cabala

Yesh = existência
Ain/ein = nada, não-ser, não-existência
Kiyum = existência cumprida

A finalidade da criação “yesh me-ain”, da criação “ex nihilo”, segundo o Chabad, é fazer que o “yesh”, o que existe, identifique-se com o que não existe, o nada, o não-ser, o “ain”. Este desígnio só pode ser realizado pelo homem, que existe no “yesh”, mas que é igualmente capaz de viver no “ain”.

O “yesh”, a vida material, parte do “ain”, da fonte da vida, e desemboca,
novamente, no “ain” da vida autêntica. Graças a seu caráter transitório,
o “yesh” adquire seu pleno valor de permanência, de durabilidade, ou seja, “subsiste” e realiza seu “kiyum”. O homem, que deixou inconsciente e involuntariamente, a seu pesar, a fonte da vida, uma vez que se faz consciente trata de retornar a ela livremente e por amor puro.

O homem é a personificação do “yesh”, e se for considerado como uma entidade autônoma e permanente, separado de sua origem e ainda sem se preocupar sobre sua finalidade, cai no “pecado” da mesma maneira como Adam separou a “árvore do ‘yesh'”, a “árvore da ciência do bem e do mal”, da “árvore do ‘ain’”, a “árvore da vida”, acreditando ser capaz de dispor do “yesh” conforme sua vontade e condenado-se, por isso, a morrer, ou seja, experimentar o “sabor” amargo da morte.

Quando chega a distinguir o “yesh” do “ain”, de onde procede seu pesar, mas para o qual pode dirigir-se à vontade, libera-se de sua angústia da morte. Compreende que sua chegada ao “yesh” é uma prova do amor de Deus. Deus quer que o homem viva no “yesh”, e não só que exista nele, que não morra, senão que se eleve novamente, por iniciativa própria, até Ele.

A distinção que o homem deve estabelecer entre o “yesh” e o “ain” está
relacionado com a distinção que deve realizar entre existência e vida, assim como entre morte e vida, entre o aparente e o real, entre o falso e o verdadeiro, entre a escravidão e a liberdade.

Esta distinção é fruto do conhecimento do bem e do mal, associado, por sua vez, a vontade de realizar uma obra criadora. Entretanto, não poderia ser perfeitamente clara posto que o “yesh” não permite uma limpidez absoluta. E isso faz parte da vontade pluralizante do Criador, e está constituído “pelo bem e pelo mal”, por um bem que pode converter-se em mal e por um mal que pode ser transformado em bem. Sem um certo grau de confusão do “yesh”, cessaria a atração que o pecado exerce e a liberdade humana ficaria anulada posto que então não teria nenhuma possibilidade de escolha.

O limite entre o “yesh” e o “ain” é, por isso, bastante fluido: “todas as
criaturas estão compostas de “ain” e de “yesh”; o homem não deve
confundi-los, nem deve permitir que o “yesh” absorva ao “ain”, nem que o “ain” absorva ao “yesh”. Convém que o “yesh” se purifique no “ain”, que o corpo se purifique na alma, e que o “yesh” se deixe penetrar, no amor, pelo “ain”.

O que o “yesh” inspira e suscita não é uma atitude de desprezo: o homem da cabala não desperta nenhuma visão pessimista da existência, nem uma tendência ascética. O “yesh” é um estado provisório, de modo que há que considerá-lo como tal para melhor utilizá-lo. Corresponde a uma fase preparatória que conduz ao “ain” e deve ser posto ao serviço do bem, porque foi incluído nos planos de Deus.

O “yesh” não é uma ilusão, mas pode vir a sê-lo quando mantido longe de sua origem e meta. O “yesh” só tem realidade em virtude de sua vinculação com o “ain”. O “ain” sempre é mais real do que todas as realidades do mundo. O “ain” (o “klum” = o nada) é o “kol” (o todo), enquanto que o “yesh”, o existente, é unicamente uma forma singular e efêmera do “ain”.

Teshuvá = retorno

(…) quando Deus criou o mundo no amor e para o bem, confiou no justo, no homem a quem deu o título de criador. Deus criou o “yesh” e o opôs ao “ain” para que o homem, em uso de sua liberdade, unisse o “yesh” ao “ain”. A ação criadora e redentora do homem, indicada por Deus, consiste em restabelecer o “yesh” em sua condição original de “ain”: a pluralidade do “yesh” se funde na unidade do “ain”.

É um ato de “teshuvá”, de retorno, de cura cósmica que o homem deve
realizar. Desde sua saída do “ain”, o homem aspira reencontrar-se nEle.
E essa é a razão de se descobrir, no “yesh”, parcelas do “ain”, manifestações da vontade original. O homem, em busca da harmonia, reúne fragmentos da vontade divina dispersos pelo mundo, os combina num todo e os devolve a sua origem: à Vontade Suprema, geral; deste modo, o homem realiza uma obra unificadora, complementar da obra primordial divina: uma obra redentora. Faz com que a vontade, una, divina, reine no mundo; e assim restabelece a ordem perfeita no universo. (…)

Avodá = trabalho
Ani = eu
Ain –> Ani–> Ain

(…) A obra de salvação é a meta de um longo “avodá”, de um trabalho
contínuo realizado pelo homem. Este é o servidor de Deus, aquele
quem dirige seus pensamentos, suas palavras e seus atos a um mesmo
objetivo redentor. O trabalho cotidiano e a oração de cada dia se
complementam mutuamente: juntos constituem o “avodá” exigido por
Deus.

Assim o homem restaura a obra divina, degradada não só pelo
pecado humano senão também pela própria vontade de Deus. Reconduz
o”yesh” ao “ain”, mas não por isso renuncia, como personificação que
é do “yesh”, a sua própria individualidade, a seu próprio eu. Retorna ao
“ain”, mas conserva seu “ani” (eu).

No momento do seu primeiro encontro com o homem, Deus surgiu do
“ain” para adquirir a forma de um “ani” que se oferece ao ser humano.
O homem, por sua vez, há se metamorfoseado de “ani” em “ain”: há se
“aniquilado” diante de Deus. Mas a consciência de sua aniquilação só
lhe é dada pelo reforçamento de seu “ani”. Não se submergiu em Deus,
não abdicou de sua própria personalidade, nem abandonou sua tarefa.
(…)

(Rabino Alexandre Safran)

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