Carr citou a pesquisa de C. van Nimwegen com pessoas que usaram um tal sistema para um jogo virtual de quebra-cabeças, concluindo que “Quanto mais as pessoas dependiam da orientação explícita dos programas de software, menos envolvidas ficavam na tarefa e acabavam aprendendo menos.” e “Quanto mais brilhante o software, mais apagado o usuário.” Isso leva a uma quinta recomendação imediata clara: procurar-se compreender a lógica dos programas e deduzir como funcionam, em lugar de seguir receitas. A regra geral é simples: deve-se usar o raciocínio o máximo possível, e não o menos possível, como forçado pela Internet – mas também pela TV, pelos video games e, em geral, pelo software do computador. A situação em relação ao computador é paradoxal, pois trata-se de uma máquina que simula certos tipos de nossos pensamentos e, portanto, deveria incentivá-los, e não abafá-los.

5.2 Atividades de curto prazo

A recomendação fundamental de curto prazo é estabelecer-se um período para uso contínuo da Internet, seguido de um período de intervalo sem se usar o computador. Um período de 50 minutos, seguido de 10 minutos de intervalo parece razoável. Existem programas livres que soam um alarme em momentos ou intervalos determinados, que no caso deveria ser de 1 hora. O programa Mindfulness Bell usa o navegador de Internet e soa um gongo a cada intervalo de tempo que o usuário determina [Mindfulness Bell]; mais adiante será dada uma sugestão de como usá-lo. Pode-se também usar um cronômetro ou um timer. É absolutamente imprescindível que, atingidos os 50 minutos, interrompa-se imediatamente qualquer tarefa, pois com isso treina-se a força de vontade para reagir contra a Internet, e contra a atração que ela exerce. Obviamente, isso se aplica também ao uso do computador fora da Internet.

Há várias possibilidades para os 10 minutos sem usar o computador. Uma das mais simples é dar um passeio, fazendo assim uma atividade corporal que contrasta com a passividade imposta computador. O ideal desse passeio seria em meio a plantas. Como foi visto no item 2.10, houve uma pesquisa que mostrou que o aproveitamento de um texto é muito maior quando se passeia “por um parque florestal isolado” em lugar de por “ruas movimentadas”. Tenho uma explicação para isso: as plantas são calmas por natureza, pois não se movimentam por si sós. E, como Carr chamou muito bem a atenção, a mente necessita de períodos de tranquilidade. Além disso, toda planta é uma obra de arte da natureza – provavelmente por isso as pessoas preferem morar numa rua arborizada. Platão, em Sofista, diz: “Aquelas coisas, que se diz serem feitas pela natureza, são de fato feitas pela arte divina.” [Plato, seção 265, p. 578.] Assim, ele já tinha dividido as obras de arte em obras humanas e obras da natureza. É possível que a estética que se absorve ao contemplar uma planta tenha um efeito calmante sobre a mente, especialmente benéfico no caso de ela ser agitada pelo uso da Internet. É interessante realmente adotar uma atitude de contemplação, concentrando-se o pensamento e os sentimentos apenas nas plantas que se vê, admirando-se sua beleza, riqueza de formas e cores e, principalmente, sua metamorfose, tanto na própria estrutura (por exemplo, como as formas das folhas mudam conforme se percorre a planta do solo até a sua ponta, ou da origem de um galho até sua ponta) como na variação da forma com o tempo (por exemplo, como um botão de flor vai se abrindo no decorrer dos dias até atingir a forma de uma flor completa).

A concentração do pensamento é outra atitude de curto prazo. Durante o intervalo de 10 minutos, pode-se fazer um exercício de concentração mental com os olhos fechados. Basta pensar sobre um só tema, como por exemplo um objeto que está sobre a mesa, como um lápis. Deve-se fechar os olhos, criar uma profunda calma interior (um estado de espírito muito peculiar; é fácil reconhecer que se entrou nele), e pensar apenas sobre o tema ‘lápis’: a forma daquele que está sobre a mesa, sob vários ângulos, do que ele é feito, para que serve, como é apontado, como é produzido etc. Um contraexemplo de divagação mental é pensar-se que um lápis serve para escrever e se lembrar de que se deve deixar um bilhete para uma pessoa, que deve executar uma certa tarefa, pois se esta não for executada ocorrerá algo etc. etc., com nada mais a ver com o tema escolhido, ‘lápis’. O importante é fazer o esforço para concentrar o pensamento e se o observar constantemente, no ‘estado de exceção’ descrito no item 3 acima, impedindo que divague fora do tema escolhido.

O programa já mencionado [Mindfulness Bell], que soa um gongo a cada intervalo de tempo que se pode estabelecer, pode servir para se interromper as tarefas que se está fazendo com o computador, por exemplo a cada 15 minutos. A ideia dele é, ao soar o gongo, concentrar-se a atenção exclusivamente em seu som, até que este desapareça, eliminando-se qualquer pensamento ou sentimento que não tenha a ver com o seu som (infelizmente, trata-se claramente de um som artificial, e não a gravação do toque de um gongo real). Esse som é, no entanto, um recurso externo. O exercício mental de prestar atenção só nele já é muito bom, mas o ideal na concentração mental é que se foque o pensamento e os sentimentos apenas em um tema que se escolhe, por meio de um esforço exclusivamente interior, sem ajuda de nenhum recurso externo, como posição física, som ou música de fundo, incenso etc. Esses recursos são verdadeiras muletas mentais; quando uma pessoa sadia usa uma muleta para andar, prejudica seu passo e, a longo prazo, acaba prejudicando seus músculos e sua coordenação motora. O Mindfulness Bell pode servir de ponto de partida para essa atividade interior, isto é, concentre-se sobre o gongo, que poderia ser ajustado para soar a cada 30 minuos e, quando o seu som desaparecer, passe-se a concentrar sobre um tema de própria escolha por algum período de tempo, que pode ser relativamente curto, como 5 minutos.

Para os espiritualistas, a concentração mental pode ser feita sobre um tema espiritual, que não tem nada a ver com o mundo físico, como por exemplo os 5 primeiros versículos do Evangelho de João (“No princípio era o verbo [ou a palavra]” etc.). Nesse caso, a concentração mental transforma-se em meditação. Um livro excelente sobre meditação é o do professor de mecânica quântica Arthur Zajonc [2010]. Ele recomenda que, depois de uma concentração de alguns minutos, faça-se um total ‘silêncio’ interior, sem se pensar em alguma palavra – isto é, sem ‘falá-la interiormente’ – ou imagem. Isso é particularmente interessante quando se tem uma grande dúvida, que deve ser o objeto da concentração; às vezes no período de silêncio interior repentinamente tem-se a intuição da resposta. Esse método está se popularizando em universidades americanas, como ele relata no livro.

Uma outra possibilidade para um intervalo de 10 minutos é se fazer alguma atividade artística, como desenho de formas, preferivelmente com giz de cera (devido à maior plasticidade dos traços) ou desenho em geral (para desenvolver isso, basta treinar copiar fotos de um jornal ou revista, usando-se um lápis bem mole, como 4B ou 6B). Como em qualquer atividade artística plástica, o desenho produz uma imersão da atenção naquilo que se faz, havendo um verdadeiro ‘esquecimento’ do resto do mundo e das próprias preocupações, uma verdadeira terapia. Pode-se também desenhar com giz de cera; não é necessário fazer figuras, como de animais ou de seres humanos; nesse caso, simples jogos de cores já produzem um senso estético e uma certa calma interior. É importante reconhecer que qualquer atividade artística envolve pensamentos, mas não abstratos, conceituais ou formais, pois o espaço é mal definido, o contrário do espaço matematicamente bem definido apresentado pelo computador (excluindo-se o que se pensa sobre textos que se leem na tela); mas o mais importante é que a atividade artística sempre envolve sentimentos, de modo que necessariamente não se fica em pensamentos abstratos.

A arquitetura é a arte mais objetiva, funcional, terrena. A mais elevada é a poesia, pois não tem expressão física, principalmente a decorada, ‘falada’ interiormente, sem articulação sonora das palavras. A boa poesia desperta os sentimentos e faz as palavras transcenderem o mundo físico, como nas belas imagens de “Seus Olhos”, de Gonçalves Dias (1823-1864), cujas duas primeiras estrofes são:

“Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
     De vivo luzir,
Estrelas incertas, que as águas dormentes
     Do mar vão ferir;

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
     Têm meiga expressão,
Mais doce que a brisa, – mais doce que o nauta
De noite cantando, – mais doce que a frauta
     Quebrando a soidão [sic].” [Dias, pp. 34-6]

Ler poesia nos intervalos citados é excelente; melhor ainda é escrevê-las. Qualquer um pode fazê-lo, sem rimas ou métrica; basta começar para se desenvolver um interesse nessa atividade, lembrando-se de que o fundamental na poesia são as imagens e não a descrição conceitual da realidade. Decorar poesias é uma atividade mental excelente, pois também treina a memória. Para isso, comece-se decorando a primeira linha; ao se sabê-la de cor, ajunte-se a segunda linha, e assim por diante. ‘Falar’ uma poesia interiormente, de olhos fechados e em calma, acompanhando-a de sentimentos, é um extraordinário exercício de concentração mental, inclusive contrabalançando o pensar abstrato, formal, que se tornou tão comum hoje em dia e é imposto pelo uso do computador.

Uma outra possibilidade é usar os 10 minutos para ler um trecho de um bom romance. Todo romance exige a imaginação dos personagens e dos ambientes descritos. Assim criam-se imagens interiores, em vez de se ficar preso a eventuais imagens virtuais exibidas na tela.

Estando em casa, pode-se tocar um instrumento musical. Qualquer pessoa pode aprender a tocar flauta doce; uma de plástico, para iniciantes, custa baratíssimo. Para esse aprendizado, compre-se um método, siga-se-o consistentemente e, de vez em quando, consulte-se alguém que já a toca para corrigir algum eventual defeito e obter orientações.

Em lugar de se dar um passeio, como recomendado acima, pode-se fazer alguns exercícios de ginástica isométrica, como por exemplo colocar as mãos sobre a mesa, voltadas para baixo, com o cotovelo dobrado, e fazer-se pressão para baixo com o antebraço. Ou fazer-se um exercício de um dos bíceps, forçando para cima a mão de um braço com o cotovelo a 90º e a outra mão impedindo o movimento para cima. Outro exercício, para se fazer no lugar, mas com movimento, é fazer flexão de pernas, sentando-se em uma cadeira a cada movimento para cima. Fora do lugar, subir e descer escadas é um excelente exercício aeróbico; cuidado para descer nas pontas dos pés, para amortecer a força muito grande do impacto nos joelhos (devido ao peso da pessoa e a energia cinética do movimento). Estando-se em um prédio com muitos andares pode-se subir pela escada e descer por um elevador.

Outra possibilidade é combinar-se com um colega de trabalho para os dois interromperem o uso da Internet (ou do computador) ao mesmo tempo, passando a bater um papo durante o intervalo, sobre algum assunto que não tenha absolutamente nada a ver com seu trabalho ou atividade.

Obviamente, podem-se alternar essas atividades no decorrer do dia, especialmente entre as mentais e as físicas.

5.3 Atividades de longo prazo

As atividades de longo prazo visam contrabalançar os efeitos negativos do uso da Internet por meio de ações relativamente longas, a serem repetidas com regularidade, talvez quase todos os dias.

Muitas das atividades de médio prazo podem ser exercidas por períodos bem mais longos do que 10 minutos, como ler romances, tocar um instrumento musical, desenhar etc. Por exemplo, ler completamente um bom romance a cada mês ou dois meses, por períodos diários de pelo menos meia a uma hora. Essa leitura produz um processo interior de criação de imagens que compensa a avalanche de imagens exteriores a que se está sujeito ao usar um aparelho com tela, especialmente TV e a Internet. Essa avalanche tende a prejudicar a capacidade de se criarem imagens interiormente; qualquer atividade que incentive essa criação, como a leitura recomendada, produz uma recuperação e mesmo desenvolvimento dessa capacidade. Além disso, os sentimentos despertados por essa leitura provêm das imagens criadas interiormente, e não de imagens virtuais artificiais exteriores como é o caso dos aparelhos com tela.

Ao ler um livro científico ou filosófico, uma boa atividade é sublinhar as frases mais importantes, e fazer um índice com elas nas páginas em branco na frente ou atrás do livro, apontando para a página em que se encontram. Dessa maneira força-se a atenção e a concentração no texto. O índice serve para uma consulta posterior daquilo que mais chamou a atenção. O mesmo pode ser feito ao se ler artigos científicos ou filosóficos.

Aprender um instrumento musical, que não seja agitado como uma bateria, e tocá-lo por pelo menos meia ou uma hora diariamente, é também uma ótima atividade compensatória. Para os que têm ouvido musical, é excelente cantar em um coro; só quem teve essa experiência pode perceber como ela é gratificante, pois envolve algo social, feito em conjunto, onde as pessoas são obrigadas a se entrosar disciplinadamente em uma atividade feita em comum. É interessante notar que se pode usar a imagem da muleta vista no item 5.2 acima, para uma comparação entre cantar e tocar um instrumento musical. O canto não se utiliza de algo exterior para produzir sons; é, portanto, uma atividade mais ‘pura’ do ponto de vista humano. Além disso, qualquer instrumento musical moderno com teclas força ações mecânicas dos dedos. Tanto aprender a tocar um instrumento como a cantar exige algo importantíssimo: uma grande disciplina interior, o contrário da indisciplina produzida pelo computador e pela Internet. Observem-se os músicos de uma boa orquestra juvenil: é raro encontrar nela um jovem músico espevitado, parecendo uma pessoa desengonçada. É essa disciplina interior no intenso estudo de um instrumento que os faz agirem como pessoas concentradas, com autodomínio.

Outra atividade artística excelente é a leitura dramática em grupo e o teatro. Além de serem atividades sociais com interação real entre as pessoas (e não virtual, como imposta pela Internet), há continuamente a necessidade de se sentir a peça, para interpretar o que se denomina de ‘subtexto’. Um mesmo diálogo entre duas pessoas pode ser falado com um tom amoroso ou com um tom de briga. Essa interpretação depende exclusivamente dos sentimentos que se colocam na entonação de voz e nos gestos conforme a interpretação desejada. Fazer teatro, por ser uma atividade intrinsecamente social, significa ainda uma boa compensação para o isolamento produzido pelo computador ou a interação social virtual e, portanto, sem a presença física de outras individualidades; a presença de outras pessoas dá um caráter de realidade muito mais profunda, ampla e diferente do que o relacionamento virtual.

Essa questão de se ativar os sentimentos é absolutamente essencial nas atividades compensatórias em relação ao uso do computador e da Internet. Uma outra é o “distanciamento psicológico” imposto pela Internet, mencionado por Carr. Isso significa encarar a Internet objetivamente, sempre como um mero instrumento, e não se deixar envolver emocionalmente por ela e por seu conteúdo.

Uma recomendação muito importante é não usar o computador e a Internet à noite (e nem TV e video games!). O começo da noite deveria ser muito calmo; dessa maneira há uma preparação adequada para o sono profundo, que não pode ser sadio se antes dele se teve impressões agitadas e excitação interior. Se houver interrupção do sono durante a noite, jamais usar o computador e a Internet. Uma leitura de algo calmo (como poesias), ou uma atividade de concentração mental pode ajudar muito a se entrar novamente em um sono profundo.

Fora do uso da Internet, que muitas vezes obriga o uso de multitarefas, jamais fazer uma atividade intelectual acompanhada de outra simultaneamente. Muitas pessoas gostam de trabalhar, até intelectualmente, com fundo musical. Outras fazem exercícios de concentração mental com música de fundo ou com o cheiro de um incenso. Tudo isso são muletas mentais. Como já foi dito no item 5.2, uma pessoa sadia, ao usar muletas, prejudica seu passo e pode inclusive prejudicar os músculos a longo prazo. Analogamente, as pessoas deveriam fazer um esforço totalmente individual, interior, sem nenhuma ajuda exterior, para se concentrarem em atividades mentais. Dessa maneira elas treinam a capacidade de concentração. Mesmo na música clássica houve composições feitas para servirem de acompanhamento a outras atividades, com era a ‘Tafelmusik’, a música de mesa, para acompanhar as refeições. Mas, em geral, o ideal é que, ao ouvir uma música, se possa concentrar apenas nela, sem que ela sirva de pano de fundo para outra atividade.

Algumas recomendações sobre o uso da Internet por crianças e adolescentes. Levando em conta o que foi exposto no item anterior, se algum pai achar, erradamente, que a Internet deve ser usada por seus filhos crianças ou adolescentes, minha recomendação é a de que deve ele estar permanentemente ao lado dos filhos enquanto eles a usam, para evitar que façam acesso a sitesincompatíveis com sua maturidade ou mesmo perigosos. No livro citado de Gregory Smith [2009], ele recomenda para isso a instalação de dois tipos de programas: os que impedem acesso a sitesindesejáveis e os de gravação de todos os acessos feitos na Internet, para se controlar o que os filhos estão fazendo com ela. Comento essas sugestões na minha resenha sobre o livro [Setzer 2008c]. Com crianças isso é relativamente fácil; com adolescentes, quase impossível, a não ser que se crie essa mentalidade desde o começo. De qualquer modo, é preciso salientar que é facílimo controlar o uso de um computador pelos filhos em casa: é só não dar a senha do mesmo, e ativar-se a máquina pessoalmente. Estou ciente de que, no caso de adolescentes, será quase impossível impedir que usem a Internet na casa de amigos ou até em lan houses. O dinheiro dado para comprar um lanche poderá ser usado para pagar o acesso à Internet nesses locais. Ainda mais chance se dá ao filho quando este recebe uma mesada, o que considero absolutamente antipedagógico: para que uma criança ou adolescente devem ter dinheiro, para comprar aquilo que os pais não lhes comprariam? O argumento de que os jovens devem aprender a lidar com dinheiro o mais cedo possível é falacioso, pois a sociedade ensina isso no momento adequado; além disso, por que um jovem deve ter a preocupação de guardar e decidir como gastar o que guardou? No caso de adolescentes, o controle dos meios eletrônicos em casa em geral leva a discussões e brigas intermináveis e às vezes violentas. Com esses jovens, vejo uma só solução: deixar haver um prejuízo muito grande, como por exemplo no rendimento escolar, ou falta de sono, e aí proibir o uso em casa, liberando-o apenas em períodos pre-determinados. Gregory S. Smith recomenda em seu livro [2009, pp. 220-1] que se elabore um contrato especificando o que é permitido e o que é proibido fazer na Internet, com as penalidades correspondentes no caso de não cumprimento de cláusulas, a ser assinado pelos pais e cada filho, dando um exemplo de um desses contratos. Parece-me que isso deve funcionar muito bem a partir de uma certa maturidade, talvez a partir dos 12 anos de idade.

De qualquer modo, não ter acesso irrestrito à Internet em casa significa cortar o maior uso que um jovem faria da rede. Nesse sentido, o pior que se pode fazer em casa é colocar TV, jogos eletrônicos, computador e acesso à Internet no quarto dos filhos, pois aí não haverá absolutamente nenhum controle. Um conferencista alemão relatou que para evitar usos secretos do computador em sua casa, instalou-o no corredor. Um outro caso pior ainda é dar a um filho um smartphone com acesso à Internet.

Um pequeno detalhe para quem usa o gmail. Como descrito no item Complementações, provavelmente o gmail grava as páginas às quais se faz acesso ao se acionar um vínculo (link) que está no conteúdo de um e-mail. Analisando essas páginas, a Google vai aperfeiçoando o perfil do seu usuário, para dirigir-lhe propagandas relevantes a ele. Uma recomendação seria a de não se acionar o vínculo diretamente dentro de um e-mail, mas copiá-lo para a linha de endereço do navegador, desde que este não seja o Chrome, da Google, pois pela nova política de ‘privacidade’ da empresa, houve uma unificação de todos os cadastros e perfis dos usuários de todos os seus sistemas. Assim, os dados coletados examinando os e-mails de um usuário estão sendo colocados no mesmo arquivo que os dados coletados pelas páginas que ele visita usando o Chrome.

Uma síntese de todas essas recomendações é a seguinte: procurar fazer atividades físicas e mentais precisamente contrárias às que a Internet força em seus usuários. Como se pode bem depreender do que foi mostrado por Carr, por exemplo ao chamar a atenção para “uma lenta erosão do nosso caráter humano e da nossa humanidade”, o computador e a Internet produzem uma verdadeira poluição da mente. Portanto, é preciso exercer um pensar, um sentir e um querer ‘limpos’, ‘puros’, para que se a controle e não se seja controlado por ela, compensem-se os males que ela produz e se reaja contra a degradação da condição humana que resulta de seu uso descontrolado, exercendo-se atividades que equilibrem aqueles males.

6. Referências

  • Carr, N. The Shallows – what the Internet is doing to our brains. New York: W.W. Norton 2010.
  • Carr, N. A geração superficial – o que a Internet está fazendo com nossos cérebros. Trad. M.G.F. Friaça. Rio de Janeiro: Agir, 2011.
  • Castro, L. A Internet nos deixa desatentos? Entrevista com Nicholas Carr. Revista Mais Pão de Açúcar. No. 13, fev. 2012, pp. 86-89.
  • Damásio, A. Descartes’ Error – Emotion, Reason and the Human Brain. New York: Grosset/Putnam, 1994.
  • Dias, G. Gonçalves Dias – Seleção Poética. São Paulo: Círculo do Livro, ano? A poesia “Seus Olhos” está disponível na íntegra emhttp://www.blocosonline.com.br/literatura/poesia/pndp/pndp010715.htm
  • Heidegger, M. (1949). The question concerning technology. Disponível em http://www.wright.edu/cola/Dept/PHL/Class/P.Internet/PITexts/QCT.html e emhttp://www.lcc.gatech.edu/~xinwei/classes/readings/Heidegger/heidegger_techquestion2.pdf
  • Key, Wilson B. The Age of Manipulation – The con in confidence, the sin in sincere. New York: H. Holt, 1989.
  • Leite, M. Entrevista Nicholas Carr: A internet obriga a pensar de forma ligeira e utilitária. Folha de São Paulo, 20/9/2010, p. A14.
  • Mindfulness Bell. Disponível em http://www.fungie.info/bell/#
  • Nicolelis, M. Muito além do nosso eu: A nova neurociência que une cérebros e máquinas – e como ela pode mudar nossas vidas. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
  • Penrose, R. The Emperor’s New Mind – Concerning computers, minds and the laws of physics. New York: Penguin, 1991.
  • Plato. The Dialogues of Plato. Trad. B. Jowett, in Great Books of the Western World, Vol. 7.Chicago: Encyclopaedia Britannica. O trecho citado do diálogo Sofista está disponível em http://classics.mit.edu/Plato/sophist.html
  • Postman, N. Amusing Ourselves to Deathpublic discourse in the age of show business. New York: Penguin, 1986.
  • Postman N. Tecnopólio: A rendição da cultura à tecnologia. Trad. A.W. Parra. São Paulo: Nobel, 1994.
  • Roxo, E. Para Carr, internet atua no comércio da distração. Folha de São Paulo, 18/2/2012, p. E13.
  • Searle, J.R. Minds, Brains and Science – the 1984 Reith Lectures. London: Penguin, 1991.
  • Setzer. V.W. Os Meios Eletrônicos e a Educação: uma visão alternativa. 3ª ed. São Paulo: Escrituras, 2005.
  • Setzer, V.W. (2007). A missão da tecnologia. In [Setzer 2005, pp. 221-37]. Disponível em http://www.ime.usp.br/~vwsetzer/missao-tecnol.html
  • Setzer, V.W. (2008a). Efeitos negativos dos meios eletrônicos em crianças, adolescentes e adultos. Disponível em http://www.ime.usp.br/~vwsetzer/efeitos-negativos-meios.html

  • Setzer, V.W. (2008b). Dado, informação, conhecimento e competência. In [Setzer 2005, pp. 239-75]. Disponível em http://www.ime.usp.br/~vwsetzer/dado-info.html

  • Setzer, V.W. (2008c). Como proteger seus filhos e alunos da Internet. Disponível em http://www.ime.usp.br/~vwsetzer/como-proteger-resenha.html

  • Setzer, V.W. (2011a). O que a Internet está fazendo com nossas mentes. Apresentação em MS Power Point. Disponível em http://www.ime.usp.br/~vwsetzer/apresentacoes/Internet-mente.pps
  • Setzer, V.W. (2011b)O que a Internet está fazendo como nossas mentes. Gravação da palestra de 8/10/11 no Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São aulo. São Paulo, IPTV-USP. Disponível em http://iptv.usp.br:80/portal/Id.do?instance=0&id=usppmWAcfeY-2KVc3kwOz0FYCD1GWmv6HoIH9DSpGIBE88.&type=video
  • Smith, G.S. Como proteger seus filhos na Internet – Um guia para pais e professores. Ribeirão Preto, Novo Conceito, 2009.
  • Steiner, R. A Filosofia da Liberdade – Elementos de uma cosmovisão moderna. GA (Obra Completa) 4. Trad. A. Grandisoli (a partir de uma tradução em espanhol). São Paulo: Antroposófica 2ª ed. 1988. Existe outra tradução de 2000, a partir do original alemão, mas ela não é tão fiel ao original quanto a citada. Esse original está disponível em
    http://fvn-rs.net/index.php?option=com_content&view=category&id=1:ga-4-die-philosophie-der-freiheit&Itemid=2&layout=default
  • Steiner, R. O estudo geral do homem, uma base para a pedagogia. GA 293. Trad. R. Lanz e J. Cardoso. São Paulo, Antroposófica. 4ª ed. 2008.
  • Weizenbaum, J. Computer Power and Human Reason: From Judjement to Calculation. San Francisco: W.H. Freeman, 1976.
  • Zajonc, A. Meditação como processo contemplativo – Quando o conhecimento se torna amor. São Paulo: Antroposófica, 2010.
  • Zorzetto, R. Números em revisão – Recontagem de neurônios põe em xeque ideias da neurociência. Pesquisa FAPESP, No. 192, fev. 2012, pp. 18-23.

Agradecimentos

Agradeço a minha esposa Sonia A.L. Setzer por ter feito uma revisão da versão original do texto, a T. Coulbertson pela sugestão da página da Internet que gera periodicamente um som parecido com um gongo [Mindfulness Bell] e a Rogério Y. Santos e a Sérgio Tegon por terem apontado vários erros de digitação, incorporados na versão 1.3.

 

O BEM E O MAL DO PONTO DE VISTA DA ANTROPOSOFIA

Valdemar W. Setzer
www.ime.usp.br/~vwsetzer
Versão original: 2/5/11; esta: 16/5/11; armazenada em www.sab.org.br/antrop/setzer-bem-mal.htm;

Para abordar a questão do bem e do mal, assunto fundamental para a humanidade, é preciso em primeiro lugar tratar da missão dela: o desenvolvimento da liberdade e do amor altruísta. Note-se que, sem a primeira, o amor não pode ser altruísta. De fato, por maior que seja um ato de amor, se ele é motivado por instintos, prazeres, imposições, egoísmo, enfim, por qualquer coisa que não seja o que Rudolf Steiner, o fundador da Antroposofia, denominou “amor pela ação”, ele não é altruísta. Por exemplo, suponhamos que alguém doe dinheiro para uma instituição construir algo; se isso for feito em troca desse algo levar o nome do doador, a doação não é altruísta. Uma doação altruísta não deve conter absolutamente nenhuma amarra; a pessoa ou instituição que recebe a doação deve ter completa liberdade na aplicação do que foi doado.

Uma pessoa coerentemente materialista deve negar a possibilidade de o ser humano ter livre arbítrio, pois da matéria não pode advir liberdade. A matéria está sujeita às leis físicas, que são inexoráveis. Se não o fossem, não haveria nem prédios, nem máquinas, pois seria impossível projetá-los, construí-los e garantir que não cairiam ou que funcionariam, respectivamente. Uma interessante questão é: o ser humano físico é composto de matéria; como então ele pode ter liberdade? Acontece que, além de ser um ser físico, ele é um ser anímico e espiritual, isto é, tem em si algo não físico que age sobre o físico. Tenho uma teoria de como algo não físico pode atuar sobre a matéria sem violar as leis físicas: veja-se o cap. 6 de meu artigo “Por que sou espiritualista” emwww.ime.usp.br/~vwsetzer/espiritualista.html. Felizmente há raríssimos materialistas realmente coerentes; por exemplo, a quase totalidade dos acadêmicos e pesquisadores dizem-se materialistas, ou pensam materialisticamente, mas prezam acima de tudo a sua liberdade de ensino e de pesquisa, isto é, abominam interferências externas nessas atividades. Para mais detalhes, veja-se meu artigo “Ciência, religião e espiritualidade”, em www.ime.usp.br/~vwsetzer/ciencia-religiao-espiritualidade.html.

Somente um espiritualista pode admitir que o ser humano pode ser livre; a maneira correta hoje em dia é tomar isso com hipótese de trabalho, e não como crença. Há inúmeras evidências de que existe algo não físico no universo e no ser humano, como mostrei no meu primeiro artigo citado acima. Adianto que a liberdade humana deve começar pelo pensamento. De fato, não consigo usar meu corpo para qualquer atividade, como por exemplo pular 4 m de altura, mas posso pensar, pelo menos por alguns momentos, sobre o que eu mesmo decidir, num ato de concentração mental. Uma ação livre só pode partir de um pensar livre; se uma ação é baseada em sentimentos, ou em impulsos de vontade, ela não é livre, pois não podemos ter clareza nem nos nossos sentimentos, nem nas nossas vontades.

Agora posso dar uma caracterização minha do que é o bem e o mal. Fazer o bem é executar uma ação que esteja de acordo com a missão da humanidade, isto é, ajudar o desenvolvimento da liberdade e do amor altruísta. Pelo contrário, fazer o mal é prejudicar esse desenvolvimento. Adoto um outro princípio: os meios devem identificar-se com os fins; isso significa que, se queremos desenvolver a liberdade, não podemos usar de meios que vão contra ela.

Neste ponto precisamos tratar da evolução da humanidade. Segundo a Antroposofia, inicialmente o ser humano foi criado, por seres divinos, como um ser puramente espiritual. Na antiguidade remota havia consciência desse fato, como por exemplo relatado no Velho Testamento. No original, em letras latinas, “Vaivrá Elohim et-haadam b’tsalmó”, “E criou [isto é, em conjunto, como uma unidade; ou houve modificação do plural para o singular introduzida na versão masorética do Velho Testamento, produzida entre os séculos VII e X, que é a usada hoje como original] os Elohim [sim, está no plural] o ser humano à sua imagem”, Gen. 1:27. Nesse início, ele estava totalmente integrado na divindade; aos poucos, com a materialização da Terra, ele foi também se materializando, e deixando o convívio com os seres puramente espirituais. No entanto, durante um bom tempo ele mantinha esse contato, o que é representado pela grandiosa imagem do Paraíso bíblico. A sua queda na matéria é representada pela imagem de ele ter comido o fruto da “árvore do conhecimento do bem e do mal”: “Umeets hadaat tov v’ra ló tokhel mimenu qui b’iom akhalkhá mimenu mot tamut” (kh como o j espanhol, ou o ch alemão), “E da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás dela, pois no dia em que a comeres morte morrerás”, Gen 2:27, minha tradução literal. Seria interessante examinar o original antigo sem a vocalização masorética. (O Velho Testamento original antigo, por usar o hebraico sem a anotação de muitas vogais, não era petrificado como depois da vocalização; ele era lido e interpretado segundo a consciência de cada época e local.) Em primeiro lugar vem o conhecimento e depois a distinção entre bem e mal. Claramente, durante o período correspondente ao Paraíso – isto é, o período em que estava em contato direto com os seres puramente espirituais – o ser humano não tinha autoconsciência: “E ambos estavam nus, o homem e sua mulher, e não se envergonharam”, Gen 2:25, na tradução de d’Almeida. Somente quando é “expulso” dele (isto é, depois de comer da “árvore” citada) ele adquire autoconsciência: “Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus”, Gen. 3:7. Quem não tem autoconsciência, não tem consciência de estar nu, vejam-se as crianças pequenas.

No Velho Testamento, o ser humano adquire autoconsciência devido a uma ação do mal, representado pela profunda imagem da serpente. Precisamos entender bem o que isso significa. Entidades contrárias à evolução prevista do ser humano, que deveria ter sido muito mais lenta, instilaram nele uma atração pela matéria e o prazer que ela proporciona, e com isso ele começou a penetrar nela. Sem nosso corpo físico, não temos autoconsciência. Por exemplo, Rudolf Steiner diz que nosso cérebro físico reflete nossos pensamentos, que não são físicos, para nossa consciência, e assim podemos estar conscientes do que pensamos, podemos controlar nosso pensamento. Por isso uma lesão cerebral pode afetar certas atividades mentais – na verdade, o que é afetada é a consciência que temos dessas atividades. Cientificamente, não se deveria dizer, a partir dos efeitos dessas lesões, ou mesmo do registro de atividades por tomografia cerebral, que essas atividades são geradas pelo cérebro, e sim, no máximo, que certas partes do cérebro participam dessas atividades. Os cientistas materialistas, devido a sua visão de mundo, são forçados a dizer que as atividades mentais são geradas pelo cérebro, mas isso é uma hipótese que eles fazem (quando não é uma crença, o que seria uma atitude anti-científica), e não é um fato comprovadamente verdadeiro.

Seguindo uma antiga tradição esotérica, na Antroposofia os seres que instilaram no ser humano o desejo pela matéria e pelos prazeres são denominados de seres luciféricos, da hierarquia dos anjos, que são dirigidos pela entidade divina (isto é, sem corpo físico) Lúcifer. De fato, é devido a esses seres que, caindo gradativamente na matéria, separamo-nos dos seres divinos, isto é, fomos “expulsos” do paraíso, adquirindo a luz (da palavra Lúcifer) da autoconsciência. Com isso também desenvolvemos os órgãos físicos dos sentidos, podendo portanto passar a ver a luz e seus efeitos. Assim, é necessário colocar em seu devido lugar a expressão “Pecado Original”, devida a Santo Agostinho. Na época figurada pelo Paraíso o ser humano, não tendo autoconsciência, não podia ter pecado. Em alemão, a expressão é “Erbsünde”, isto é, pecado herdado, que faz muito mais sentido: depois de cair na matéria, o ser humano pode começar a errar, a pecar, e essa capacidade é herdada de pais para filhos desde aquela época. Assim, essa queda na matéria nos foi forçada pelos seres divinos luciféricos; eles desviaram-se da evolução normal do universo, atrasaram-se, e por isso têm uma atuação distinta dos anjos que estão dentro da evolução normal do universo. Por isso os primeiros são chamados de “anjos caídos”. A propósito, já que o ser humano não “pecou” para cair na matéria, mas foi lançado nela por seres divinos, um outro ser divino, de altíssima categoria, tinha que vir ajudar-nos a suplantar essa queda. Isso foi realizado pelo Eu Cósmico, o Cristo. Ele teve que sofrer os maiores sofrimentos que o ser humano pode passar, e mesmo por uma morte, experiências que só com sua incorporação em um ser humano (o Jesus bíblico) ele poderia ter tido. Depois disso, ele se encontra à disposição, exclusivamente nos mundos espirituais, para ajudar os seres humanos que a ele se dirigem.

Assim, temos um mistério profundíssimo: o ser humano é lançado na matéria por uma ação “maléfica”, mas isso redunda em um bem: com isso podemos nos tornar livres. Se tivéssemos permanecido no mundo espiritual ou em contato inconsciente com ele (como era o caso da época do Paraíso), estaríamos em contato com a sabedoria cósmica espiritual, e jamais poderíamos ter adquirido a capacidade de sermos livres. A matéria é essencial para a liberdade; é nela que podemos errar e, portanto, escolher entre fazer o bem ou fazer o mal.

Hoje os seres luciféricos têm uma outra atuação no ser humano. Eles tentam fazer com que nos desliguemos da matéria, passando a ser seres espirituais sem consciência e liberdade, como éramos na época representada pelo Paraíso bíblico. Em toda influência sobre o ser humano que diminui sua consciência há uma atuação dos seres luciféricos. Assim, toda vez que o ser humano age, por exemplo, levado por um entusiasmo que lhe tira a consciência, está nas mãos desses seres. Quando assiste televisão, um aparelho que normalmente o coloca em estado de sonolência, semi-hipnótico, encontra-se sob essa influência. A propaganda, que em minha concepção tem a intenção de induzir as pessoas a comprarem o que não necessitam, e/ou o que é mais caro, e/ou o que é de qualidade inferior, é uma manifestação luciférica. As drogas psicotrópicas também o são. Por outro lado, toda volta ao passado tem caráter luciférico, como por exemplo qualquer fundamentalismo, como é o caso do religioso.

Podemos resumir a atuação luciférica na expressão “o mundo material perde o ser humano”.

No entanto, por sua tendência a tornar o ser humano um ser espiritual desligado da Terra, os seres luciféricos podem ser usados para o bem, contrabalançando um excesso de materialidade. Por exemplo, toda boa arte tem algo de luciférico, pois traz para o mundo físico a representação de algo verdadeiro do plano espiritual.

A influência luciférica não é o único tipo de mal que aflige o ser humano. Desde o começo da materialização da Terra ocorre a influência de outra categoria de seres espirituais, mais elevada, da hierarquia dos arcanjos, constituída por uma parte deles que se atrasou em sua evolução. Seguindo uma antiquíssima tradição esotérica, que remonta ao grande Zaratustra pré-histórico, esses seres são denominados na Antroposofia de seres arimânicos, e seu lider é Árimã. Eles têm uma atuação contrária à dos seres luciféricos: tentam prender o ser humano à matéria, desligando-o totalmente do mundo espiritual. Para Zaratustra, Árimã era o ser das trevas. Apenas a partir do século IX o ser humano havia se materializado a ponto de os seres arimânicos poderem atuar decisivamente sobre ele. No entanto, foi a partir do séc. XV que essa atuação adquiriu uma potência arrasadora. Isso manifestou-se com o desenvolvimento da ciência e da filosofia materialistas. No entanto, até o séc. XIX as antigas tradições ainda conservavam no ser humano um sentimento de que ele tinha algo de espiritual. Foi o grande Darwin que quebrou as tradições religiosas, dando uma explicação teórica material para o aparecimento da espécie humana. Naquela época aquelas tradições religiosas já tinham perdido a sua substância espiritual original, tornando-se meros dogmas ou maneiras literais, materiais, de encarar as velhas escrituras, como por exemplo tratar os 7 dias da criação como dias físicos de 24 horas, e não como imagens para grandiosos acontecimentos espirituais. No entanto, é preciso hoje em dia reconhecer que o neo-darwinismo não é satisfatório. Por exemplo, não há explicações evolucionistas para o fato de os seres humanos não terem pelo ou penas, e poderem falar. Em minha opinião, é muito fácil conciliar o darwinismo materialista com um verdadeiro espiritualismo: basta ampliar o neo-darwinismo supondo-se que nem todas as mutações e nem todos os encontros que levaram às seleções naturais foram aleatórios. Assim pode-se admitir a evolução física dos seres vivos, mas ela é coordenada por seres espirituais; no caso do ser humano, principalmente por sua própria essência espiritual.

Nesse exemplo do darwinismo, vemos como o mal também vem para o bem: graças à influência materialista dos seres arimânicos, livramo-nos de tradições que impediam nossa compreensão de verdadeiros processos físicos e espirituais, perfeitamente possível de ser adquirida hoje em dia, como mostra a Antroposofia. Para isso, foi necessário que a humanidade caísse profundamente na matéria. A propósito, só pode ser um espiritualista realmente consciente quem já passou por uma fase materialista em sua vida. Uma pessoa criada no espiritualismo e que não tenha passado pela fase materialista, repetindo a evolução da humanidade, não pode ter a liberdade de escolher entre ser materialista e ser espiritualista.

Toda a tecnologia (no sentido da língua inglesa) é arimânica. Steiner caracterizou as máquinas como formando um plano subnatural. De fato, compare-se a história de qualquer máquina com a história de um simples cristal ou seixo, que levou milhões de anos para ser formado em processos físicos de uma complexidade inimaginável. No entanto, as máquinas também podem ser usadas para o bem. Em meu ensaio “A missão da tecnologia” (www.ime.usp.br/~vwsetzer/missao-tecnol.html), que não tem nada de esotérico, eu caracterizo essa missão como a de libertar o ser humano das forças interiores e exteriores da natureza. De fato, se não fosse a tecnologia, os leitores não teriam acesso a estas minhas palavras, isto é, eu não teria liberdade de atingi-los, e nem eles de me lerem. Quando viajo para a Europa para visitar as famílias de minhas filhas que lá moram, uso um avião, que me dá a liberdade de ir para lá, o que seria impossível se eu usasse apenas minhas forças naturais, isto é, ir nadando.

Goethe teve uma intuição da possibilidade de se transformar o mal arimânico em bem. Na cena do estúdio, Fausto pergunta a Mefistófeles (que bem representa Árimã) quem este é, e recebe a resposta “Ich bin diejen’ge Kraft/die stets das Böse will/und stes das Gute schafft”, “Eu sou aquela força/que sempre quer o mal/mas sempre cria o bem” (minha tradução literal).

Note-se que não é a influência luciférica, como o fundamentalismo religioso, que está destruindo a natureza, e sim a tecnologia arimânica. Basta se respirar o ar de São Paulo para sentir isso; vejam-se ainda toda a poluição causada pelas máquinas, os desastres de Tchernob’il e de Fukushima, e ainda os desastres ecológicos que as plantas e animais transgênicos estão começando a causar. Assim, hoje em dia Árimã suplanta em muito a influência de Lúcifer.

Caracterizei qualquer volta ao passado como sendo luciférica; pois qualquer adiantamento do futuro é arimânico. Penso que a Internet é um desses adiantamentos: a humanidade simplesmente não está preparada para tanta liberdade. Temo que os males que a Internet esteja produzindo, principalmente em crianças e adolescentes, ultrapasse de longe os seus benefícios. A esse respeito, ver meu artigo “Como proteger seus filhos e alunos da Internet” em www.ime.usp.br/~vwsetzer/como-proteger-resenha.html.

O materialismo, a ciência e a tecnologia são, na minha opinião, as maiores expressões arimânicas de hoje em dia.

Podemos resumir a atuação de Árimã como “o ser humano perde-se na Terra”.

O conhecimento dessas duas forças é absolutamente essencial para o ser humano de hoje. Por exemplo, somente compreendendo a influência arimânica dentro das máquinas e por meio delas, e compreendendo profundamente sua atuação no ser humano, é que se podem colocá-las em seu devido lugar. Por exemplo, uma TV com vídeo pode ser usada para ilustração de certos tópicos nas escolas, talvez a partir da 8ª série. Mas, devido ao estado de sonolência que ela induz, isso tem que ser muito breve, durando poucos minutos, seguido de discussões e repetição dos vídeos. Já alguns aparelhos, como os video games violentos, não podem ter uma utilização positiva.

É muito importante também reconhecer que Lúcifer e Árimã atuam em conjunto, apesar de terem tendências opostas. É que eles têm, em minha opinião, uma tendência comum, e colaboram para ela: impedir que o ser humano se torne a 10a hierarquia espiritual, um ser espiritual com liberdade e cuja atuação seja puramente a do amor altruísta. De fato, ambos são contra a liberdade, pois querem aprisionar o ser humano um, no espírito, desligando-o da matéria, e outro na matéria, desligando-o do espírito. O egoísmo, o contrário do amor altruísta, tem características tanto luciféricas como arimânicas. Por exemplo, uma pessoa pode ser dominada pelo sentimento de prazer pessoal, ou pode querer apenas bens materiais, respectivamente, em ambos os casos sem se importar com prejuízos que cause a outrem. Um outro exemplo da atuação conjunta desses seres é a TV: um aparelho arimânico que induz um estado luciférico de semi-consciência.

Note-se que os seres espirituais que desejam o progresso positivo de ser humano não podem interferir na liberdade, por isso se afastaram. Daí advém toda a confusão social, cultural e material (como a destruição da natureza) em que estamos vivendo. Ainda na época do antigo Egito e da antiga Grécia, os seres espirituais podiam influenciar os seres humanos, o que faziam por meio dos iniciados nos antigos mistérios. O Velho Testamento e todos os escritos sagrados de todos os povos relatam o contato que os seres humanos tinham com seres divinos positivos, na época em que os primeiros ainda precisavam de orientação. No entanto, os seres maléficos não têm essa restrição: eles interferem sem pejo nos seres humanos. Daí a necessidade premente de reconhecê-los, evitando sua atuação e transformando-os em bem.

Há ainda duas categorias de seres, ainda mais elevados, que representam o mal, mas não vou discorrer sobre eles, pois sua atuação ainda não é tão presente como dos dois já citados, a não ser para dizer, que uma delas, da categoria dos arqueus, mas atrasados em sua evolução, quer destruir o ser humano fisicamente (e não atraí-lo para si, como no caso dos seres luciféricos e arimânicos). A outra não faz parte da evolução da humanidade, e precisa valer-se das outras três para sua atuação: é o anti-Cristo do Apocalipse de João. Para mais detalhes, ver de Sergei Prokofieff O Encontro com o Mal e Sua Superação na Ciência Espiritual, São Paulo: Ed. Antroposófica, 2006.

Infelizmente, algumas correntes espiritualistas negam a existência do mal. Isso remonta a Santo Agostinho, que tinha sido maniqueu, mas não concordando com os princípios e práticas dessa seita cristã esotérica, voltou-se contra ela, perseguindo-a. Para ele Deus, por ser essencialmente bom, não podia ter criado o mal; este seria simplesmente a ausência de Deus.

Segundo a Antroposofia, o mal existe e é uma necessidade. Sem ele não teríamos corpo físico e nem poderíamos ser livres. O mal é um bem deslocado no tempo e no espaço. Ele não deve ser eliminado, mas sim reconhecido e sublimado, transformado em bem por atos de amor altruísta. Os citados maniqueus tinham uma maravilhosa expressão que ilustra muito bem esse fato: “Ame bem o mal.”

– – –

Ver também o artigo “A questão do mal”, de Carlos Augusto Maranhão, em www.sab.org.br/antrop/a-questao-do-mal.htm

 

AS SETE LEIS ESPIRITUAIS DO SUCESSO

1. A lei da potencialidade pura
2. A lei da doação
3. A lei do carma, ou de causa e efeito
4. A lei do mínimo esforço
5. A lei da intenção e do desejo
6. A lei do distanciamento
7. A lei do darma, ou do propósito de vida

1 – A LEI DA POTENCIALIDADE PURA

A fonte de toda a criação é a conscientização pura… a potencialidade pura que busca expressar-se do não manifesto ao manifesto… E quando descobrimos que nosso verdadeiro Eu é potencialidade pura, alinhamo-nos à força que coordena tudo no universo.

No princípio
Não havia existência ou inexistência
O mundo era energia não revelada…

ELE vivia, sem viver, por SEU próprio poder
E nada mais havia…

– Hino da Criação, do Rig Veda.

A primeira lei espiritual do sucesso é a lei da potencialidade pura. Essa lei se apoia no fato de que somos, essencialmente, consciência pura. Consciência pura significa potencialidade pura. É o campo de todas as possibilidades e da criatividade infinita. Consciência pura é a nossa essência espiritual. Ser infinito e ilimitado é pura satisfação. Outros atributos da conscientização são o conhecimento puro, o silêncio infinito, o equilíbrio perfeito, a invencibilidade, a simplicidade, a felicidade. Essa é a nossa natureza essencial, que é potencialidade pura.

Quando você descobre sua natureza essencial, quando sabe quem realmente é, encontra toda a sua potencialidade. É no conhecer-se que reside a capacidade de realização de todos os sonhos, porque você mesmo representa a possibilidade eterna, a imensurável potencialidade de tudo o que foi e poderá vir a ser.

A lei da potencialidade pura também poderia ser chamada de lei da unidade, pois sob a diversidade infinita da vida encontra-se a unidade do espírito da pessoa. Não existe separação entre você e esse campo de energia. O campo da potencialidade pura é o próprio Eu. E quanto mais você busca a sua verdadeira natureza – o próprio  Eu – mais se aproxima do campo da potencialidade pura.

Na experiência do Eu, chamada auto referência, nosso ponto de referência interior é o espírito e não aquilo que nos rodeia. O seu oposto é o objeto-referência, cujo ponto de referência interior é o ego. Na experiência do objeto-referência nos deixamos influenciar pelo que acontece fora de nossa natureza interior: pelas situações, circunstâncias, pessoas, coisas. Neste estado buscamos incessantemente a aprovação dos outros: nossos pensamentos e comportamentos antecipam-se a toda resposta, porque fundamentam-se no medo.

No objeto-referência nossa tendência é querer controlar as coisas, ter necessidade do poder externo. Todas essas situações – necessidade de aprovação, de poder externo, de controle das coisas – estão baseadas no medo. Esse tipo de força não é a da potencialidade pura, o poder do Eu, o poder real.

Se experimentamos o poder do Eu, não há medo, não há compulsão para o controle, não há esforço para obter aprovação, ou para conseguir o poder externo.

No estado do objeto referência o ego está em primeiro lugar. Mas ele não expressa o que você realmente é. O ego reflete apenas a sua auto imagem, a sua máscara social, o papel que você representa. Sua máscara social necessita de aprovação, de controle, de apoio no poder, porque vive com medo.

Seu verdadeiro Eu – que é seu Espírito, sua alma – está livre dessas coisas. É imune à crítica. Não teme desafios. Não se sente inferior a ninguém. Mas também é humilde. Não se sente superior, porque reconhece que todas as pessoas representam o mesmo Eu, o mesmo espírito com diferentes faces.

Essa é a diferença essencial entre auto referência e objeto referência. Na auto referência você experimenta seu verdadeiro Eu, que não teme desafios, respeita todas as pessoas e não se sente inferior a ninguém. O autopoder é, portanto, o verdadeiro poder.

Já o poder assentado no objeto referência é um falso poder. Por estar fundamentado no ego, ele existe enquanto existir o objeto de referência. Se você tem muito dinheiro, ou um título, um cargo importante – presidente de um país, presidente de uma empresa -, esse poder tão apreciado desaparecerá juntamente com o dinheiro, com o título, com o cargo. O poder baseado no ego, portanto, termina quando acabam essas coisas. Assim que desaparecem – seja o título, o cargo, o dinheiro – o poder também desaparece.

O autopoder, no entanto, é permanente, porque está fundamentado no conhecimento do Eu. O autopoder tem características próprias. Ele atrai não só as coisas que você deseja, como as pessoas que possam lhe interessar. Magnetiza as pessoas, as situações e as circunstâncias que alimentam seus sonhos, apoiando-se nas leis naturais. É também o suporte da divindade que se encontra num ser em estado de graça. É tão intenso esse poder que você encontra prazer em se ligar às pessoas e elas a você. É o poder do vínculo – vínculo originado do amor verdadeiro.

Como é possível aplicar a lei da potencialidade pura, o campo de todas as possibilidades, em nossa vida rotineira? Se você deseja desfrutar os benefícios do campo da potencialidade pura, se quer fazer pleno uso da criatividade  que é inerente à consciência pura, precisará ter acesso a ele. Uma forma de conseguir isso é se entregar diariamente a momentos de silêncio, praticar a meditação, evitar julgamentos. Viver em contato com a natureza é outra maneira de ter acesso às qualidades inerentes a esse campo: a infinita criatividade, a liberdade, a felicidade.

Praticar o silêncio significa assumir o compromisso de reservar uma certa quantidade de tempo para simplesmente ser. Experimentar o silêncio significa afastar-se periodicamente da atividade da fala. Significa, também afastar-se, periodicamente de atividades como assistir à televisão, ouvir um rádio, ler um livro. Se você nunca se entregar à experiência do silêncio, estará provocando turbulência em seu diálogo interior.

Sempre que possível reserve tempo para experimentar o silêncio. Ou assuma o compromisso de manter o silêncio durante um certo período, diariamente. Poderia fazê-lo por duas horas, por exemplo. Se isso lhe parecer muito, faça-o por uma hora apenas. Mas tente sempre aumentar este tempo, experimentar o silêncio por um tempo cada vez maior, um dia inteiro, dois dias, uma semana.

O que acontece quando você entra na experiência do silêncio? No início, seu diálogo interior fica mais turbulento. Sente uma  necessidade intensa de dizer coisas. Conheci pessoas que ficavam completamente loucas nos primeiros dias em que se comprometiam a estender o período de silêncio. Eram tomadas por uma sensação de urgência e ansiedade. Mas quando persistiam na experiência, seu diálogo interior começava a se aquietar. E o silêncio logo se tornava profundo. Isso acontece porque depois de um tempo a mente desiste. Ela se dá conta de que não adianta ficar dando voltar e voltas se você – o Eu, o espírito – não vai falar e ponto final. Então, quando o diálogo interior silencia, você começa a experimentar a quietude do campo da potencialidade pura.

Praticar periodicamente o silêncio da forma que lhe for conveniente é uma maneira de experimentar a lei da potencialidade pura.

A meditação é outra. O ideal seria que você meditasse pelo menos trinta minutos pela manhã e trinta minutos à noite. Pela meditação você aprende a experimentar o campo do silêncio puro e da percepção pura. Nesse campo do silêncio puro está o campo da correlação infinita, o campo do infinito poder de organização, o supremo terreno da criação, onde todas as coisas estão inseparavelmente conectadas a tudo que existe.

Na quinta lei espiritual, a lei da intenção e do desejo, você verá como é possível introduzir um leve impulso de intenção neste campo, para que seus desejos surjam espontaneamente. Mas antes você precisa experimentar a quietude. A quietude é o primeiro requisito para que seus desejos se manifestem. Ela o transporta ao campo da potencialidade pura com infinitas possibilidades de realização.

Imagine-se atirando uma pedrinha num lago tranquilo e observando as ondas que se formam. Momentos depois, quando as ondas cessam, você atira outra pedra. É exatamente o que fazemos quando entramos no campo do silêncio puro e introduzimos uma intenção. No silêncio a intenção mais remota espalha ondas sobre o leito da consciência universal, que interliga todas as coisas. Mas se você não experimentar a quietude da consciência, se sua mente continuar como um oceano turbulento, pode jogar o edifício Empire States dentro dela que nem vai notar.

Na Bíblia há uma frase: “Fique em silêncio, sinta a Minha Presença e saiba que EU SOU Deus”. Isso só se consegue através da meditação.

Outra maneira de acessar o campo da potencialidade pura é através do não julgamento. Julgar é estar constantemente avaliando as coisas como certas ou erradas, boas ou más. Se você está constantemente avaliando, classificando, rotulando, analisando, cria muita turbulência em seu diálogo interior. Essa turbulência restringe o fluxo de energia entre você e o campo da potencialidade pura. Literalmente, você diminui o “espaço vazio” entre os pensamentos.

É através desse espaço vazio que você se liga ao campo da potencialidade pura. É esse estado de percepção pura, esse espaço silencioso entre os pensamentos, essa quietude interior que põe você em contato com o poder verdadeiro. Se você diminuir esse espaço, estará restringindo a sua conexão com o campo da potencialidade pura e da criatividade infinita.

Há uma oração que diz: “hoje não julgarei nada que aconteça”. O não julgamento cria silencio em sua mente. É uma boa ideia, portanto, começar o dia com essa frase. E durante o dia, lembrar dela toda vez que se pegar julgando alguma coisa. Se achar difícil fazer isso durante todo o dia, pelo menos se comprometa a não julgar nada “nas próximas duas horas”, ou “durante uma hora”. Depois, gradualmente, vá aumentando esse tempo.

Pelo silêncio, pela meditação, pelo não julgamento você terá acesso à primeira lei, a lei da potencialidade pura. Quando conseguir isso, poderá acrescentar um quarto componente a essa prática: o contato direto com a natureza, seja num riacho, numa floresta, montanha, lago, praia. Essa comunhão com a natureza o levará a uma interação harmoniosa com todos os elementos das forças vitais e lhe dará a sensação de união com todas as coisas vivas. Ela permitirá, também, o acesso ao campo da potencialidade pura.

Você precisa aprender a entrar em contato com a  mais profunda essência de seu ser. Ela está além do ego, é isenta de medo, livre, imune à crítica, não teme nenhum desafio. Não é inferior nem superior a ninguém, é pura magia, mistério, encantamento.

O acesso à sua verdadeira essência também lhe dará uma pista sobre os seus relacionamentos, pois todo relacionamento é um reflexo do relacionamento que você tem consigo mesmo. Por exemplo, se você sente culpa, medo, insegurança em relação ao dinheiro, ao sucesso, ao que for, isso é reflexo de aspectos básicos de sua personalidade, aspectos de culpa, medo e insegurança. Nenhuma quantia de dinheiro ou sucesso resolverá esses problemas básicos da sua vida. Somente a intimidade com o seu verdadeiro Eu, permitirá superar tais problemas.

Quando você conhece bem seu verdadeiro Eu, quando compreende realmente a sua verdadeira natureza, não sente culpa, nem medo, nem insegurança, seja em relação a dinheiro, abundância, ou realização dos desejos, pois sabe que a essência de todos os bens materiais, é energia vital, é potencialidade pura. E potencialidade pura é a sua natureza intrínseca.

Quanto mais você acessa a sua verdadeira natureza, mais espontaneamente aparecem os pensamentos criativos, porque o campo da potencialidade pura também é o campo da criatividade infinita e do conhecimento puro. Franz Kafka, filósofo e poeta austríaco disse certa vez: “Você não precisa sair de seu quarto. Fique sentado diante da mesa e ouça. Não precisa nem ouvir, simplesmente espere. Não precisa nem esperar, aprenda somente a ficar quieto, silencioso, solitário. O mundo se oferecerá espontaneamente a você para ser descoberto. Ele não tem outra escolha senão jogar-se em êxtase a seus pés.”

A riqueza do universo, a visível abundância do universo, é uma expressão do poder criativo da natureza. Mas primeiro você tem de superar a turbulência do seu diálogo interior para entrar em contato com esse abundante, pródigo e infinito poder. Só então criará a possibilidade de uma atividade dinâmica e terá consigo a quietude da mente eterna, ilimitada e criativa. Essa requintada combinação de mente silenciosa – ilimitada e infinita – com mente dinâmica – limitada e individual – estabelece um equilíbrio perfeito entre quietude e movimento simultâneos, o equilíbrio criador de tudo o que você quiser. A coexistência dos opostos – quietude e dinamismo ao mesmo tempo – torna você independente das situações, das circunstâncias, das pessoas, das coisas.

Quando você compreende a requintada coexistência dos opostos, entra em alinhamento com o mundo da energia, o caldo quântico, a substância imaterial, que é a fonte do mundo material. O mundo da energia é fluente, dinâmico, elástico, mutável, eterno movimento. Ao mesmo tempo é imutável, quieto, tranquilo, silencioso, eterno repouso.

A quietude por si só é o potencial da criatividade. O movimento por si só é a criatividade restrita a certos aspectos da sua expressão. Mas a combinação do movimento com a quietude capacita você a desencadear sua criatividade em todas as direções – até onde o poder de sua atenção o possa levar.  

Se a quietude acompanha sempre o movimento e a atividade, seja qual for a direção que você seguir, o movimento caótico ao seu redor não poderá impedir seu acesso ao reservatório da criatividade, ao campo da potencialidade pura.

APLICAÇÃO DA LEI DA POTENCIALIDADE PURA

Você pode colocar a lei da potencialidade pura em ação assumindo o compromisso de dar os seguintes passos:  

1)   Entrar em contato com o campo da potencialidade pura, reservando um momento do dia para ficar em silêncio, para apenas ser. Ficar sozinho em meditação silenciosa pelo menos duas vezes ao dia por, aproximadamente, trinta minutos pela manhã e trinta minutos à noite.  

2)   Reservar um período do dia para comungar com a natureza e observar em silêncio e assistir ao pôr-do-sol, ouvir o ruído do oceano ou de um rio, ou simplesmente sentir o perfume de uma flor. No êxtase do silêncio, e em comunhão com a natureza, desfrutar a pulsação vital das eras, o campo da potencialidade pura e da criatividade ilimitada.  

3)   Praticar o não julgamento. Começar o dia dizendo: “hoje, não julgarei nada que aconteça” e durante todo o dia lembrar de não fazer julgamentos.

AS SETE LEIS ESPIRITUAIS DO SUCESSO
AUTOR DEEPAK CHOPRA
EDITORA BEST SELLER

Como escolher um presente que seja bem aceito?

Todo pai de família, mais ainda quando já criou os filhos e foi merecedor da vida até o tempo da chegada dos netos, em meio a onda avassaladora do consumo, das marcas, dos tipos e modelos e infinita gama de produtos para todos os gostos; marcando presença na passagem do Natal e Ano Novo, logo começa a conferir a quantia economizada no ano buscando “não fazer feio” presenteando cada um deles com algo da “moda”.

A mídia já se encarregou de botar na cabeça de filhos e netos “produtos” high tech e muito avô acaba caindo na armadilha do “crédito consignado” engrossando a leva dos inadimplentes, sem se dar conta que o maior presente ele já deu, mas que ainda pode dar-lhes um outro presente por conta da direção, do norte, do rumo para que possam sair por sendo aplaudidos e admirados pela massa ostentando o bem mais valioso que uma pessoa poderá possuir que é o saber, o conhecimento e a direção segura para prosseguir avançando mais e mais.

Foi buscando no “mercado” que encontrei um presente que meus descendentes podem carregar por toda vida, sem estragar, perder a validade ou ficar fora de moda. E mais, um presente na medida certa sem que o aposentado aqui precise lançar mão do crédito consignado, pois no meu caso teria que presentear quatro filhos, noras e oito netos.

O leitor poderá estar curioso de como resolver essa pendenga sem gastar um só centavo de real?

É fácil, transfira a eles um presente que serve também para o futuro, trata-se do CONHECIMENTO (grifei).

Ouvinte assídio que sou da rádio CBN, uma das emissoras do Sistema Globo de Rádio, que vi nascer e que agora comemora vinte anos, encontrei o tal presente, GRÁTIS! (grifei novamente).

Avôs, vovós, pais e tutores “comprem” a vontade.

Antonio Devanir Leite – Outubro/2013

——————————————

http://www.youtube.com/watch?v=Qz94SC2pZoI

Do que trata o livro:

“O trabalho é bem real, a ilusão é achar que ele é nosso, acreditar que está a serviço do que a gente quer”. A afirmação é do presidente da consultoria LHH/DBM, José Augusto Figueiredo, entrevistado do programa Mundo Corporativo, da rádio CBN. Figueiredo é autor do livro “My Job, Doce Ilusão — Descubra quem você é e construa a sua carreira”, publicado pela Editorá Évora. Ele explica que o trabalho tem de estar a serviço dos outros: “o que a gente precisa pensar e fazer é servir ao outro, ao Mundo e à sociedade, e através deles obter o seu reconhecimento. Na entrevista, o consultor apresenta recomendações importantes principalmente para os jovens que estão chegando ao mercado de trabalho.

Estou feliz no meu atual trabalho? O que eu devo fazer para crescer e florescer rapidamente na vida profissional? Qual o melhor caminho? Será que minhas escolhas serão ou foram acertadas? Como me preparar para o futuro num contexto que muda em alta velocidade, cheio de ambiguidades e paradoxos? Considero-me bem sucedido? Qual o meu sonho? Será que a felicidade profissional é uma doce ilusão? Como dar uma virada na minha vida?

De forma inovadora, numa linguagem leve, os dilemas da crua realidade aspiracional humana são explorados através de um delicioso e intrigante romance que conta a saga de quatro jovens que vivenciam as mazelas do mundo do trabalho.

Com uma proposta atemporal e construtiva, José Augusto Figueiredo levará os leitores de todas as senioridades, a refletirem sobre passado, presente e futuro de suas atitudes e escolhas, através dos olhos questionadores de jovens que ingressam no tabuleiro do jogo profissional.

Para um mercado de trabalho extremamente competitivo, no qual a força de trabalho da maioria das empresas é constituída de quase 40% de jovens com menos de 35 anos, ele nos convida a participar das incertezas, frustrações e aventuras dos personagens de “My Job – Doce Ilusão”, provocando uma grande reflexão para líderes experientes e jovens sonhadores que querem mudar um mundo.”

Esta entrada foi publicada em Uncategorized. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s